quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

MINO DEU A CARTA NO DEBATE SOBRE CRISE CULTURAL


Por Alexandre Figueiredo

Conforme sabemos, finalmente retomou-se o debate sobre cultura brasileira e espera-se que ele continue se ampliando, superando o medo que durante dez anos tivemos em afrontar os problemas da crise cultural resultantes da ditadura midiática vigente em nosso país.

Muitos preferiram fazer vista grossa diante da crise cultural brasileira, relativizando-a resignados com seu sucesso comercial e sua aparente popularidade. Uns preferiram superestimar o papel manipulador do jornalismo político, para o qual se reduziu o "inferno" da grande mídia, enquanto acreditavam que a "cultura popular", como eles entendiam, estava segura numa bolha de plástico e numa aura paradisíaca.

Outros preferiram superestimar os assuntos internacionais, sobretudo o Oriente Médio e a causa palestina, sem saber que na "adorável periferia" de funqueiros, tecnobregas e outros bregas havia problemas tão graves quanto os palestinos. Sem falar da exploração que estava por trás dessa suposta "cultura das periferias".

Tinha que ser uma figura veterana como Mino Carta que, apesar de nascido na Itália, é muito mais brasileiro do que muito brasileiro nato endeusando o FMI. Mino é proibido, por lei, de se candidatar presidente da República ou ministro do Supremo Tribunal Federal, pelo fato de ser um naturalizado, mas ele nem precisa desses cargos. Como jornalista, ele já presta contribuições suficientemente valiosas para nosso país.

E como um veterano, ele, que conheceu os referenciais mais antigos de nossa cultura - quando cultura popular não era essa caricatura cafona ditada pela grande mídia - , afirmou que não existem hoje grandes mestres da cultura brasileira nas suas diversas modalidades.

O debate foi reforçado por um artigo de Cynara Menezes dizendo que continuam havendo pessoas tão criativas quanto antes, mas num outro contexto. Ela mostrou o outro lado, mas se percebermos bem tanto ela quanto Mino estão certos, pois no fundo o problema está na inexistência de grandes artistas com a visibilidade dos antigos mestres.

Cynara aponta que a imbecilização cultural está nas elites, que não permitem que a nova cultura seja amplamente conhecida. E aí essa constatação vem a partir de um terceiro texto que se derivou na discussão desses outros dois, um texto escrito pelo jornalista e cineasta Maurício Caleiro, do blogue Cinema e Outras Artes, mostrando uma visão bastante realista.

Ele demonstra ceticismo pelo simples fato de valorização das periferias ou de programas de qualidade transmitidos pela Rede Globo (Cynara cita a novela Avenida Brasil; neste caso discordo dela, vejo casos mais significativos no seriado Aline e nas criações do casal Fernanda Young e Alexandre Machado), já que na emissora predominam as atrações de gosto duvidoso, de Faustão, Xuxa, Galvão, Luciano Huck etc.

Caleiro, já no título, reconhece a profundidade da crise cultural brasileira, lamentando, entre outras coisas, que não existe um cinema realmente reflexivo no Brasil e que o teatro virou um fetiche para estrelas de televisão. O autor ainda questiona a contraposição ideológica de muitos intelectuais "de esquerda" entre a "decadente" cultura das elites do passado e a "vibrante" cultura periférica do presente.

Aqui vale citar a conclusão do texto, bastante ilustrativa da complacência intelectual que tomou conta do país e cuja problemática está, há um bom tempo, na pauta do Mingau de Aço:

"Ante um panorama como o acima descrito - de monopólio cruzado de uma megacorporação de mídia, em um país que o orçamento destinado a cultura é ínfimo e o ministério é utilizado como moeda de troca em meras eleições municipais -, constatar que pessoas que se dizem de esquerda mostram-se entusiasmadas com o atual cenário cultural brasileiro, além de soar extremamente contraditório, remete-me aos primeiros indígenas sul-americanos, contentes e deslumbrados com os espelhinhos e bugigangas com as quais o invasor espanhol os presenteou, antes de exterminá-los."

