quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

TV CULTURA, UOL 89 FM E O BRASIL PROVINCIANO


Por Alexandre Figueiredo

Vivemos ainda no Brasil provinciano, o país do "jeitinho brasileiro" e do "complexo de vira-lata". "Doenças" até agora não curadas, mas cujo diagnóstico oficial mente dizendo que elas não existem mais e que o nosso país tem um entretenimento de ponta no contexto mundial.

Mas, observando bem, infelizmente não é bem assim. O país que tem Merval Pereira na Academia Brasileira de Letras, trata Yoani Sanchez como figura de outro mundo, é o país que tem como "ícones de modernidade" figuras como Nicole Bahls, Luciano Huck, Michel Teló, Valesca Popozuda e Thiaguinho.

É um país brega, que tenta fazer sua "cultura pop" numa visão ao mesmo tempo míope e retardada. Sim, "retardada" não aparece aqui como xingação, mas como uma constatação. Mesmo o mais moderno jovem médio é sempre o último a saber dos modismos, é subserviente aos mitos do hit-parade norte-americano e copia as tendências de vários meses atrás como se fosse algo futurista.

Num país que abraça a "cultura dos DJs" no momento em que ela decai na Europa e que pensa que uma Valesca Popozuda pode virar cidadão do mundo, a UOL 89 FM não sai desse contexto em que novas tendências são "adaptadas" no Brasil com a introdução de aspectos de tendências ultrapassadas.

A própria UOL 89 FM (que antes era apenas 89 FM), emissora paulista que se autoproclama "A Rádio Rock", tem um sotaque carregado da rádio pop mais imbeciloide. Ou seja, uma rádio que poderia ter rompido com os paradigmas do hit-parade acaba se sujeitando a esses paradigmas de forma mais intensa, contradizendo suas promessas.

Já descrevemos aqui como isso acontece. E que faz a UOL 89 FM estar para as rádios de rock assim como o Restart está para o Rock Brasil. Com surpreendente exatidão, embora a UOL 89 tente agora renegar o Restart como uma mãe que, tendo um filho pelo acidente de uma transa sexual, jogue o bebê numa lata de lixo.

Ontem eu vi o telejornal Metrópolis, da TV Cultura, e uma reportagem mostrava a comparação da UOL 89 FM com uma rádio digital, a Cadillac FM. A comparação não tinha como propósito confrontar uma rádio FM comercial e uma emissora transmitida só na Internet, mas mostrar a aparente "diversidade" do rock nas ondas radiofônicas e digitais.

A reportagem mostrou um depoimento de um dos donos da UOL 89 FM, Júnior Camargo, e um passeio pelos estúdios da emissora. E, como houve em 1990, quando o antigo programa Matéria Prima - também da TV Cultura, apresentado por Serginho Groisman - mostrou o estúdio da 89 com um locutor "mauriçola" com dicção de pop, a dose se repetiu quando se mostrou o tal programa Esquenta!.

Parecia Jovem Pan 2! Um locutor abobalhado com umas "patricinhas" falando besteirol. E o programa é homônimo ao programa da Rede Globo que glamouriza a pobreza. E tanto a UOL 89 quanto a Rede Globo se encontram dentro da ciranda da grande mídia conservadora e reacionária.

E a TV Cultura, na sua linha editorial, também não deixaria de mostrar seus equívocos. Ao citar a rádio Cadillac FM, a repórter do Metrópolis errou ao dizer que a emissora tocava o "lado B" do rock, citando nomes clássicos e históricos do rock, como Elvis Presley. Quer dizer, um dos pioneiros da história do rock agora é jogado no porão dos "excluídos". "Pioneiro do rock" agora é Axl Rose ou Jon Bon Jovi?

É evidente que hoje a mídia é que é bastante atrasada. Ela ficou presa em algum momento dos anos 90, ela se estagnou e hoje até personalidades que eram outrora sinônimo de modernidade, como Marcelo Madureira, Marcelo Tas, Arnaldo Jabor, Danuza Leão e Ferreira Gullar hoje se tornaram retrógradas em seus pontos de vista. Não será a UOL 89 FM que será mais moderna do que eles.

A TV Cultura, evidentemente, não vai desagradar a Folha de São Paulo, sócia da UOL 89 FM. A emissora educativa reservou uma hora para os funcionários de Otávio Frias Filho pregarem seus pontos de vista num espaço de visibilidade relativamente maior, já que a TV Cultura é transmitida na TV aberta e na TV paga em vários lugares do Brasil.

A própria Folha era sinônimo de mídia moderna, e hoje é considerado um dos jornais mais retrógrados do país. Portanto, a UOL 89 FM que "come poeira" diante do que fazem as rádios autenticamente rock no Brasil (quase todas restritas à Internet) e do mundo, hoje parece até cafona.

E a rádio já começa a reconstruir a mesma fase que derrubou a emissora em 2005, com game shows, humor besteirol, locutores engraçadinhos. Será que o Temos Vagas lançará um novo Restart apenas "mais masculinizado"? O que se sabe é que os tempos são outros e a grande mídia não goza mais do mesmo poder absoluto de 20 anos atrás. E há muito mais vida na cultura rock fora das ondas da UOL 89 FM.

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