sábado, 30 de março de 2013

ALI KAMEL E A CENSURA "LEGALISTA"


Por Alexandre Figueiredo

Na semana passada, o blogueiro e jornalista Luiz Carlos Azenha foi condenado a indenizar o Diretor de Jornalismo e de Esportes da Rede Globo, Ali Kamel, no valor de R$ 30 mil reais, por uma suposta campanha difamatória na qual Kamel é acusado de ser o "todo-poderoso da Globo".

Kamel anda chorando na Justiça e arrancando algumas vitórias por causa disso. A julgar pelo que a Justiça entende dos processos que Kamel e seu advogado lançaram contra blogueiros, ele é apenas um jornalista membro de uma equipe editorial que pretende transformar o jornalismo da Globo num processo transparente e objetivo, na qual a imparcialidade e o interesse público seriam respeitados.

Só que sabemos que a coisa não é assim e Kamel pretendia, com tais processos, arrancar mais de R$ 100 mil reais, pelo menos, dos cinco blogueiros que processou: Paulo Henrique Amorim, Luís Nassif, Luiz Carlos Azenha, Sr. Cloaca e Marco Aurélio Mello. O processo contra este foi "comemorado" até pela revista Veja.

A Globo é famosa pelo seu jornalismo ao mesmo tempo domesticado e conservador, em que não obstante assume posições contrárias aos interesses públicos, quando elas ferem interesses associados ideologicamente ao capitalismo neoliberal. É evidente que a Globo não tem a virulência de Veja, por exemplo, mas seu conservadorismo já mostrou pontos bastante delicados.

É o caso da edição de imagens sobre o massacre de Eldorado dos Carajás, em 1996. A impressão que se dava, através da versão do Jornal Nacional, é que um bando de agricultores arruaceiros armados de foices e facões ameaçava a polícia que, pacificamente, tentava fazer a segurança do local e teve que atirar contra os manifestantes, exterminando vários deles.

Só que o fato que realmente aconteceu foi a repressão policial, a bala, a uma manifestação de trabalhadores rurais, históricas vítimas da precarização do trabalho e da opressão coronelista. Só depois a visão pró-policialesca do massacre de Eldorado dos Carajás foi minimizada, com reportagens "corretas" sobre julgamento e condenação de envolvidos.

Ali Kamel acha que está fazendo um bem para a humanidade promovendo um jornalismo asséptico, em que a espetacularização da informação é a sua caraterística maior. E não gosta quando é largamente criticado, sobretudo por jornalistas que haviam trabalhado na Globo e mudaram de plano ideológico, agora fazendo pesadas críticas a ele.

Kamel parece não ter senso de humor, e sozinho faz o mesmo que a Folha de São Paulo faz contra os irmãos Mário e Liro Bocchini. Usa alegações "justas" para mover tais processos, numa censura "legalista" contra a blogosfera. Os blogueiros processados, todos, já enviaram recursos contra as sentenças.

Em seus processos, Kamel rebate Mello por acusações ofensivas de cultivo de drogas. Rebate Sr. Cloaca e Rodrigo Vianna por comentários irônicos sobre a homonímia entre ele e um ator de pornochanchadas. Rebate Luís Nassif porque ele criticou duramente Kamel por um artigo em que este defendia cegamente o capitalismo.

Além disso, condenou Paulo Henrique Amorim pelas piadas que ele fazia em relação ao livro de Kamel, Não Somos Racistas (Ed. Record) e condenou Luiz Carlos Azenha por ele ter dito que Ali Kamel é o "todo-poderoso do jornalismo da Globo", sob a alegação, neste caso, de que Kamel não tem poder algum e que é apenas um integrante de uma equipe editorial e de uma cúpula de televisão.

Observando a fundo, não há motivo algum da Justiça dar causa a Kamel. Mas nós temos uma Justiça que mais parece ser refém da visibilidade dos detentores de poder. Existem dúvidas sobre o desfecho dado ao caso do "mensalão" sem investigações aprofundadas, independente de os acusados terem ou não se envolvido no esquema de corrupção de Marcos Valério.

Infelizmente, a grande mídia cria seus outros canais de expressão de poder. Tenta cooptar jovens através de "rádio rock" em São Paulo, tenta criar programa em TV educativa, tenta usar a Justiça para defender seus interesses. Entre oportunismos e censuras, os barões da mídia usam todos os artifícios para se manterem no poder, resistindo como podem às mudanças que acontecem no nosso país.

O problema é que, neste cenário propício para a regulação da mídia, o governo Dilma Rousseff nem sequer sinaliza com promessas. Deixa a mídia ladrar e morder e ainda dá gorjeta. A blogosfera e a mídia alternativa é que acabam sofrendo com isso.

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