terça-feira, 26 de março de 2013

89 FM E SUA "REBELDIA" MEDIEVAL


Por Alexandre Figueiredo

Só mesmo um país provinciano, historicamente marcado pelo coronelismo que domina a chamada "cultura popular", para achar que uma 89 FM é "rádio de vanguarda". Passado o deslumbramento cego pela volta de uma suposta "rádio rock", começa-se a questionar a emissora de forma mais imparcial, que chega mesmo a pôr em xeque toda aquela aura de fantasia e cor que envolvia a emissora.

Evidentemente, os adeptos da hoje UOL 89 FM - resultado da parceria das demotucanas famiglias Camargo e Frias - não gostaram disso e um blogue de humor e críticas sócio-políticas Expobesta (inspirado no Febeapá de Stanislaw Ponte Preta) foi infectado depois que um texto questionou a suposta rebeldia de um jovem cantar uma música dos Mamonas Assassinas num culto evangélico.


O hacker teria inserido um trecho de uma frase que um blogueiro do portal da UOL 89 FM escreveu no texto intitulado "Santos Mamonas Assassinas", em memória ao falecido grupo humorístico que, em termos de música e de atitude roqueiras, sempre foi um dos mais medíocres e inócuos. A frase corta a cabeça de um tópico mais recente, como se vê na imagem acima deste parágrafo.

Esse incidente dá o tom do extremo reacionarismo dos adeptos da 89 FM, e cujo teor já foi provado na Internet pelos seguidores da então afiliada da emissora paulista, a carioca Rádio Cidade. Um reacionarismo travestido de rebeldia roqueira, mas ideologicamente retrógrado e intolerante.

Imagine grupos de jovens que adotam um perfil intermediário entre emos, skinheads e torcidas organizadas de futebol. Ou imaginemos, como na foto no alto, o jornalista Reinaldo Azevedo, o pit-bull da revista Veja que escreve feito um trolleiro, fazendo papel de roqueiro radical. Está na cara que é uma falsa rebeldia de conteúdo medieval que pensa a "cultura rock" com o próprio umbigo.

PRIMEIROS "TROLEIROS" DA INTERNET DEFENDIAM 89 FM E SIMILARES

Esse é o perfil típico do "rebelde" trabalhado pela 89 FM, nos últimos 25 anos, um perfil que, certamente, não difere em coisa alguma da Juventude PSDB paulista ou do antigo Comando de Caça aos Comunistas que manchou a história do nosso país. E cujos jovens foram pioneiros na prática de trolagem, que é uma espécie de bullying feito na Internet.

O que salva de qualquer desmascaramento imediato dos pseudo-rebeldes da 89 FM (ou da Rádio Cidade, ou da UOL 89 ou outra associada) é o verniz de radicalismo que tentam ter. A rebeldia é apenas formal, sobretudo pelo temperamentalismo frágil dos "roqueiros" da 89, que se irritam à menor crítica, como se quisessem dizer "Veja como sou esquentadinho!! Cuidado comigo que eu ladro e mordo!!".

Se vestem de forma diversificada, em certos casos como universitários comuns, em outros como um misto de skatistas com rastafáris, e sempre falam um palavrão ou fazem alguma xingação contra um discordante. Aparentemente, são ideologicamente niilistas, mas deixam vazar algum reacionarismo extremo.

Esses "roqueiros" são capazes de algum pseudo-esquerdismo, como se dizerem "contra o Imperialismo" ou atacarem figuras como José Serra e George W. Bush, menos pelo seu reacionarismo do que pela imagem ridicularizada que eles têm da opinião pública. E se os clamores anti-FMI soam forçados e falsos, não menos falsa é a pretensa idolatria que alguns fazem por figuras como Che Guevara.

Afinal, Che está morto e é muito fácil idolatrá-lo, mas muita gente o faz da mesma forma que um caçador de um urso faz com o animal morto e transformado em pele empalhada. Há um riso secreto de alívio por ver Che morto, o que faz qualquer direitista extremo fingir admiração cordial a alguém que ele sabe não poder mais interferir em nosso cotidiano e ameaçar o privilégio da direita.

