segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

UOL 89 FM E SUA FALTA DE CREDIBILIDADE


Por Alexandre Figueiredo

Sinceramente, se eu tivesse uma banda de rock, nunca iria divulgar meu material na UOL 89 FM, como nunca teria divulgado quando a rádio se chamava apenas 89 FM. Pode ser uma atitude de que não quer fazer parte da "turma", e isso poderia parecer que eu esteja tomando uma postura "suicida".

Mas, na verdade, trata-se de prudência. Nem sempre as oportunidades fáceis demais podem significar grandes benefícios. Em Salvador, já recebi de terceiros, por duas vezes, conselhos para procurar a Rádio Metrópole para trabalhar como jornalista lá e não tomei qualquer iniciativa. Sabia que era cilada. Num dia, eu terei liberdade de atuação jornalística, de outro teria que desaprender tudo. Até mesmo a ética.

Afinal, era a rádio do "Paulo Maluf baiano", Mário Kertèsz, que por uma coincidência faz aniversário no mesmo dia que eu, 21 de março. Não dava para aceitar. Primeiro, porque meus princípios são muito opostos a ele, e compartilhar festas de aniversário com um cara desses, para mim, é constrangedor.

Se eu mandasse alguma demo para a 89 FM - hoje, se manda arquivo em MP3 para o programa "Temos Vagas" -  , meu sucesso seria imediato. Mas talvez não tivesse tanta liberdade artística assim. Se meu compromisso é fazer rock melódico, teria que fazer algo meio The Wonders, como Los Hermanos fizeram através de "Anna Júlia". Isso, para não dizer coisas realmente piores como Matchbox 20 e The Nixons.

Teria um sucesso imediato, e meses depois já estaria em programas de televisão, em capas de revistas, fazendo turnê com "minha turma", que tanto poderia ser Titãs, Capital Inicial e Ratos do Porão como poderia ser Charlie Brown Jr., Raimundos e CPM 22. Quanto a estes três últimos, sem chance.

Em se tratando em ser estrela no Brasil, isso no fundo não será uma boa ideia, porque vivemos na pior fase da ditadura midiática e, ser famoso no nosso país seria frequentar o Caldeirão do Huck, fazer luau na Ilha de Caras e namorar uma ex-BBB. Coisas que parecem um "privilégio", mas na verdade são humilhações constrangedoras.

O "FILME QUEIMADO" DA 89 FM

A volta da rádio 89 FM à programação dita "roqueira" não se deu, realmente, por um clamor popular. Ela voltou porque os donos da emissora e alguns de seus radialistas são bem relacionados com produtores e promotores de eventos de grande estrutura administrativa, como a Artplan de Roberto Medina, que realiza o festival Rock In Rio.

A 89 havia saído do rock em 2006 porque "queimou" demais seu "filme", levando às mais extremas consequências todas as diluições do formato de rádio de rock feitas a partir de 1988. A rádio chegou ao ponto de privilegiar o besteirol em detrimento do rock, mesmo o mais comercial. As pressões da Internet, sobretudo através de rádios estrangeiras ouvidas aqui, influíram bastante.

Só que a 89 voltou com boa parte desses erros. Até o coordenador Tatola adota um estilo de locução incompatível com rádio de rock, dentro daquele estilo enjoado das rádios de pop dançante. E o repertório chega a ser fraco, com apenas os sucessos do chamado "pop rock" dos anos 90 e 2000.

A emissora, depois do impacto de seu retorno - que fez com que muitos mauricinhos ou alguns roqueiros mais domesticados se deslumbrassem com a emissora, apelando para definições sem fundamento como "a única e verdadeira rádio rock" - , já começa a ter novamente seus defeitos expostos, e a ressaca que se seguiu depois da animada festa foi bastante dolorosa.

É só ver, na Internet, que os textos que questionam a UOL 89 FM já começam a se destacar mais, já que ninguém é bobo para acreditar que o formato da emissora é "realmente de rádio rock" se, tanto numa comparação com antigas rádios rock de verdade dos anos 70 e 80 no Brasil quanto com a de rádios rock estrangeiras, a UOL 89 leva uma vergonhosa desvantagem.

A rádio faz aquele tipo que, no primeiro dia, o ouvinte acha a programação legalzinha, no segundo dia já começa a se entediar e no terceiro dia já começa a ficar irritado com a mesmice da rádio. E nada indica que a rádio irá mudar isso e de repente virar uma rádio de rock "pra valer", apesar das promessas de que "nunca irá abandonar" o estilo.

Isso porque as restrições da 89 são muitas. Seus donos são conservadores. A UOL, sócia da rádio, é também de um dono conservador. A orientação da rádio, extremamente comercial, a impede de cometer maiores ousadias. E sua volta se deve mais ao fato dela ser alimentadora de um segmento de eventos internacionais do que de uma genuína representante da cultura rock brasileira.

Preferimos acreditar que o futuro da UOL 89 FM é incerto. O que sabemos é que aquele projeto de "rádio de rock dos sonhos" não será feito pela UOL 89, prisioneira de seus próprios erros, de sua deturpação da cultura rock, do perfil ultraconservador de seus donos.

Portanto, se eu tiver minha banda de rock, prefiro lançar meu vídeo no YouTube e ir para a BBC Brasil divulgar meu trabalho. Soa mais realista. Pelo menos não tenho risco de ter minhas músicas entrando em trilhas de novelas da Globo nem de namorar uma ex-integrante do Big Brother Brasil.

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