sexta-feira, 15 de março de 2013

AS BASES IDEOLÓGICAS DO 'HIT-PARADE' À BRASILEIRA


Por Alexandre Figueiredo

Até pouco tempo atrás, fazia muito barulho a hegemonia de cientistas sociais e jornalistas culturais diante da defesa da chamada "cultura de massa". Vários não mediam escrúpulos para desaconselharmos a debater as questões sobre nova ou velha MPB, cultura nacionalizada ou estrangeirizada, e mesmo questões superadas como a questão do uso da guitarra elétrica da música brasileira eram realimentadas em falsas polêmicas.

Não dá para entender por que uma intelectualidade tão (em tese) comprometida com causas "progressistas" - embora, no fundo, ela seja aliada tanto dos barões da grande mídia quanto de investidores como George Soros e os herdeiros do magnata Nelson Rockefeller -  recomende as pessoas a não discutir sobre música brasileira e aceitar qualquer coisa que é "sucesso". Tudo pelo "popular".

O que dá para inferir é que existem interesses escusos em jogo, como aqueles ligados à mídia e ao mercado, e é apenas uma questão de habilidade discursiva que esses intelectuais adotem um discurso confuso mas sofisticado para defender o "estabelecido", até mesmo "negando" a grande mídia e o grande mercado

E como se dá esse discurso, que, no fundo, traz as bases ideológicas para o desenvolvimento de um mercado de hit-parade brasileiro, mesmo a pretexto de promover "novas mídias", "culturas independentes", "meios alternativos" e "novos paradigmas" até para os direitos autorais, dentro daquele processo denominado, de forma bem cafajeste, de "copyleft"?

O HIT-PARADE DOS EUA SE ANCOROU NA MÚSICA SOUL. E O DO BRASIL?

Evidentemente, o hit-parade dos EUA existe há muito tempo, mesmo nos tempos de segregação racial que chegou a dividir o jazz na sua forma propriamente dita, apreciada pelo público negro, e na forma comportada feita para o público branco, chamado de Dixieland. São questões superadas, mas que já apresentavam caraterísticas da ideologia do sucesso comercial da música contemporânea.

Aliás, foi justamente a soul music, ritmo surgido de uma derivação direta do rhythm and blues, que, a partir de 1958, lançou o paradigma da música de sucesso nos EUA. Selos como Motown e Stax se fortaleceram por lançarem inúmeros sucessos do gênero, alimentando o prestígio de "listões" como Cashbox e Billboard, entre outros.

Com o tempo vieram tendências mais dançantes e outras mais românticas. Umas orquestradas, outras lançando o sintetizador. A disco music tornou-se um marco neste sentido e sua trajetória forneceu os padrões que passariam a valer sobretudo nos anos 80 e 90, no que nem sempre é facilmente compreendido como música comercial de sucesso nos EUA, superestimada sobretudo pelo público brasileiro.

E o Brasil? Se as lutas do movimento negro viraram pretexto para a indústria fonográfica pegar carona no sucesso dos artistas negros, distorcendo, com o tempo, os elementos artísticos e culturais originários da soul music, no Brasil as "paradas de sucesso" teriam que se lançar através de uma "causa nobre", geralmente vinculada a uma pragmática pós-Tropicalismo.

O COMERCIALISMO PÓS-TROPICALISTA

Sim, desenvolver um mercadão musical brasileiro necessita de algum enunciado nobre, pra justificar sua implantação e crescimento. Pregam-se valores e personalidades de grande valor que abririam as portas para um mercado que depois deixaria de lado esses mesmos valores e personalidades.

Se os norte-americanos tinham os Freedom Riders (Viajantes da Liberdade), Malcolm X, Martin Luther King, a música folk e a Contracultura, além da "nação" Woodstock do "poder da flor", o Brasil também vê construir-se, a partir de uma retórica intelectual organizada, os fatores "nobres" para a formação do hit-parade à brasileira.

Mas como o hit-parade envolve interesses comerciais dentro de um processo político e econômico um tanto elitista e paternalista, é evidente que os Centros Populares de Cultura da UNE e o ISEB (Instituto Superior de Estudos Brasileiros) continuam desprezados ao extremo, e talvez até mais desprezados, na medida em que os intelectuais de hoje seguem uma abordagem bastante depreciativa dessas duas instituições.