"REBELDIA" RETRÓGRADA

Mas a "rebeldia" logo deixa sua máscara cair quando há uma vaga indignação contra a corrupção política, que faz os jovens que apoiam a 89 mais próximos de movimentos como Cansei e Instituto Millenium do que de qualquer passeata dos movimentos sociais.

Isso pôde ser notado nos vários fóruns da Internet que a 89, a Cidade e congêneres eram temas ou então os próprios provedores do debate. Não raro um desses "roqueiros" aparecia para defender o fechamento do Congresso Nacional, generalizando a corrupção política, numa clara demonstração de vocação golpista travestida de "rebeldia radical".

O ultraconservadorismo desses "roqueiros" não pode ser confundido com o suposto conservadorismo atribuído aos chamados "puristas" do rock. Até porque a 89 FM está cada vez mais distanciada do rock clássico, porque sabe que não consegue enganar aos mais velhos, e chegou mesmo a ignorar os 70 anos de nascimento do ex-beatle George Harrison.

A emissora concentra suas atenções ao rock dos anos 90, sobretudo o poppy punk e o poser metal, tendências bastante comerciais. Concentra-se ainda mais nos critérios de hit-parade, restringindo ao extremo a divulgação de canções e intérpretes de rock, o que dá dúvidas sobre a credibilidade do rótulo "A Rádio Rock" inserido no logotipo em fonte gráfica de impacto.

Portanto, o conservadorismo está no que se diz a outros valores em volta da atitude rock, já que a 89 FM sempre procurou substituir a rebeldia autêntica e progressista, herdada da Contracultura dos anos 60 por um estereótipo intermediário entre o garoto Kevin dos filmes Esqueceram de Mim e o boneco Chucky dos filmes de terror.

Até mesmo as ações de cidadania são inócuas, sem fazer algo transformador. A "conscientização" política também é bastante vaga. Até mesmo os temas de punk rock "recomendados" pela 89 FM nunca vão além de críticas genéricas, vagas e indeterminadas.

Por isso o estereótipo de rebeldia da UOL 89 FM é muito perigoso. A rádio, para os olhos dos Frias, é tanto uma extensão de seus interesses de poder midiático quanto o programa TV Folha da TV Cultura. E poderá ser um polo de apoio político e ideológico para o demotucanato, no momento ocupado em assediar o apoio do esquerdista (ou ex-querdista?) Eduardo Campos, neto de Miguel Arraes.

Hoje o "roqueiro" da 89 esnoba do demotucanato, ri quando é acusado de "tucano". Mas esnobar não é desmentir, podendo ser apenas uma forma garantida pela pouca idade da juventude mascarar seus verdadeiros interesses. Mas o futuro sempre mostra que eles rumam sempre para o reacionarismo ideológico, quando se despirem dos ranços de juventude do seu verniz de rebeldia formal.

A própria Folha de São Paulo encampou esse apoio ao projeto da 89 - que esteve perto de ser vendida para uma seita evangélica - por estar preocupada com os rumos da juventude paulistana, que a cada dia rejeitam o demotucanato. Por isso, investiu na 89 FM para criar um arremedo de rebeldia juvenil, na tentativa de neutralizar e enfraquecer as mobilizações de quem luta por direitos humanos e sociais.

Por isso, a vontade da 89, e, por conseguinte, de toda mídia reacionária brasileira, é que "rebeldia" não seja lutar pela educação pública, pela reforma agrária, pela regulação da mídia, pelos direitos das mulheres, negros e índios, pelas melhorias sociais das classes trabalhadoras, mas tão somente fazer trolagem na Internet, falar palavrão ou então cantar músicas dos Mamonas Assassinas em cultos evangélicos. 

Subestimar o papel dessa falsa rebeldia é dar as chaves do futuro para a mesma ditadura midiática que a blogosfera se empenha em combater. É jogar na lata de lixo o futuro da verdadeira democracia no Brasil, aquela de interesse público e voltada à verdadeira cidadania.

Afinal, com o passado malufista dos donos da 89 e o presente demotucano que os acerca, não dá para esperar uma revolução juvenil a partir disso. Pelo contrário, virão novos Reinaldo Azevedo pregando valores anti-sociais que somente se adequam aos interesses das classes dominantes, e que historicamente trouxeram muitas injustiças e sacrifícios às classes populares.

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