quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

O QUE É "VIVER INTENSAMENTE"?


Por Alexandre Figueiredo

"Liberdade do corpo", "liberdade do sexo", "viver intensamente"... Na mediocridade brasileira de hoje, muitas pessoas só usam seu "raciocínio" como desculpa para "justificar" sua estupidez, sua teimosia, sua alienação. Há toda desculpa para qualquer barbaridade, e no caso da vulgaridade feminina, a coisa não é diferente.

"Liberdade do corpo e do sexo" tem uma analogia à "liberdade de expressão" defendida pelos reacionários do jornalismo político, como Merval Pereira e Reinaldo Azevedo. Eles "mostram demais" em seus artigos, exibem seus "traseiros" para as esquerdas, "sensualizam" nas caras e bocas no Instituto Millenium, e querem que o mundo "se fo..." enquanto desfilam livres e soltos nos carnavais da grande imprensa.

Já a expressão "viver intensamente" virou um jargão muito vago mas também bastante tendencioso para musas "popozudas" defenderem suas teimosias. Elas acham que são "autênticas" fazendo gafes e não dando conta de recado algum. Acham que viverão eternamente "sensualizando" à toa, desprezando toda luta que outras milhares de mulheres deram e dão para que o sexo feminino viva com dignidade.

Afinal, na humanidade, direitos e deveres não vivem separados, mas integrados. A conquista dos direitos das mulheres é um benefício, mas ele traz responsabilidades profundas para elas. Hoje, a sociedade quer mais que as mulheres, por mais sensuais que sejam, prevaleçam pela sua inteligência e saibam até mesmo o momento certo de expressarem sua sensualidade, deixando de expressá-la quando necessário.

Mas o que se vê são moças de mais de 23 anos, algumas até beirando os 40 anos, achando que basta ser "gostosa" para dar certo na vida. E acham que viverão a vida toda nisso, fingindo que são boicotadas pelos homens enquanto, nas festas da vida, elas mesmas recusam pretendentes. Dizem elas que os homens têm medo delas, mas elas é que tem medo dos homens.

"SENSUALIZAR" FORA DO CONTEXTO

Se "viver intensamente" é se preocupar com bobagens, cometer gafes, ir a noitadas ou a apresentações de ídolos brega-popularescos, "sensualizar" à toa e, de preferência, fora de qualquer contexto, então a imbecilização cultural anda a níveis crônicos, sobretudo por conta de uma mídia machista que acha que estão promovendo "novo feminismo" através de suas "popozudas".

Estas, aliás, são lançadas em quantidades gigantescas e vários "tipos" - das mulheres-frutas às ex-BBBs, das paniquetes às Miss Bumbum, das musas do Brasileirão às "peladonas" de qualquer lugar - , num verdadeiro esquema de rodízio, todas fazendo a mesma coisa.

Chegou-se a tal ponto que já surgiram até "pistoleiras periguetes" que arrumam um factoide com um cara famoso (um jogador de futebol ou um cantor "sertanejo", por exemplo), podendo até ser boataria, mas que garanta o ingresso numa revista "sensual" que a impulsionará depois para os mesmos factoides de exibição corporal repetidas à exaustão.

Sinceramente. Viver intensamente não é isso. Ver que várias dessas "musas" têm mais de 25 anos ou passaram dos 30 é bastante constrangedor, humilhante até. E o pior é que essas "musas" ainda falam que desejam ter homens "legais", que sejam apenas "divertidos" e "gentis". Com moças sem graça assim, são justamente os homens "legais" que mais fogem delas, não por medo, mas por repulsa.

DOIS EXEMPLOS DE QUEM REALMENTE VIVEU A VIDA

Para entender o que é viver intensamente, temos que citar que esse dom junta prazer, busca de conhecimentos, experiências sociais, aprendizado, alegrias e tristezas e tudo o mais. Sendo assim, a "missão" das "popozudas" é incompleta demais para se definir como uma "vida intensa".

Afinal, falta-lhe quase tudo: falta o desenvolvimento da inteligência, através de leitura de livros. Falta o contato pessoal com amigos não apenas para o narcisismo das noitadas, mas para uma conversa grupal. Falta o aprendizado das verdadeiras desilusões. Faltam os escrúpulos para não ficar "sensualizando" à toa. Se deixarmos, uma paniquete ficaria nua até em velório de padre. Não seria sexy, seria patético.

Temos que citar, para reforçar nossos argumentos, os exemplos de duas jovens que tiveram suas vidas ceifadas em acidentes, no auge de suas famas, duas trajetórias interrompidas de forma prematura, mas depois de grandes experiências de vida que só não puderam ter continuidade.

Estamos falando das duas garotas que aparecem nas fotos acima, a atriz Leila Diniz (1945-1972) e a cantora Silvinha Telles (1934-1966), duas das mulheres mais impactuantes da história da cultura brasileira do século XX.

As duas viveram intensamente. Leila tinha a liberdade de curtir a vida aliada à vontade de buscar aprendizados. Fazia de teatro infantil a desfiles como rainha da Banda de Ipanema. Fazia de teatro de revista a poemas e diários. Leila assistia a jogos de futebol, debatia até política com homens e não deixava de ser feminina por isso. Chegava a ser até bem graciosa em muitos momentos.

Leila não tinha pretensões de ser feminista ou intelectualizada. Ela nem pensava nisso. Para ela, lutar pelos direitos e buscar conhecimentos era um processo natural, para ela já era uma conquista feita, um compromisso pessoal, de seu prazer, de sua vontade. E, com apenas 27 anos, viveu intensamente deixando sua marca forte de sua brevíssima vida.

E Sílvia Telles? Ela foi uma das maiores cantoras do Brasil, que faz qualquer Ivete Sangalo se reduzir a cantora de banheiro de birosca do interior. Silvinha foi um dos ícones da Bossa Nova, enquanto movimento dotado não apenas de uma linguagem própria, mas também de um cenário e eventos peculiares, que incluíram até mesmo o controverso reduto do Beco das Garrafas, em Copacabana.

Silvinha, além de uma brilhante voz, tinha sua vida cheia de paixões e muitas atividades. Gravou muitos discos (até em inglês), participou de boa parte dos principais eventos de Bossa Nova - sobretudo a pioneira apresentação no Colégio Israelita-Brasileiro, no Rio de Janeiro, que era "apenas" uma jam de samba-jazz, mas havia anunciado a presença de jovens cantores "bossa nova" - e em vários programas de televisão.

Há, até mesmo no YouTube, uma imagem recuperada do acervo da antiga TV Excelsior, de uma das últimas participações de Silvinha Telles em 1966, pouco antes de seu falecimento, cantando "A Felicidade". E, a essas alturas, ela não só era uma artista veterana como uma mulher inteligente, de fibra, de uma larga experiência de vida, pelo rico convívio com artistas, produtores, intelectuais e figuras da mídia.

Sílvia Telles e Leila Diniz eram lindíssimas e muito sedutoras e atraentes. Eram jovens dotadas de muito potencial e talento. Nunca precisaram "sensualizar" fora do contexto ou "mostrar demais" para provarem sua fama. E, mesmo morrendo prematuramente, elas aproveitaram muito mais a vida do que as "popozudas" que desperdiçam suas vidas através de uma exibição aleatória e sem graça de seus corpos.

Concluindo. Viver intensamente é uma questão de espírito, e não uma questão de corpo.

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