terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

MÍDIA DÁ PAPEL SECUNDÁRIO À MPB AUTÊNTICA


Por Alexandre Figueiredo

A MPB autêntica há um bom tempo recebe um papel secundário dado pelo mercado e pela grande mídia. Ela continua sendo divulgada e seus discos lançados, mas ela se tornou estrangeira dentro de seu próprio país, discriminada até mesmo pela intelectualidade mais influente.

O que domina nas rádios e no mercado são formas derivadas da música brega, aquela música "não muito brasileira" e "não muito estrangeira" que tornou-se o paradigma da mediocrização musical brasileira, embora protegida pela blindagem intelectual sob o pretexto de seu "apelo popular".

São tendências popularescas, daí a junção do termo brega e popularesco para definir esse conjunto de estilos musicais meramente comerciais que existiam desde 1958, mas cuja hegemonia atual caminha para o monopólio, isolando a MPB autêntica, sejam as expressões sofisticadas, sejam as expressões populares de raiz.

A música brega-popularesca é a Música de Cabresto Brasileira porque, no fundo, não é uma música realmente popular, mas popularizada. São estilos comerciais feitos por cantores, duplas e grupos cujos integrantes aparentemente são de origem popular e sugerem um apelo popular imediato, mas que carecem o necessário compromisso com a produção de verdadeiros conhecimentos e valores culturais.

Isso é fato. É só ver os ídolos veteranos da geração neo-brega dos anos 90 para constatar essa tese. É constrangedor ver Chitãozinho & Xororó e Alexandre Pires, por exemplo, se comportando, mesmo depois de tantos anos de carreira, como se fossem calouros de reality show, fazendo uma pseudo-MPB onde os covers de MPB são um artifício tendencioso para disfarçar um repertório autoral bastante sofrível.

Mas a Música de Cabresto Brasileira é que mantém-se hegemônica no mercado e na mídia. Isso cria vários problemas. Até mesmo o aparentemente inócuo exemplo da dupla breganeja João Bosco & Vinícius, por seu nome coincidir com o cantor mineiro João Bosco e o poeta Vinícius de Moraes, soa bastante problemático para os mais jovens.

PRECONCEITO CONTRA O QUE É VALIOSO

Afinal, a busca do Google já indica uma "competição" entre o João Bosco que é parceiro de Aldir Blanc e o "João Bosco" da dupla de "sertanejo universitário", cujo "dom criativo" se mostrou na usurpação de uma música do cantor norte-americano Jason Mraz, "I'm Yours", que virou "Chora Me Liga", único grande sucesso dos dois breganejos.

Cantores como Djavan e Milton Nascimento quase foram ameaçados de virarem one hit wonders, cantores de um sucesso só, apesar de seus inúmeros clássicos. Isso porque a pressão midiática e mercadológica queria jogá-los para o ostracismo, reduzindo a lembrança deles aos respectivos clássicos "Oceano" e "Canção da América".

Até mesmo a canção "Sina", de Djavan, chegou a ser apropriada pelo grupo de sambrega Revelação, a mesma manobra que Chitãozinho & Xororó fizeram com "No Rancho Fundo", a qual poucos sabem que se trata de uma antiguíssima composição de Ary Barroso e Lamartine Babo e os mais jovens, então, pensam que se trata de uma composição da dupla paranaense.

O uso de covers de MPB pelos ídolos brega-popularescos é uma forma de apropriação, feitas para evitar que o grande público aprecie a MPB. Afinal, para que conhecer Marisa Monte se seu primeiro sucesso, "Bem Que Se Quis", já foi regravado pelo Exaltasamba? Ou para que ouvir o Clube da Esquina, se o "pagode romântico" e o "sertanejo" já usurparam o seu cancioneiro?

Desse modo, a MPB torna-se cada vez mais secundária no gosto popular. Mesmo o cartaz que a mídia popularesca light - como os jornais Extra e O Dia, no Rio de Janeiro - dão para a MPB autêntica, mostra essa subvalorização da MPB.

