sábado, 23 de fevereiro de 2013

MÚSICA BREGA E A GLAMOURIZAÇÃO PELA MEMÓRIA CURTA


Por Alexandre Figueiredo

A grande mídia tem desses truques. Na música brega, a grande mídia, nos momentos de crise, quando aumentam as críticas feitas contra os chamados "ídolos populares" lançados pela indústria do jabaculê, tenta poupar os mais antigos da superexposição enquanto esperam o momento certo para reciclá-los de forma ainda mais glamourizada.

Se isso ocorre com uma rádio pseudo-roqueira como a UOL 89 FM e sua risível ou constrangedora linguagem com forte sotaque de Jovem Pan 2, ocorre, evidentemente, com a geração de ídolos bregas mais antigos, que retornam à evidência com a falsa imagem de "gênios injustiçados da MPB", através da blindagem intelectual dominante.

A memória curta transforma estrume em ouro e hoje muitos desconhecem que o que hoje é tido como "genial" era sinônimo de baixaria há vinte anos atrás. E, em se tratando de música comercial, era para as coisas serem ainda mais perecíveis, mas o trabalho dos barões da mídia e seus séquitos tenta fazer o contrário, glamourizando hoje quem sempre significou sinônimo de coisa cafona e ultrapassada.

Com a nivelação por baixo que ocorre em vários setores da vida humana, no Brasil, tudo que era empurrado goela abaixo nos anos 90 é visto como "genial". E aí entram os neo-bregas que fizeram sucesso sobretudo entre 1989 e 1998, hoje vistos como supostos mestres da música, esperando alguma onda saudosista que os faça parecer "respeitáveis" diante do grande público.

Por isso é que, com tantos nomes cada vez piores que surgem na nossa música, com "sertanejos" cada vez mais patéticos parecendo um Restart cheirando a feno, os neo-bregas que, no começo dos anos 2000, se comprometeram a fazer uma "MPB de mentirinha" para enganar o público, agora tentam reforçar essa falsa reputação às custas do saudosismo e do tempo de duração.

Um exemplo é o cantor Daniel (foto), um crooner bem aos moldes de cantores bregas lançados no final dos anos 70, como Nahim, Ângelo Máximo e outros, mas inserido num contexto "caipira" que não o faz menos brega que os outros.

Tendo feito sucesso nacional um pouco depois que outros ídolos neo-bregas como Chitãozinho & Xororó, Zezé di Camargo & Luciano, Alexandre Pires, Belo e Ivete Sangalo, Daniel, não bastasse ser um nome comum sem sobrenome, nunca se destacou por uma música autoral, mas por versões de sucessos estrangeiros ou de regravações de esquecidos sucessos da música brega ou de covers pedantes de MPB.

Daniel é um daqueles ídolos que nunca sairiam de programas como os de Sílvio Santos, Bolinha e Raul Gil nos anos 70, mas tornou-se protegido da Rede Globo, que ajudou a "embelezar" a geração neo-brega dos anos 90 e os estimulou a fazerem uma pseudo-MPB para conquistar fatias de mercado mais abastadas.

O problema, portanto, não é o sucesso desses ídolos em si, mas a obsessão deles de parecer o que não são. Daniel, Leonardo, Alexandre Pires, Belo e outros nunca foram mais do que cantores bregas fazendo um arremedo de música brasileira, pasteurizado e caricato, soando forçados e canastrões quando tentam se aproximar do que a MPB mais conhecida consegue fazer.

E isso acaba se mostrando uma farsa, na medida em que os ídolos neo-bregas, como já foi escrito aqui, apenas trabalham um simulacro de MPB que não os faz mais artistas nem mais criativos. É um processo cosmético que os faz até piores do que os artistas da MPB autêntica em fases mais pasteurizadas, como Simone, Guilherme Arantes e Zizi Possi nos anos 80.

Isso porque os ídolos neo-bregas se equiparam a crooners de reality shows musicais, quando gravam covers de MPB, num trabalho "correto" mas burocrático. E, no repertório autoral, continuam tão medíocres quanto eram nos primeiros discos abertamente bregas. Só contam com um aparato melhor, que não compensa o conteúdo.

Além disso, eles acabam levando às últimas consequências o que a MPB pasteurizada pelas gravadoras nos anos 80 havia feito, e se a crítica acusava a MPB autêntica de ser extremamente piegas e alienada nessa fase, os neo-bregas levam tudo isso ao extremo. Só para se ter uma ideia, Daniel adotou como logotipo uma assinatura, assim como Simone havia feito na sua fase pasteurizada dos anos 80.

Isso em nada acrescenta à Música Popular Brasileira. Os neo-bregas apenas mantém o jogo das aparências. Não se tornam musicalmente melhores, apenas se tornam fetiches mais requintados, mas limitando-se a desenvolver seu carisma mais como celebridades do que como artistas.

A memória curta de muitos brasileiros até pode ter a falsa impressão de que os neo-bregas dos anos 90 são "injustiçados da MPB". Impressão reforçada pela chorosa campanha vista na grande mídia, através da Rede Globo, das revistas Caras e Contigo e da Folha de São Paulo, que glamourizam a mediocridade cultural, até mesmo a mais antiga, se aproveitando dessa memória curta.

Mas é só tocar seus breguíssimos CDs que se verá que de MPB os neo-bregas nada têm: a boa cosmética não disfarça a mediocridade artístico-cultural.

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