sábado, 16 de fevereiro de 2013

MPB REQUER RESPEITO. GRANDE MÍDIA E ELITES NÃO DÃO


Por Alexandre Figueiredo

Um dos cacoetes das elites sócio-econômicas, incluindo os intelectuais associados, é adotar uma visão paternalista e condescendente com a tal "cultura de massa" do brega-popularesco, superestimando sua aceitação através de rótulos oportunistas como "verdadeira MPB" e "MPB com P maiúsculo".

Tomada de histerias "urubólogas", essas elites, das socialites aos sociólogos, se irritam e se desesperam quando alguém diz que os ídolos brega-popularescos não são MPB ou não fazem parte da MPB. "Como não? Isso é um absurdo! Eles fazem o maior sucesso, como é que eles não podem fazer parte da MPB? Isso é preconceituoso!", gritam, paranoicos.

Reações assim viraram clichês, e reforçam toda a choradeira intelectual em torno do brega-popularesco, promovendo ídolos bregas, neo-bregas e pós-bregas como "coitadinhos", mesmo fazendo o maior sucesso e dominando o mercado da música quase que por monopólio.

Em outras palavras, os ídolos brega-popularescos dominam o mercado e a mídia, exercem monopólio de mercado em vários segmentos da sociedade brasileira, tornam-se hegemônicos até mesmo num público de classe média e nível universitário e, no entanto, são tidos como "discriminados" e "injustiçados", a ponto de uns quererem que eles sejam "mais MPB" que a própria MPB.

Só que não dá para relativizar as questões acerca desses ídolos. A intelectualidade dominante, guiada sobretudo por Paulo César Araújo, Pedro Alexandre Sanches e Hermano Vianna, tentou jogar por debaixo dos tapetes as tensões e questões acerca da Música Popular Brasileira, como se bastasse a cultura brasileira estar ao "deus dará", desde que faça muito sucesso, renda dinheiro e tenha aparente apelo popular.

POR QUE NÃO É MPB - Definir MPB como um mero processo de popularização através da música é algo bastante duvidoso. Afinal, a sigla envolve três letras, uma correspondente à palavra "música", outra ao adjetivo "popular" e outra à nacionalidade, "brasileira".

Os defensores do brega-popularesco falam em "MPB com P maiúsculo", mas na prática querem que a sigla seja mPb, com "m" e "b" minúsculos. No fundo definem "verdadeira MPB" apenas aquilo que atrai mais público, vendo a coisa só pelo aspecto quantitativo.

Mas pelo aspecto qualitativo - que pesa mais, devido às formas de expressão musical postas em jogo - , o brega-popularesco não é MPB porque ela não se define apenas por ser popular e por ser cantada em língua portuguesa ou por cidadãos brasileiros.

Afinal, uma música "qualquer nota" não pode ser considerada MPB, se percebermos o contexto histórico de que se apoiou a sigla nos anos 60, que unia tradições culturais brasileiras resgatadas pelos CPCs da UNE e a modernização então simbolizada pela Bossa Nova, além da corrente tropicalista que juntou a isso a adoção de guitarras elétricas e a influência do rock internacional.

Isso porque o brega-popularesco não representa senão um tipo de música comercial para o qual as influências da cultura tradicional são praticamente desprezadas ou somente assimiladas de forma tendenciosa - quando as culturas locais já foram afetadas por formas estereotipadas pelo mercado - e as influências estrangeiras trazidas pelo rádio e TV são traduzidas de forma superficial, caricata e provinciana.

Em ambos os aspectos - influências nacionais e estrangeiras, globais e locais - , o brega-popularesco é artisticamente superficial e frágil, não consistindo numa expressão cultural forte, uma vez que é como um castelo de areia depois dissolvido pela força do mar.

O que sustenta o brega-popularesco é o marketing, os investimentos financeiros que mantém seus ídolos em evidência, sobretudo através de factoides e de uma exploração um tanto sensacionalista de suas vidas particulares. Se for pela música em si, tais ídolos nunca passariam de seus primeiros sucessos, "morrendo" artisticamente em dois anos de carreira.

A MPB autêntica é que não é respeitada, porque sua qualidade musical é discriminada, seus artistas acabam boicotados pela grande mídia ou, se isso não acontece, o acesso do grande público a eles é dificultado. E, se não é dificultado, procura ser o mais secundário e subvalorizado possível.

Ou seja, para a grande mídia, a MPB, quanto mais distanciada do grande público, melhor para ela. O que interessa à ela e à "boa sociedade" é a permanência, a mais longa possível, de músicas de gosto bastante duvidoso no imaginário do grande público, uma pseudo-cultura alimentada pelo jabaculê e que consiste numa "ditabranda do mau gosto" que é mantida não contra, mas plenamente a favor dos interesses do mercado.

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