sexta-feira, 1 de março de 2013

A INTELECTUALIDADE DOMINANTE E SEUS PRECONCEITOS


Por Alexandre Figueiredo

Por que será que a intelectualidade dita "sem preconceitos" aposta tanto na glamourização da pobreza? Suas defesas em relação à imbecilização cultural no país, protegida pelo rótulo de "popular", são feitas num discurso tão confuso, embora bastante sofisticado, que seduz a todos, mas cuja validade soa muito estranha diante de uma análise bastante cautelosa desse discurso.

Afinal, os intelectuais "viajam" em divagações filosóficas, sociológicas, antropológicas, em visões completamente delirantes onde eles trabalham o "preconceito positivo", atribuindo à ignorância do povo pobre uma suposta sabedoria oculta que eles não têm, pelas próprias limitações sociais sofridas.

A intelectualidade festiva, badalada, detentora dos privilégios de visibilidade e que, até pouco tempo, tinha seu raio de influência até mesmo em alguns setores da intelectualidade de esquerda, aposta numa tese absurda em que "quem sabe, não sabe" e "quem não sabe, não sabe que sabe".

É verdade que todos estamos em um constante aprendizado, mas a tese, do jeito que é trabalhada, torna-se extremamente absurda. Afinal, ela camufla os problemas de escolaridade vividos pelas classes populares, transforma a burrice em "sabedoria" dentro de um discurso em que até a exploração sexual de menores, no contexto de um "baile funk", é vista como um processo "saudável" e "admirável".

Essa intelectualidade "sem preconceitos", na medida em que assina embaixo aos ditames da grande mídia do entretenimento, mostra que tem mais preconceitos do que aqueles que acusa nos outros que reprovam a imbecilização cultural supostamente "popular". E muito mais elitistas e higienistas do que o elitismo e higienismo que acusam nos outros.

Afinal, o brega e seus derivados, seja o "sertanejo universitário", o "funk carioca" etc, são puramente higienistas. Não há higienismo maior do que o desenvolvimento de uma música "asséptica", pasteurizada e feita para consumo fácil, feita por "artistas" sem capacidade de transmitir opinião própria, mas suficientemente tendenciosos para seguir as manobras da indústria fonográfica e do poder midiático.

INVERSÃO DISCURSIVA

Durante dez anos, o discurso dessa intelectualidade prevaleceu, e transformou em ídolos, cultuados como "semideuses", nomes como Paulo César Araújo e Hermano Vianna, ambos surgidos das profundezas do pensamento cultural tucano (leia-se PSDB). Pretensas unanimidades cultuadas como se fossem gurus máximos da humanidade.

No entanto, eles e outros intelectuais associados difundiram visões que na verdade configuram uma inversão discursiva em torno da mediocrização e da imbecilização cultural sofridas pelas classes populares a partir de referenciais difundidos verticalmente pelo rádio e pela TV. São visões que tentam livrar a culpa do poder midiático nesse processo e escondem preconceitos muito piores que se imagina.

Aliás, é a inversão discursiva que busca esconder esses preconceitos, a partir da falsa premissa de que esses intelectuais que defenderam Tchans, Tatis, Zezés, Waldicks e Telós como se fossem a "salvação da lavoura" são intelectuais "desprovidos de qualquer preconceito, elitismo e higienismo".

Onde há o machismo da vulgaridade feminina, esses intelectuais atribuem um suposto "feminismo" caraterizado pela suposta independência simbólica que as "popozudas" representam em relação aos homens. Onde há ignorância, eles atribuem a uma suposta intuição e autossuficiência das classes populares. Onde há baixaria, eles atribuem a uma suposta flexibilidade de valores morais no povo das periferias.

Esses intelectuais invertem as coisas, para que assim sejam minimizadas as necessidades de resolver os problemas nas classes populares. Daí está o pior preconceito. Eles acham que o povo pobre é "melhor" naquilo que eles têm de ruim. Para eles, a ignorância, as baixarias e outros aspectos negativos nas classes populares simbolizam uma suposta "pureza" das classes populares que, para eles, deve ser mantida.

