quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

QUESTÕES SOBRE VANGUARDA E MEDIOCRIDADE


Por Alexandre Figueiredo

Aos poucos, toma-se noção dos conflitos que ocorrem entre a "cultura de massa" e a sociedade em que vivemos. Afinal, a "cultura de massa", tal como se deu nas últimas décadas, e com maior intensidade desde os anos 90, não está divorciada dos interesses dos barões da grande mídia, por mais que a intelectualidade dominante argumente o contrário.

Tentativas de ruptura há, mas muitas delas são facilmente cooptadas pelo "sistema" e acabam realimentando o status quo do entretenimento, garantindo o sono das elites, para as quais nada lhes ameaça, pois o primeiro foco de rebelião cultural é facilmente assimilado pelo comercialismo midiático, com o consentimento e colaboração de seus antigos "rebeldes".

A acomodação mais famosa é a dos dois líderes tropicalistas, Caetano Veloso e Gilberto Gil, há muito convertidos para o mainstream musical brasileiro. Consta-se que eles criaram até um sistema de clientelismo artístico e sócio-político que Cláudio Júlio Tognoli denominou de "máfia do dendê".

Mas não é muito fácil romper com esse protocolo tropicalista, para o qual a "cultura de massa" é a salvação da humanidade. Um protocolo que, na verdade, eliminou o que havia de crítico e contestatório na problemática da "geleia geral" expressa pelo falecido poeta Torquato Neto, da ala mais crítica do movimento tropicalista, deixada de lado pelo establishment de Caetano e Gil.

Afinal, sob a hegemonia, já no seu completo desgaste mas ainda em pé, de uma intelectualidade dominante que acredita que o jabaculê de hoje seja o folclore do futuro, não é fácil acreditarmos numa vanguarda cultural sem cairmos nas armadilhas pós-caetânicas de juntar o comercial e o artístico, o cafona e o moderno e que expressam um neoliberalismo cultural com verniz falsamente libertário.

A vanguarda cultural hoje precisa repensar não a ruptura com o passado, mas com o comercial, com a "cultura de massa" hoje. Fazer vanguarda musical se inspirando no repertório tocado pela Nativa FM é impossível, só faz sentido para o antropólogo, sociólogo ou crítico musical comprados pela grande mídia.

A intelectualidade dominante até tentou unir o joio com o trigo, como se fossem partes indissociáveis. Tentou fazer crer que a solução para a cultura brasileira estaria em juntar elementos associados à vanguarda cultural com o establishment brega-popularesco, que na verdade não é vanguarda e sim retaguarda.

Isso nunca trouxe resultados concretos de renovação cultural. Quanto muito, lançavam apenas novos "artistas-fetiche" para alimentar a grande mídia. Apenas rostos novos, pessoas novas dentro de um mesmo processo, pouco importando alguns detalhes inócuos.

Juntar "funk carioca" com moda pós-moderna, pinturas pop-art foi inútil. Assim como juntar brega setentista com teatro performático. Unir vanguarda e retaguarda só permitiu que uns poucos artistas novos entrassem na mídia, mas sem provocar qualquer impacto, e sua adequação ao mainstream foi tal que até entrar na revista Caras foi fácil.

Lembramos do caso de Zeca Baleiro, um artista que poderia ter assumido uma postura de ruptura, quando ele integrou, ao lado de Chico César, Zélia Duncan, Marisa Monte, Adriana Calcanhoto e a falecida Cássia Eller uma geração da MPB surgida para barrar a hegemonia dos neo-bregas de 1990-1992. Mas ele, de forma ainda mais radical que seus pares, acabou compactuando com a breguice reinante.

Ser "pós-modernamente" cafona não deu certo. Não convenceu em coisa alguma. Só realimentou o mercado e mostrou o pior do legado pós-tropicalista, mas não trouxe uma criatividade de impacto. Afinal, a intelectualidade não pode cobrar de nós que "reeduquemos" nossas percepções e achemos "genial" a mediocridade de hoje.

Até porque, no processo comunicativo, emissor e receptor têm ambos que fazerem a sua parte. É inútil cobrar do receptor uma percepção mais "generosa", se o emissor, no caso, o artista, não faz sua parte. Daí a mediocridade não fazer efeito senão publicitário, na inútil integração entre uma vanguarda que não incomoda e uma cafonice que incomoda menos ainda.

Com esse espetáculo da cafonice "pós-moderna", os barões da grande mídia aplaudem de pé e ainda assobiam.

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