sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

MAIORIA DOS INTELECTUAIS NÃO ENTENDE O QUE É "POPULAR"


Por Alexandre Figueiredo

Muitos intelectuais ditos "sem preconceitos" são muito mais preconceituosos do que pensam. A ideia que eles têm do "outro", no caso as classes populares, é muito estereotipada, e há um bom tempo vem sendo irresponsavelmente difundida até mesmo em teses acadêmicas.

Evidentemente, não há mal em si criar mitos, mas neste caso a transformação das periferias em mitos cria sérios problemas. Hoje, por conta do poder midiático, o povo pobre transformou-se na caricatura de si mesmo, e tudo que é feito sob o rótulo de "popular" é tratado com criminosa condescendência por uma intelectualidade dita "progressista" mas que esconde todos os seus preconceitos.

Eles se dizem "sem preconceito", criticam o "elitismo" dos outros, juram que não querem "idealizar" a cultura popular e ainda se atrevem a dizer que "reprovam" a infantilização do povo pobre. Dizem tudo isso, mas agem exatamente o contrário.

Sociologicamente, são pessoas de classe média quase indo para a alta, através de seus diplomas universitários de pós-graduação e pela ampla visibilidade que contraem em seus meios. Mas possuem relações patronais com empregados domésticos e um certo paternalismo com porteiros de prédios, faxineiros e outros profissionais populares que encontra nos seus ambientes sociais.

Por isso, eles tentam se omitir quando as aberrações sociais e a degradação cultural estão sob o âmbito do "popular" midiático. Quando criticam a decadência cultural, é da sala de jantar para cima - leia-se as festas de gala, por exemplo - , mas quando ela está nas favelas, ela é uma "cultura superior" que "não conhecemos".

"IGNORÂNCIA" INTELECTUAL É UMA RECUSA AO QUESTIONAMENTO

Aí eles cometem um sério e grave equívoco. Preferem ser "ignorantes" e, na sua "ignorância" um tanto cínica, que na verdade é uma recusa ao questionamento dos problemas sócio-culturais de nosso país, tentam atribuir como "sabedoria" a verdadeira ignorância do povo pobre.

Desta forma, acabam glamourizando a miséria, a pobreza, a mediocrização cultural. Recusam-se a analisar os problemas do povo pobre, creditando-os como "solução", ou acreditando que o povo pobre consegue "resolver" seus problemas com "suas maneiras peculiares".

Corrompendo a aceitação da ideia do "outro", que não deveria ser sinônimo de condescendência, o que a intelectualidade fez foi "poetizar" a miséria, "justificar" os problemas sociais, a degradação social etc. Mas se até nos regimes fascistas houve movimentos intelectuais de "justificação científica" de certos erros, no Brasil dos anos 90 para cá, sob a ditadura midiática, não poderia ser muito diferente.

HIPOCRISIA ELITISTA

Até agora não existe um grande movimento, por exemplo, que critique a mídia machista fora dos salões das "casas grandes" atuais. Como se, do quarto de empregada aos lixões suburbanos, qualquer degradação que reduza a imagem da mulher a um reles brinquedo sexual, é válida.

O rótulo "popular" absolve qualquer pecado mortal. A intelectualidade dominante só quer moralizar a cultura de seus meios. Mas, diante do rótulo "popular", há uma omissão e uma condescendência com qualquer coisa feita em nome do "popular".

Foi uma grande trabalheira, por exemplo, para uma minoria de blogueiros e intelectuais sem muita visibilidade, desfazer a máscara "glamourosa" do "funk carioca", um claro processo de degradação social que se aproveitou de um viciado relativismo intelectual para se propagar como um processo de dominação das classes pobres.

Até mesmo dirigentes vieram posando de militantes e "vendendo o peixe" - em outras palavras, fazendo proselitismo - até mesmo na mídia esquerdista. Seus DJs, no fundo jagunços modernos do poderio midiático, também se passavam por "pobretões" enquanto escondiam suas fortunas comprando apartamentos e até fazendas (nas quais jogavam a administração para "terceiros" para não pegar mal).

GAFE CONTRA A SAÚDE PÚBLICA

A mais recente gafe relacionada à mídia machista foi ignorada pela opinião pública média, graças ao rótulo de "popular". A "celebridade" Andressa Urach, uma das chamadas "boazudas" que "mostram demais" seus corpos na mídia, havia publicado no Twitter uma foto em que um mosquito pousa no seu traseiro, enquanto fazia comentários constrangedores a respeito.

"Esse sabe o que é bom", comentou a "musa", acrescentando que, "encalhada", ela pretende "fazer amor" com o inseto. É uma declaração puramente irresponsável que ignora, por exemplo, que o mosquito é um inseto desagradável e nocivo à saúde, sobretudo por causa da transmissão do vírus da dengue.

A gafe - a completar a coleção de "micos" que essas "musas" acumulam em sua trajetória, de Solange Gomes à ex-BBB Mayra Cardi - passou "batido" na intelectualidade dominante por causa do pretexto do "popular". Mas, se no lugar de Andressa Urach, fosse uma Gisele Bündchen, o incidente teria provocado um grande escândalo.

O que leva essa intelectualidade "sem preconceitos" a agir assim é um mistério. Infere-se que esses intelectuais, tais como os "iluministas de engenho" do século XIX (intelectuais "simpatizantes" da Revolução Francesa mas que mantinham escravos em suas casas), temem desagradar seus empregados domésticos.

Em todo caso, é muito estranho que esses intelectuais se digam "progressistas" mas se omitem quando os problemas da degradação sócio-cultural vão além das "casas grandes" das cidades de hoje. Só que aceitar o "outro", no caso as classes populares, não é se conformar com seus problemas ou achar que o que há de ruim no povo pobre é uma "coisa boa que não compreendemos".

Isso, sim, é desrespeitar e recusar o "outro". Recusa-se a analisar seus problemas, deixando o povo pobre na sua situação inferiorizada. Glamourizar essa inferiorização nada tem de positiva, apesar do discurso sedutor e verossímil confortar muita gente. Essa atitude, porém, esconde os piores preconceitos, cada vez piores porque se disfarçam sob o pretexto do "popular" e sob uma retórica "científica".

No fim, essas abordagens "positivas" acabam revelando um elitismo muito mais doentio do que muitas manifestações abertamente preconceituosas. Até porque sujeira escondida nos tapetes das periferias acabam um dia revelando seu odor tão ou mais asqueroso do que os abertamente preconceituosos que já inspiram o repúdio da sociedade.

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