MELHORAR A CULTURA NÃO É ELITISMO

A intelectualidade dominante, na medida em que credita a mediocridade cultural brasileira como resultado da "pureza inocente" das classes populares, lança as bases para seu discurso de glamourização da pobreza, da espetacularização do grotesco que predomina, até hoje, nos debates acadêmicos no Brasil.

Um dos pontos que chamam a atenção nesse discurso é a preocupação que esses intelectuais têm de transformar as favelas em "arquiteturas pós-modernas". Eles ignoram, ou "subestimam", que as favelas surgem de um cruel processo de exclusão social, a exclusão imobiliária, e que várias dessas moradias "pós-modernas" se encontram em áreas de risco, vulneráveis até à mais branda chuva.

Eles sempre soaram o alarme quando algum intelectual criticava algum fenômeno "popular" dizendo que ele simboliza a imbecilidade cultural dominante. Vão logo dizendo que esse intelectual outsider é "preconceituoso", "elitista" e "saudosista" de tempos que "não voltam mais".

Só que existe uma grande incoerência no discurso intelectual dominante, que credita a mediocridade cultural como um "processo natural resultante da pureza intuitiva das periferias". Eles se apavoram quando alguém reivindica que o povo pobre tenha uma cultura melhor. Acusam de "elitismo", de "corromper" a "natural cultura das periferias".

O discurso desses intelectuais chega ao ridículo de acusar os questionamentos contra a mediocridade cultural como "processos de idealização elitista do que deveria ser a cultura popular". Eles dizem condenar tais "idealizações", mas comemoram quando a Rede Globo transforma ícones da música brega como Chitãozinho & Xororó e Alexandre Pires em uma pseudo-MPB para consumo das classes abastadas.

Ou seja, para eles "melhorias culturais" se resumem apenas a um processo cosmético de "aperfeiçoar", na aparência, os mesmos ídolos da mediocrização cultural. Não se trata de substitui-los por gente mais talentosa, sem espaço na mídia e portadora de valores culturais mais sólidos, verdadeiros e relevantes, mas tão somente no "embelezamento" discursivo (no texto e no visual) dos mesmos medíocres da moda.

Elitistas são eles, que querem apenas "embelezar" o cafona, o grotesco, glamourizar o pitoresco, o idiotizado, o aberrante, o piegas. Eles entendem que o povo pobre tenha que permanecer assim, apenas com alguns paliativos que permitam um consumismo maior e uma cidadania restrita a aspectos genéricos, que não ofendam nem ameacem as elites.

Só que o horror deles com as verdadeiras necessidades de melhoria cultural - que dependem, decisivamente, na ruptura com a breguice dominante - é comparável ao horror dos acadêmicos do passado com qualquer necessidade de reduzir o analfabetismo nas populações pobres.

A questão se torna clara quando eles só se limitam a defender os princípios de cidadania conforme suas conveniências. Eles defendem a regulação da mídia somente para algumas medidas "pragmáticas" como diminuir o nível de rancor anti-PT dos noticiários políticos e evitar que humorísticos e comerciais de TV invistam em estereótipos sociais por demais cruéis.

Mas, quando as baixarias ocorrem nas classes populares, esses intelectuais veem isso como algo "saudável" e "divertido". Acabam vendo nisso processos sociais "sem culpa", e pouco importa de uma Gisele Bündchen e uma Mayra Cardi se comportam igualzinho quando fazem papéis estereotipados. Mayra, protegida pelo rótulo de "popular", acaba "inocentada" pela imagem de mulher-objeto trabalhada na mídia.

Conclui-se, assim, que a intelectualidade dita "sem preconceitos" esconde preconceitos bastante cruéis. Eles dizem contra os estereótipos, contra a imbecilização cultural (termo que lhes arrepia de medo), contra a infantilização das classes populares. Mas demonstram ser a favor de tudo isso, na medida em que o rótulo "popular", é, por si só, expressão de suas concepções estereotipadas das classes populares.

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