sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

O RISCO DE GENERALIZAR O DISCURSO PRÓ-PERIFERIA

IRMÃOS MARINHO - O "FUNK CARIOCA" DEFINITIVAMENTE NADA SERIA SEM ELES...

Por Alexandre Figueiredo

No debate sobre a cultura brasileira de hoje, temos que admitir uma coisa, que merece ser encarada em consenso.

Primeiro, vivemos uma crise cultural aguda, através da hegemonia da mediocridade e da imbecilização. Mas admitimos que essa crise não quer dizer que faltam grandes artistas em nosso país, mas que eles não dispõem de visibilidade suficiente para se destacarem por definitivo na apreciação do grande público.

Segundo, que admitimos que novas linguagens artísticas estejam florescendo, e que processos de ricas pesquisas e expressões culturais acontecem na cultura popular. Mas isso não quer dizer que tenhamos que aceitar, sem verificação, que tudo que venha sob o rótulo "popular" seja digno de reconhecimento e admiração.

Evidentemente, vivemos uma diversidade cultural muito grande. Mas, por trás disso, há também tensões e conflitos, sobretudo por causa da hegemonia de um processo perverso de indústria cultural no qual os interesses empresariais prevalecem sobre os do povo, que se tornou na maioria das vezes um mero "gado" para os fenômenos ditos "populares" empurrados em diversas modalidades.

A glamourização da pobreza é um processo ideológico que se deu sob o silêncio da maioria da intelectualidade que, sendo formada por integrantes das elites, não entendem realmente o que são as classes populares. Ou alguém acreditaria que um Ronaldo Lemos da vida, isolado no seu escritório do Rio de Janeiro, entenderia de fato o que se passa nas classes populares do Pará?

Afinal, seu livro sobre o tecnobrega mostrou um Pará glamourizado, um Pará-iso que contrasta com o que ocorre na violência do campo no Estado. E não se pense que essa violência ocorre no interior, afinal em todo Estado a capital sempre serve de vitrine para o coronelismo interiorano e temos ainda o "coronelismo" midiático que persegue sobretudo jornalistas independentes como Lúcio Flávio Pinto. Que odeia tecnobrega.

TRIGO E ALHO, JOIOS E BUGALHOS

Temos que tomar cuidado, porque nos subúrbios há muito trigo e alho, mas também há muitos joios e bugalhos plantados nos escritórios das empresas de entretenimento. Os empresários de entretenimento podem até ser também DJs e músicos, mas como empresariado eles não podem ser confundidos com a população pobre que consome seus produtos.

Da mesma forma, programadores de rádio e TV estão a serviço de interesses oligárquicos. Várias emissoras FM são controladas por latifundiários, políticos corruptos, oligarquias familiares com mentalidade ainda feudal, fato comprovado em documentos mas ignorado pelos sociólogos, antropólogos e críticos musicais mais festejados.

Para eles, toda rádio "popular" é equiparada a uma rádio comunitária ou rádio alternativa (?!) e eles superestimam o papel do programador como se ele fosse o chefe do negócio. Coitados desses intelectuais que arrancam aplausos das plateias como quem joga milho aos pombos. Eles ignoram que os programadores apenas estão atendendo aos interesses dos donos, dentro de um processo pernicioso de promoção e divulgação de "fenômenos de massa".

Essa ignorância custou muito caro para a cultura brasileira, porque levamos gato por lebre ao confiarmos em intelectuais com muita visibilidade e pouca confiabilidade. Achava-se que o "funk carioca" e o tecnobrega iriam representar a moderna vanguarda cultural das classes populares, muitos esperavam que a nova Semana de Arte Moderna chegasse logo ali, nos "bailes funk" e nas "aparelhagens".

Mesmo as esquerdas médias apostaram todas as fichas no revival de Waldick Soriano e Odair José, na valorização de É o Tchan, Tati Quebra-Barraco, Zezé di Camargo & Luciano, MC Leonardo, Banda Calypso, Mr. Catra, Gaby Amarantos e Michel Teló como a "salvação guevarista (sic)" da cultura brasileira. Até Michael Sullivan, antigo mafioso do brega, voltou com poses de "coitadinho". Tudo em vão.

