terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

O BRASIL E OS HERDEIROS "DEMOCRÁTICOS" DA DITADURA MILITAR


Por Alexandre Figueiredo

O que tem em comum Otávio Frias Filho, Jaime Lerner, Gilmar Mendes, Roberto Gurgel, Roberto Medina, Mário Kertèsz, Hermano Vianna, Ricardo Teixeira, José Serra e Paulo César Araújo? E o que eles têm em comum com figuras já falecidas como Roberto Marinho, Roberto Campos e Antônio Carlos Magalhães?

O cidadão desavisado com menos de 35 anos, salvo aqueles que enxergam as coisas longe de seu perímetro cronológico, deve achar que não, que, descontando alguns nomes meio "incômodos" - Otávio, Gilmar, Gurgel, Teixeira e Serra - , o resto é "sinceramente solidário" com as causas progressistas e com a justiça social na mais nobre concepção.

Errado. Tanto uns quanto outros são herdeiros, de forma direta ou indireta, de projetos neoliberais que envolvem, de uma maneira ou de outra, decisões arbitrárias feitas do enclausuramento dos escritórios e dos cálculos financeiros, ou de interesses que transformam as classes populares em entes submissos, tratados, na melhor das hipóteses, com um paternalismo que exige "sacrifícios".

São pessoas que, de qualquer forma, se relacionaram com um "projeto de Brasil" que havia sido defendido tanto pelo antigo IPES (o "instituto" de "pesquisas e estudos sociais" patrocinado pela CIA e pelas empresas estrangeiras instaladas no Brasil) quanto por economistas como Roberto Campos e sociólogos como Fernando Henrique Cardoso, defendidos por políticos civis que apoiavam o regime militar.

Ao longo deste blogue, destrinchamos esse complexo projeto de mídia, de cultura e mobilidade urbana que encontram consonância com interesses e visões arbitrárias. Nem todos, evidentemente, participaram da elaboração desses projetos durante a ditadura, mas aprenderam, nos anos 90, lições e paradigmas que são claramente herdados de uma visão pragmática que prevalecia, por exemplo, durante o governo Geisel.

Ernesto Geisel foi um dos artífices do que, durante a ditadura militar, convencionou-se chamar de "governo revolucionário", juntamente com o general Golbery do Couto e Silva, membro do IPES e da Escola Superior de Guerra.

Os dois se apossaram da mobilização improvisada do general Olímpio Mourão Filho, que fez o golpe de 1964 a mando do banqueiro e governador de Minas Gerais, Magalhães Pinto, e estabeleceram as diretrizes do longo período anti-democrático que se sucedeu ao controverso governo de João Goulart, que apavorava o Brasil com um projeto que, décadas depois, Lula em parte realizou em dois mandatos completos.

Ernesto e Golbery sempre atuavam nos bastidores do governo militar, juntamente com outras figuras como os generais Emílio Garrastazu Médici, Artur da Costa e Silva e outros. E, depois de uma fase de repressão muito rígida, durante o governo do general Médici, estabeleceram uma "abertura política" limitada ao mais "pragmático" possível, geralmente uma redemocratização restritiva e "gradual".

Não é preciso reconhecer que algumas limitações sempre se encontram nesses "maravilhosos" projetos lançados por políticos, tecnocratas ou intelectuais que se influenciaram direta ou indiretamente pela Era Geisel - entendendo que os governos dos Fernandos, Collor e Henrique Cardoso, são claramente heranças do projeto sócio-político da Era Geisel - , uns reconhecidamente conservadores, outros nem sempre.

Vejamos alguns exemplos:

1) MOBILIDADE URBANA - A medida de Jaime Lerner de, entre outras medidas, dar um mesmo uniforme para diferentes empresas de ônibus e reduzir as frotas de ônibus em circulação, apesar de medidas exaltadas como "modernas", seguem a lógica da "disciplina" própria da ditadura militar, e cria limitações aos passageiros comuns em reconhecer de imediato a empresa de ônibus a serviço de uma linha e, além disso, aumenta o tempo de espera de um ônibus, já que as promessas de trajetos mais rápidos esbarram no lobby da indústria automobilística, que põe cada vez muito mais automóveis nas ruas.

É bom deixar claro que fora desse âmbito, Jaime Lerner demonstra ser um político tão reacionário quanto, por exemplo, Geraldo Alckmin, sendo privatista doentio e dotado de eventuais abusos de poder e burlas à lei, para satisfazer seus interesses políticos. Lerner não poderia ser "moderno" de um aspecto e retrógrado em outro. Seu projeto de mobilidade urbana, salvo poucas virtudes, é na verdade bastante retrógrado.

2) MÍDIA - A grande mídia, na redemocratização do país, tenta promover a "liberdade de expressão" e a defesa da cidadania. Isso criou um poder midiático concentrador, no qual as rádios FM, por exemplo, deixaram de promover cultura com a segmentação musical e passaram a parasitar a programação de rádio AM, criando rádios que "falam demais e pouco dizem".

Além disso criar um mercado predatório, que prejudica muitos profissionais, faz o rádio ficar tedioso e apegado a interesses meramente comerciais, com a concorrência desleal das FMs sobre as AMs que prejudica tanto a Amplitude Modulada quanto a Frequência Modulada.

Na imprensa e na televisão, o poder concentrador também se dá pelo pedantismo supostamente "messiânico" dos comentaristas políticos, pelos valores retrógrados dos programas de entretenimento, da desvalorização da cultura popular (corroborada pelas rádios) e pelo conservadorismo ideológico dos valores morais e sociais difundidos.

3) CULTURA - A intelectualidade que hoje difunde uma visão dominante da cultura popular - seja, por exemplo, Milton Moura na Bahia, seja Paulo César Araújo e Hermano Vianna no Rio de Janeiro - , na medida em que defende a suposta "cultura popular" do brega e seus derivados, de Waldick Soriano a MC Naldo passando por Ivetes, Zezés, Belos, Tchans e Calcinhas, também mostra essa herança de uma visão difundida pelo IPES e, depois, por Roberto Campos e por Fernando Henrique Cardoso.

É uma intelectualidade que se comprometeu a empastelar as lições da Semana de Arte Moderna de 1922, desqualificar os debates do ISEB (Instituto Superior de Estudos Brasileiros) e do Centro Popular de Cultura da União Nacional dos Estudantes em torno da cultura popular, substituindo-os pela visão tecnicista, de cunho neoliberal, difundida sobretudo pela Teoria da Dependência de Fernando Henrique Cardoso.

Neste caso, o povo sente as limitações de não ter para si seu próprio patrimônio cultural, que acaba se tornando "patrimônio" de classes mais abastadas. Elitizou-se o folclore brasileiro e discrimina-se o acesso da MPB autêntica ao povo pobre, não eliminando todo o acesso em si, mas criando dificuldades que acabam fazendo prevalecer no gosto popular formas caricatas e pasteurizadas de cultura popular, caraterísticas da música brega e de seus derivados.

Vendo alguns desses aspectos, dá para perceber que, se alguns desses políticos, intelectuais e tecnocratas se consideram "esquerdistas", é porque a esquerda, como temos hoje no Brasil, falhou em muitos aspectos, aceitando ser cooptada por elites que, de diversas formas, acabam empastelando e comprometendo a verdadeira cidadania, fazendo o povo sofrer mais em troca de supostos benefícios que nunca trazem vantagens reais ou definitivas e só atendem aos interesses dos donos do poder.

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