Recentemente, os cantores Martinho da Vila e Jair Rodrigues aparecem se cumprimentando numa foto publicada no jornal Extra. O Dia, semanas antes, deu cartaz a uma apresentação gratuita de Paulinho da Viola. Todavia, o tratamento que esses jornais dão a esses artistas genuinamente populares, por mais respeitoso que pareça, dá o tom de que a autêntica MPB, "velha" e "elitista", foi deixada a segundo plano.

A MPB é tratada pela grande mídia como se fosse algo distante do grande público. Mesmo o seu tratamento mais respeitoso e solidário mais parece o de uma canção estrangeira sofisticada. Paulinho da Viola em Madureira é quase um Frank Sinatra em Copacabana, no tratamento dado pela imprensa brasileira.

Isso é ruim, porque sabemos o compromisso que Paulinho da Viola, Martinho da Vila, Jair Rodrigues, Zeca Pagodinho têm com o samba carioca e suas raízes culturais. Bem mais do que muito cantor de sambrega que acha que basta tocar em quadras de escola de samba para se dizerem "comprometidos com o samba de raiz".

O cantor Belo, por exemplo, por mais que receba tratamento prioritário dessa imprensa "popular", acaba recebendo uma cobertura digna de um integrante do Big Brother Brasil. Sem ter uma música de qualidade, Belo é o típico cantor sambrega dotado de pedantismos e postura de pseudo-MPB, junto a outro exemplo de tal postura, Alexandre Pires.

Mas vemos também o caso de Thiaguinho, cria do reality show Fama, depois integrante do Exaltasamba, que mais parece um astro de novela, com suas apresentações cheias de atores e atrizes da TV Globo, num processo de promoção jabazeira para promover o ídolo do sambrega.

Só que toda essa campanha acaba fazendo com que a suposta "ruptura dos preconceitos" atribuída ao brega-popularesco, na verdade, uma desculpa para "justificar" sua hegemonia, esconda um contexto de verdadeira discriminação da música brasileira de qualidade, numa época em que os mais jovens sentem um raivoso preconceito contra tudo que é realmente valioso.

Hoje se atacam os estilos musicais tradicionais. Os antigos sambas e modas de viola viraram "chatos", a sofisticação bossanovista ficou "insuportável", para jovens que hoje acham que moderno é ser brega e ouvir "sertanejos universitários", axezeiros e "pagodeiros românticos" fazendo um pastiche de música brasileira.

Chico Buarque virou a "geni" dos defensores da "cultura" brega. Alguns intelectuais só minimizam a rejeição à MPB autêntica porque precisam juntar alhos com bugalhos, jogando os "malditos" da MPB pós-tropicalista para alimentarem o discurso de defesa da mediocridade musical brasileira expressa pelos ídolos bregas.

SÓ MEDALHÕES

Outro aspecto grave é que a grande mídia discrimina a MPB autêntica na medida em que reduzem a divulgação de seu universo aos medalhões, aos veteranos que há muito fizeram sucesso, quando rádios e TVs podiam dar espaço para eles.

Mas se até os prestigiados Djavan e Milton Nascimento quase foram para o ostracismo e Chico Buarque chegou a ser vítima de "urubologias" intelectuais, imagine então aos inúmeros artistas, músicos e cantores, que mesmo com contribuições valiosas para a Música Popular Brasileira, são discriminados pela mídia que dificulta o acesso do grande público às suas músicas?

E ainda se fala que certos ídolos do brega-popularesco são "alternativos", só para sentir o nível do absurdo. Enquanto isso, a grande mídia quer que a MPB se torne acéfala na medida em que os grandes criadores perdem espaço para astros comerciais sem muita competência artística.

Nesse caso, a cultura brasileira piora. Quem sabe criar, não tem espaço para difundir sua arte. E quem não sabe criar, fica enrolando tentando convencer os brasileiros daquilo que não é. E assim a MPB, deixada em segundo plano, se distancia dos próprios brasileiros. Perderemos, assim, o contato com a nossa verdadeira cultura, enganados pelos "sucessos fáceis" que a grande mídia joga para nós?

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