Por isso, deixa-se de lado qualquer apreciação dos debates e expressões de cultura brasileira antes de 1967, considerado ano marco da abordagem cultural que a intelectualidade dominante entende como "moderna". É a partir desse ano do auge da Jovem Guarda e da ascensão do Tropicalismo, que o Brasil abre escancaradamente suas portas para a "cultura de massa".

Feita a tese "fukuyamiana" de "fim da História" para a Música Popular Brasileira, lançam-se as sementes para o hit-parade, a partir de artistas que continuam significando fontes de muita informação artística e cultural.

Desse modo, os paradigmas da MPB autêntica apreciados pela intelectualidade são apenas aqueles associados direta ou indiretamente à tríade Jovem Guarda / Tropicalismo / Sambalanço - com seus respectivos artistas-símbolo Roberto Carlos, Caetano Veloso e Jorge Ben (Jor) - e artistas de fases anteriores de alguma forma vinculados a essa "abertura", de Inezita Barroso a Marcos Valle.

Há uma ênfase maior na MPB autêntica de 1967-1979, além da reverência a nomes que gravaram tardiamente discos próprios, como o sambista Cartola. Há também uma dedicação maior aos "malditos" da MPB, a partir de Jards Macalé e Tom Zé, como forma de fazer um apreço aos considerados marginalizados pelo mercado dominante.

Só que o aspecto negativo desse processo está na apreciação, por parte dessa intelectualidade, de uma pretensa cultura de gosto bastante duvidoso como se fosse a "moderna cultura das periferias", e que consiste na chamada música brega e todos os derivados que defino como Música de Cabresto Brasileira, a forma musical do brega-popularesco.

Isso porque se trata de cantores e intérpretes de qualidade discutível, mas com apelo popular facilmente trabalhável pelo mercado. São ídolos que não exigem grande investimento, não expressam avaliações críticas sobre o mundo e musicalmente são tão precários que qualquer pessoa com baixa instrução consegue entendê-los.

Nos últimos anos, dois ideólogos principais dividiram essa missão de defender os bregas. Paulo César Araújo, historiador, se dedicou ao brega mais antigo. Hermano Vianna, antropólogo, se dedicou ao brega mais contemporâneo. Ambos comprometidos em lançar as bases para o hit-parade sob o pretexto de estarem defendendo uma "cultura nova e libertária".

Outros intelectuais se juntaram a eles para diversificar o tom da campanha, ampliando as abordagens em defesa do brega-popularesco, não só musical, mas também midiático e comportamental. E os pretextos se ampliaram e se inspiraram na aparente subversão de regras e paradigmas norte-americanos de comercialismo cultural.

Assim, eles evocavam um estranho universo, supostamente alternativo, baseado numa combinação entre o sub-emprego e outras degradações sociais nas classes pobres e as formas de rebelião tecnológica e comportamental, como se estivessem aproveitando o sentido ambíguo do termo "sub" que junta, num "balaio de gatos", a vanguarda da cultura alternativa e a retaguarda dos bregas.

Esses intelectuais alternavam o discurso, dentro do repertório de seus sucessivos textos. Falavam de Clementina de Jesus num texto, e de Tati Quebra-Barraco em outro. Ou então elogiavam Sérgio Ricardo e Sérgio Sampaio num texto, para depois defenderem Calcinha Preta e Banda Calypso. E que Itamar Assumpção aguentasse na "pátria espiritual" se ele for usado por um jornalista como um gancho para defender um Mr. Catra.

E dentro de uma salada discursiva, junta-se a Passeata dos Cem Mil, Carlos Marighela, rádios comunitárias, poesia marginal, Cinema Novo, lutas sindicais, Anonymous, Julian Assange e tudo o mais para que a intelectualidade, como quem junta caviar e fezes numa mesma panela, defenda a mediocridade cultural "com categoria".

Só que poucos imaginam que, com o tempo, essa mesma intelectualidade "de esquerda" irá comemorar seus louros no Instituto Millenium, festejando o império brega formado pela retórica sofisticada cujo discurso será prontamente esquecido e seus valores e símbolos, antes bajulados, combatidos e condenados ao esquecimento.

Isso porque, quando o hit-parade brasileiro, formado por uma "lógica" originária do brega, se efetivar, o que valerá mesmo é o comercialismo musical e comportamental puro e simples, com todas as baixarias, com todo o sensacionalismo. A cultura de vanguarda feita para falsamente justificar a breguice dominante será jogada fora, no lixão das preciosidades que não interessam à grande mídia e ao mercado manterem.

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