SUPERAÇÃO DA COMPLACÊNCIA

Pois essa superação da postura complacente, da qual alguns apoiavam e outros apenas discordavam calados, mostra o quanto amadurecemos na crítica dos problemas culturais de nosso país. Depois de dez anos surpreendidos por uma geração de intelectuais apologistas à mediocrização cultural brasileira, pôde-se despertar e despir-se dos preconceitos sociais de uma pseudo-cultura dita "sem preconeitos".

Se não retomamos em todo o nível crítico do final dos anos 90, isso tem seu lado bom, porque antes a maioria das reações à hegemonia brega-popularesca estava muito mais próxima à fossa de roqueiros que não viam mais a ampla presença do Rock Brasil na mídia ou a tristeza saudosista dos que viam a MPB que se ascendeu nos anos 60 cair no quase ostracismo em que se encontra hoje.

Essa fossa foi um prato cheio para intelectuais articulados em todo o país, influenciados pela Teoria da Dependência de Fernando Henrique Cardoso mas supostamente alinhados à esquerda, passassem a reafirmar a hegemonia brega-popularesca como se fosse a "verdadeira cultura popular", baseada em teses quantitativas de cunho financeiro e midiático de importância social, artística e cultural discutíveis.

Durante dez anos prevaleceu esse discurso, que invadiu até mesmo as páginas da imprensa esquerdista, sobretudo a partir dos bregas antigos, defendidos por Paulo César Araújo, e dos bregas novos (funqueiros e tecnobregas) defendidos a partir das pregações acadêmicas de Hermano Vianna e Ronaldo Lemos.

Era um discurso que deslumbrou muita gente, mas só favoreceu a ditadura midiática, que passou a "caprichar" no verniz cultural à mediocridade que dominava a mídia do entretenimento e da cultura. O "popular", reduzido a um lixo cultural pelo poder midiático, tornou-se um pretexto para permitir qualquer degradação, sob o desprezo um tanto esnobe da intelectualidade que dominou esse tempo.

E tudo isso era tingido de um falso e frágil verniz "cultural": a música brega-popularesca era pinçada com guaches pseudo-tropicalistas. O principal reality show, Big Brother Brasil, é comandado por um antigo poeta performático. As "popozudas" eram tidas como "feministas" só porque eram "solteiras" (pelo menos é o que dizem ser). O noticiário policialesco vendia a imagem contraditória de "ora investigativo, ora humorístico".

E isso não trouxe benefício algum para as classes populares. Não trouxe renovação concreta para a cultura brasileira e todos os esforços para transformar os neo-bregas dos anos 90 em "MPB sofisticada" foram em vão, tanto quanto o de fazer uma boneca falar e raciocinar.

Por mais treinados e bem arrumados, a turma de "sertanejos" e "pagodeiros" dos anos 90, no seu simulacro de MPB, não conseguiam ter a autonomia criativa necessária para se sobressaírem, muitos até parecendo calouros de TV mesmo com mais de 25 anos de carreira. Como artistas de MPB, esses ídolos se revelavam impotentes e até incompetentes, repetindo de forma piorada os vícios da MPB dos anos 80.

Mas isso se reflete em todos os aspectos, nas artes plásticas e no cinema que glamourizam a pobreza, na literatura mais preocupada com gírias e curtições juvenis, no YouTube que propaga muitas bobagens, no teatro de fetiches televisivos, num quadro onde novidades como o grafitismo, o rap e os scratchs do hip hop e as redes digitais não resolvem em si o problema.

O que resolve é enxergar a cultura como um todo, ver o seu problema, suas tensões etc. E é isso que se recomeçou a fazer. Foi a coragem de um veterano como Mino Carta que fez a diferença, emprestando sua visibilidade ao debate que havia apenas no underground da opinião pública e que era sufocado pelo patrulhamento dos intelectuais que defendiam a "cultura de massa" da grande mídia.

Esse novo debate retomado pelo jornalista responsável pela Carta Capital fecha um ciclo em que a opinião pública era submissa a uma intelectualidade que acreditava no jabaculê como o futuro possível para nossa cultura.

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