quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

O "FUNK CARIOCA" E O "JEITINHO BRASILEIRO"


Por Alexandre Figueiredo

O "funk carioca" é filho legítimo do "jeitinho brasileiro". Seu DNA contraria toda pregação feita por seus ideólogos, por apontar relações de cumplicidade com a ditadura midiática e com o mercado fonográfico, enquanto faz sua choradeira em tudo quanto é ambiente possível.

Atualmente o "funk carioca" reaquece seu lobby depois que o jornalista Mino Carta falou sobre a imbecilização cultural que assola o país - da qual (deixemos de ser politicamente corretos) o "funk" é seu exemplo mais típico - , "ressuscitando" o mito do antropólogo Hermano Vianna, principal ideólogo do gênero, vinculado a Fernando Henrique Cardoso e patrocinado pela Fundação Ford.

Não bastasse isso, há a fraudulenta turnê de Valesca Popozuda, uma fraude publicitária feita só para a produção de um documentário. E hoje mesmo eu vi, nos tópicos mais populares do Twitter, um hashtag chamado #FunkCausaInvejaEmTodos.

O lobby do "funk carioca" é tão intenso que seus responsáveis, incluindo empresários, dirigentes e outros ativistas vinculados, não medem escrúpulos de promover discursos contraditórios, dizendo uma coisa e depois outra completamente diferente conforme as circunstâncias, para obter vantagem a qualquer preço.

O "funk carioca" é uma espécie de "Yoani Sanchez" da música brasileira, já que trabalha com uma falsa imagem de "vítima" que seduz a muita gente. E todo o processo ideológico do "funk carioca" lembra muito bem o caso do húngaro naturalizado brasileiro, Peter Kellemen.

Tendo vindo ao Brasil em 1953, Kellemen escreveu um livro humorístico, Brasil para Principiantes, que a editora Civilização Brasileira lançou em 1959. O livro, espécie de "manual" sobre o famigerado "jeitinho brasileiro", fez sucesso estrondoso e teve reedições em 1960 e 1961. Em 1960 o autor havia atualizado algumas informações citadas na edição do ano anterior.

Kellemen virou, na época, um queridinho das esquerdas médias, porque seu livro era um relato jocoso sobre a mania atribuída aos brasileiros de fazer pequenas trapaças para obter vantagens fáceis. É uma visão injusta, mas infelizmente ela é corriqueira até hoje.

Comprei o livro e, convenhamos, seu conteúdo é divertido, em que pese a lamentável realidade que está por trás disso. Por exemplo, você não compra um terreno com dinheiro, mas usando outro terreno como entrada no pagamento, assim como você disfarça sua inadimplência com as contas financeiras através de cheques pré-datados.

Mas Kellemen é pertinente em várias passagens, quando fala, por exemplo, de seu passado como militar na Hungria, quando ele e outros soldados eram, num dia, convocados a jurar fidelidade às tropas aliadas e, no dia seguinte, jurar fidelidade ao Eixo (dos governos fascistas da Alemanha e Itália). Quem assumisse posição contrária era fuzilado e, depois, com a mudança de posição, convertido para "herói da pátria".

Essa mudança de ideologia encontra equivalente exato no "funk carioca". Enquanto o "funk" aparece como "vitorioso" na grande mídia reacionária, se tornando fiel a ela, ele continua se passando por "vítima" no seu proselitismo na mídia de esquerda, geralmente controlada pelas esquerdas médias, vulneráveis a qualquer canto de sereia, seja vindo de Marcos Valério, seja de Paulo César Araújo etc.

Fortalecido desde os anos 90 pelo esquema jabazeiro que enriqueceu seus empresários-DJs, o "funk carioca" tenta a todo custo promover seu discurso pseudo-ativista. Tenta inverter sua mediocridade artística e sua defesa ao grotesco a à baixaria com um discurso "socializante" que tenta comover a opinião pública.

A blindagem intelectual foi necessária para o "funk", ganhando um novo sentido estratégico do jabaculê, não mais feito apenas pelo suborno a programadores de rádio, mas também pelo financiamento de intelectuais, artistas e celebridades dotados de um discurso mais sofisticado.

Dessa forma, o "funk carioca" ganhou um marketing tão sofisticado que parecia que seus defensores estavam falando de outra música, com toda a salada de referências e os mais requintados recursos narrativos investidos. Falou-se de tantas maravilhas que, na prática, inexistem completamente no "funk carioca". Mas a campanha discursiva conseguiu seduzir muitos.

Felizmente, há uma reação contrária ao "funk carioca", uma vez que todo o discurso sofisticado não pôde esconder a baixa qualidade do gênero, já que basta tocar um CD para esquecermos das "ricas referências" que a intelectualidade etnocêntrica tanto atribui ao gênero.

Além disso, também não tiveram fundamento as alegações que, no "funk", haviam valores "feministas" quando na verdade havia machismo, e "novos valores sociais" onde havia grotesco e baixarias. Chegaram até mesmo a dizer que "proibidão" era um nome preconceituoso para uma forma "mais realista" de "funk", mas isso também não convenceu.

Quanto a Peter Kellemen, pouco depois do auge de seu sucesso em 1961, ele criou um sistema de loterias fraudulento, que através de um golpe cometido a partir de uma emissão de carnês, o enriqueceu de forma ilícita. Isso gerou um grande escândalo que fez Kellemen deixar o Brasil, não deixando mais notícias. Qual será o escândalo que pegará de surpresa, definitivamente, os funqueiros?

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