quarta-feira, 27 de março de 2013

A ARROGÂNCIA DE GUSTTAVO LIMA E A FRAGILIDADE DE MORRISSEY


Por Alexandre Figueiredo

Nas últimas semanas, dois cantores de universos bastante antagônicos haviam feito declarações sobre suas carreiras musicais, dentro de uma época em que a música de qualidade, mesmo no exterior, torna-se a cada ano mais rara de se ver.

O cantor inglês Stephen Patrick Morrissey, ou apenas Morrissey, que havia feito parte da excepcional banda de rock alternativo The Smiths, nos anos 80, andou sofrendo, nos últimos anos, sérios problemas de saúde. Perto de fazer 54 anos (daqui a dois meses), Morrissey admitiu em entrevistas recentes que sofre o efeito da idade e que, mesmo a contragosto, pretende se aposentar em 2014, por conselho médico.

A aposentadoria de Morrissey foi um baque que os fãs de música de qualidade sofrem, depois que o grupo norte-americano R.E.M. (de estilo melódico próximo dos Smiths) anunciou sua extinção, há dois anos. O que traz um grande impasse sobre os rumos da música de qualidade, que, não bastasse isso, já sofre as mortes de diversos artistas.

Enquanto isso, no Brasil, o cantor breganejo Gusttavo Lima - dos "expressivos" versões "tchê-tchêrerê-tchê-tchê, tchê-tchêrerê-tchê-tchê" - fez um "desabafo" para a imprensa depois de, durante uma apresentação, ter dito para a plateia que "não aguentava mais" e que aquela seria uma de suas últimas apresentações em 14 anos de carreira.

A declaração sobre o possível abandono da carreira musical foi dada na cidade de Iperó, interior paulista. Pouco depois, porém, ele declarou no YouTube que não vai abandonar a carreira e, de uma forma arrogante mas "triunfalista", vai continuar atuando por muito tempo, através dessas palavras:

"O meu maior sonho eu consegui, que era fazer minha música, o meu som fazer parte e virar trilha sonora da vida das pessoas. Se eu cheguei até aqui, não vai ser agora que eu vou desistir, o sonho não pode acabar... Aos meus fãs, jamais vou deixar vocês, e, aos que não gostam do Gusttavo Lima, ééé vão ter que me aturar por muitos e muitos anos".

Até aí, nada demais, afinal Gusttavo Lima é um dos carros-chefes do moderno hit-parade brasileiro, que trabalha ídolos como ele, Ivete Sangalo, Michel Teló, Luan Santana, MC Naldo e Thiaguinho com as caraterísticas explícitas da música comercial norte-americana, adaptada às caraterísticas brasileiras, que adotam, por exemplo, medidas "peculiares" como o lançamento sucessivo de CDs e DVDs ao vivo.

Só que o que Gusttavo Lima vai produzir em sua carreira, em qualidade e quantidade, não se comparará com Morrissey, cuja música, no caso brasileiro, tornou-se mais influente no som da Legião Urbana. Isso porque a música de Gusttavo Lima é de valor duvidoso, algo como uma releitura "emo" do já indigesto breganejo de Chitãozinho & Xororó e quejandos.

Além do mais, Morrissey tinha uma boa produtividade musical e era um dos poucos cantores que faziam turnê pelo simples gosto de divulgar sua música, sem qualquer contrato de gravadora nem uma campanha publicitária prévia. E as apresentações, incluindo o Brasil, lotavam o público sem qualquer apelação, tudo era divulgado informalmente, no contato verbal de cada pessoa.

Já Gusttavo Lima é daqueles ídolos brega-popularescos que são meros lotadores de plateias e só. Não oferecem uma música de qualidade e essa facilidade de lotar plateias é impulsionada pela pressão publicitária da mídia associada.

Gusttavo, além disso, é queridinho das Organizações Globo, contratado pela Som Livre e, além de representar o comercialismo explícito do hit-parade brasileiro, simboliza uma concepção ideológica de "cultura popular" defendida pelos cãs Marinho, Frias e Civita e corroborada pela intelectualidade etnocêntrica "sem preconceitos", mas bastante preconceituosa.

A fragilidade da saúde de Morrissey contrasta com sua força artística de cantor que não precisa da mídia para ser popular, mas graça ao seu talento de cantor, letrista e personalidade íntegra, além de estar cercado de excelentes músicos e compositores de melodias. Pela vontade dele, ele seguiria sua carreira, mas sua saúde frágil faz ele ter que seguir a exigência médica de abandonar sua carreira.

Já Gusttavo continuará por "muitos e muitos anos" gravando basicamente CDs e DVDs ao vivo, com parca produção musical, já que os discos conterão sempre os mesmos sucessos e alguns covers, de uma forma repetitiva levemente interrompida com pequenas variações.

Talvez Gusttavo sofra o mesmo medo dos medíocres: o de virar passado. Porque quem tem talento de verdade pode desaparecer (morrendo ou se aposentando) que a posteridade lhe garante algum lugar na memória das pessoas. Já quem é medíocre se revolta em, caso se aposente ou morra, seja apagado pelo esquecimento que o julgamento do tempo faz a quem nada faz de importante.

Daí não só um Gusttavo Lima, um Chiclete Com Banana, um Chitãozinho & Xororó, um DJ Marlboro tenham que permanecer no presente para não morrerem, mesmo vivos, no passado. Ou mesmo uma 89 FM, ou uma Solange Gomes, ninguém quer virar passado. Os medíocres querem permanecer presentes, no carreirismo de sua inutilidade social, porque, se eles pararem, cairão automaticamente no esquecimento.

No entanto, eles sofrerão sempre a concorrência daqueles que, virando passado por algum motivo na vida, deixaram uma grande marca que se mantém, de uma forma ou de outra, preservada na memória. Um Renato Russo, falecido há mais de 15 anos, consegue ser muito mais lembrado e amado que um Gusttavo Lima com um "caminho todo pela frente". Essa é a realidade.

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