Nada disso conseguiu amenizar ou eliminar a mesmice midiática. Pelo contrário. A própria grande mídia caía nas grandes risadas histéricas ao ver que as esquerdas médias assinavam embaixo o que passava até no Domingão do Faustão.

"Eles falavam em invasão popular na grande mídia!! Nossa, estamos com medo!! (Rá, rá, rá)!! Isso vai triplicar nossa receita, aumentando nossos lucros e poder!!", é o que provavelmente teriam dito os barões da grande mídia e seus executivos e gerentes sobre o apoio das esquerdas ao brega-popularesco.

Isso é que é falta de cautela e percepção. Afinal, poucos perceberam que Pedro Alexandre Sanches e Ronaldo Lemos foram educados pela mídia reacionária, paridos do mesmo Projeto Folha tão criticado pelas esquerdas. E os regionais Eugênio Arantes Raggi (mineiro) e Milton Moura (baiano) são tão cúmplices com a velha grande mídia quanto vários ministros do STF, sobretudo Gilmar Mendes.

Dando ouvidos a essas pessoas, muitos acreditaram que o jabaculê de hoje seria o folclore do amanhã, apenas porque "o povo gosta". Esses intelectuais empurraram coisas estranhas, como desaconselhar a análise contestatória dos problemas da cultura brasileira, ignorar problemas estéticos, de gosto, ou mesmo de qualidade da expressão artística.

"GOROROBA" INDIGESTA

Nas mãos deles, a cultura popular se reduziu a um "vale tudo", a uma "gororoba" indigesta que os intelectuais nos empurravam goela abaixo sob a promessa de que a aceitação "rompia preconceitos". Isso favoreceu o mercado que esses intelectuais fingiam abominar, e a grande mídia que esses intelectuais fingiam desprezar, mas a qual expressavam uma febril paixão não-assumida, quase um namoro escondido.

Só o "funk carioca", símbolo dessa retórica de aceitação cega do "popular", apresenta sérios problemas. O ritmo esconde um processo de exploração comercial que aparentemente não causou problemas, mas coloca o suposto artista como empregado de DJs-empresários cheios da nota, mas obrigados a se vestirem mal e montarem escritórios "modestos" para dar a impressão de que "continuam pobres".

Quem acompanhou a ascensão do mercado funqueiro sabe muito bem que esse discurso de que ele sofreu "discriminação da grande mídia" nunca passou de pura mentira. No Rio de Janeiro, o ritmo não teria crescido se não fosse o apoio que a rádio 98 FM, das Organizações Globo, sempre deu para o gênero, sobretudo para o DJ Fernando Mattos da Mata, o DJ Marlboro, um dos "chefões" do ritmo.

O próprio discurso socializante do "funk carioca", que muitos acreditaram parecer "libertário", foi forjado em conjunto entre as Organizações Globo e o grupo Folha, que veicularam os primeiros textos tratando o "funk" dentro de uma retórica pseudo-folclórica e pseudo-modernista, emprestando a essa campanha recursos discursivos inspirados no New Journalism de Tom Wolfe e da História das Mentalidades de Marc Bloch.

Depois do falecimento de Roberto Marinho, seus filhos que hoje controlam as OG, Roberto Irineu, José Roberto e João Roberto, investiram pesado na popularização nacional do "funk carioca", que era inserido de forma direta ou indireta em todos os veículos e produções da corporação.

Até mesmo Mr. Catra, que posava de "sem mídia", era jogado direto no Caldeirão do Huck. MC Leozinho apareceu até no Canal Futura. Personagens eram criados em novelas e humorísticos da Rede Globo para fazer propaganda do "funk carioca". E mesmo o "militante" MC Leonardo foi "resgatado" de seu semi-ostracismo com a ajuda da Globo e do cineasta José Padilha, ligado ao Instituto Millenium.

Daí o grande cuidado de quando falarmos em "novas expressões das periferias". As armadilhas discursivas podem representar a manutenção de interesses midiáticos e mercadológicos de forma ainda mais intensa. Vamos analisar criticamente a cultura brasileira, sem relativismos baratos. Caso contrário, a solidarização com o povo pobre sempre se deturpará para uma glamourização da miséria, e não sua superação.

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