domingo, 17 de março de 2013

A MPB NA UTI?


Por Alexandre Figueiredo

Até o fechamento deste texto, temos a notícia de que o cantor e sanfoneiro Dominguinhos, um dos representantes do baião no Brasil, está se recuperando de um tumor e infecção do pulmão, além de arritmia cardíaca. O músico ainda sofre de diabetes e poucas horas atrás correu a notícia de que seu estado de saúde era de "coma irreversível" e que seus herdeiros já estavam em disputa por seu patrimônio.

Semanas atrás, quem foi internado foi o cantor Zé Ramalho, também representante da MPB nordestina dos anos 70 com seu admirável talento de unir influências de rock com a música regional. Ele sofreu problemas cardíacos e teve que fazer uma cirurgia, da qual se recupera.

Zé Ramalho tem 64 anos. Dominguinhos, 72. A MPB autêntica está ficando velha, sem novos talentos que causassem não apenas impacto mas representem uma renovação criativa e que, ao mesmo tempo, pudessem ter uma grande visibilidade.

E olha que hoje é o aniversário de nascimento de Elis Regina, que seria hoje uma senhora de 68 anos, ela que representou a síntese entre o engajamento regionalista dos CPCs da UNE e a sofisticação bossanovista, embora seu primeiro LP, Viva a Brotolândia, estivesse mais próximo de uma discreta discípula de Celly Campello.

A MPB autêntica até conseguiu resistir nos primeiros tempos da ditadura militar. Entre 1965, quando a tal "revolução de 1964" (como era conhecido o golpe) anunciava ser um quadro político definitivo e não provisório - imaginava-se que o general Castello Branco só iria finalizar o tempo de mandato de João Goulart e abrir caminho para as eleições presidenciais, o que não ocorreu - e 1976, a moderna MPB mostrava força artística e visibilidade que não teve mais similar depois.

No entanto, vieram processos de politicagem na mídia, a ditadura militar e a indústria fonográfica - dentro de um contexto de aliança entre mercado e política naqueles anos de chumbo - e, em vez de termos de volta uma MPB autêntica produzida e apreciada pelas classes populares, o que se viu foi o começo da expansão da música brega, agora "diversificada" em formas "regionais" como na Bahia, no Pará e em São Paulo.

"ELITIZAÇÃO" DA CULTURA POPULAR

Hoje em dia, a cultura popular autêntica corre risco de desaparecer, abatida pela avalanche de tendências popularescas feitas por empresas de "entretenimento" situadas em várias partes do país, e que promoveram a degradação da cultura das classes populares dentro de um processo não só consentido mas claramente apoiado por uma geração de intelectuais influentes na atualidade.

O povo pobre é privado de seu próprio patrimônio cultural. Seu "patrimônio" acaba sendo as cafonices, baixarias, grosserias e pieguices difundidas pelo poderio regional de rádios, TVs e imprensa popularescas, que dentro de um paradigma de mediocrização cultural, desenvolveu o que se convencionou chamar, de forma equivocada, de "cultura das periferias".

A intelectualidade associada, apoiando essa pseudo-cultura, fazia apologia à miséria, glamourizava a pobreza e o lixo cultural e fazia, com sua retórica sofisticada mas bastante discutível, o povo pobre ficar refém dessa falsa cultura corroborada pela classe acadêmica em monografias, documentários etc.

Enquanto isso, o que entendíamos como a cultura popular autêntica passou a ser feito tão somente por pesquisadores de formação universitária que se tornaram artistas. Ritmos indígenas, baiões, catiras, sambas, modas de viola, tudo isso virou "patrimônio das elites", dentro de uma cena alternativa e marginalizada que o grande público não conseguia tomar conhecimento nem interesse.

Enquanto isso, vários lugares do país não tinham sequer uma cena de MPB. Várias regiões eram dominadas pelas "expressões" do "forró eletrônico" e do "sertanejo" que eram difundidas através de rádios controladas por oligarquias latifundiárias e seus representantes político-partidários.

E isso fez a MPB ficar num impasse. Ou aceitamos que "tudo é MPB" e reconheçamos que a Música Popular Brasileira virou um "engodo qualquer nota", ou temos que admitir que a MPB autêntica, "tal como conhecíamos", está "velha e ultrapassada", como se a MPB estivesse na UTI de um hospital.

Esse é o grande problema de um abismo que existe, entre um brega sem valor artístico mas com forte apelo comercial e uma MPB sem apelo popular mas com valor artístico-cultural reconhecido. A aliança entre uns e outros não consegue resolver o problema, uma vez que se tornam expressões inconciliáveis que só alimentam a vaidade dos bregas diante do forçado (e falso) vínculo deles à MPB autêntica.

A MPB anda "velha", porque seus maiores artistas têm mais de 60 anos. Eles continuam em atividade, produzem novas músicas, empolgam plateias jovens. Mas seria preciso que naturalmente haja uma renovação. Um dia os mestres da MPB nos deixarão.

E não será embelezando o brega que se fará o futuro da MPB. Embelezar a mediocridade nunca fortaleceu a cultura, que não se serve necessariamente de sucessos de público e de dinheiro, e o brega-popularesco nunca se comprometeu com a produção de conhecimentos e valores sociais, artísticos e culturais, sendo apenas mero entretenimento comercial, queiram ou não queiram os intelectuais apologistas.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...