sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

LEI ROUANET E O MONOPÓLIO DA MÚSICA "POPULAR" DE MERCADO

DUPLA "SERTANEJA" YAGO E JULIANO, BENEFICIADA PELA LEI ROUANET PARA GRAVAÇÃO DE UM SIMPLES DVD AO VIVO.

Por Alexandre Figueiredo

A Lei Rouanet, como é conhecido o Plano de Apoio e Incentivo à Cultura (PRONAC), lançado durante o governo de Fernando Collor em 1991, aparentemente parece equânima quanto às diversas manifestações atribuídas à cultura popular, independente de que qualidade sejam.

A visão da lei entende que não deve haver discriminações quanto aos estilos musicais, e, conforme cita o recente Plano Nacional de Cultura - que complementa a outra lei - , não se deve, em tese, adotar critérios avaliativos sobre o que é "alta cultura" ou "baixa cultura" ou mesmo "cultura de massa".

Até aí tudo bem. Mas o problema é que, hoje, quem sofre discriminação é a cultura de qualidade. A música brasileira de qualidade, hoje, que era apenas um processo natural e normal de fazer música mas hoje é tido como "excepcional", é que é discriminada até mesmo por intelectuais de nome, tratada como "elitista" e "velha".

Até mesmo o sociólogo baiano Milton Moura usa a palavra "sofisticação musical" no sentido pejorativo, como forma de evitar que a cultura de qualidade seja válida no gosto popular, enquanto define a mediocridade e até a imbecilização como "formas naturais" de expressão do povo pobre.

Quanto à Lei Rouanet (Lei 8313, de 23.11.1991), criada pelo hoje diplomata Sérgio Paulo Rouanet, ligado ao grupo intelectual de Fernando Henrique Cardoso, as queixas em relação à essa lei se dão devido à ênfase no aspecto mercadológico em detrimento do cultural, e isso promove uma competição bastante desigual entre expressões comerciais e não-comerciais da cultura brasileira, não só musical.

Mas, no âmbito da música, vemos que, se no ano passado um grupo como o inexpressivo Tchakabum - cuja única coisa que fez de "importante" é lançar Gracyanne Barbosa para o estrelato - conseguiu verbas generosas do Ministério da Cultura, então sob a batuta de Ana de Hollanda, hoje a Lei Rouanet beneficia a cantora de axé-music Cláudia Leitte e a dupla breganeja Yago e Juliano, do sucesso "Que Isso Novinha".

Intérpretes de MPB / Rock Brasil e nomes brega-popularescos, mesmo os mais inexpressivos, competem na solicitação de verbas para realização de eventos, incluindo gravação de DVDs e CDs e simples turnês ao vivo. O problema é quando o brega-popularesco, que possui poderosos empresários e tem os barões da grande mídia como seus divulgadores maiores, ganha vantagem nas verbas do Pronac.

O "sertanejo universitário" já havia solicitado verbas do Pronac para suas atividades. Pela lei, é bastante lícito, mas o problema é que esse estilo é patrocinado por grandes proprietários de terras, pelos mais poderosos donos de rádio e TV, por políticos conservadores, por empresas multinacionais, por grandes corporações de atacado e varejo.

Enfim, das entidades privadas, duplas "sertanejas" já contam com tanto apoio financeiro que até mesmo o Departamento de Estado dos EUA, feliz em ver jovens brasileiros de boa aparência fazerem arremedos estereotipados de folk rock e country music, teria gosto em investir milhões de dólares nessas duplas.

A MPB é que precisa chorar, para conseguir algum investimento. Isso quando não conta com apoio da grande mídia, tem dificuldades de acesso ao grande público, só conseque, no máximo, um papel secundário no gosto popular dos brasileiros, e é tida como "velha" e "ultrapassada" pelos críticos e intelectuais mais festejados, que detém o privilégio da visibilidade nas palestras e nos textos produzidos.

Daí o monopólio da música "popular" de mercado, que é a Música de Cabresto Brasileira, a modalidade musical do brega-popularesco. Ele não está satisfeito com seus espaços, quer ampliar mercados às custas da blindagem intelectual e da choradeira que se faz de ídolos que ficam ricos e fazem muito sucesso, mas que posam de "perseguidos" e "coitadinhos". Yoani Sanchez que o diga.

Eles pedem dinheiro do MinC para fazer seus rotineiros DVDs ao vivo, que não mostram novidade alguma, nada acrescentam à nossa cultura e apenas produzem meros sucessos comerciais, que sempre aparecem nos repertórios desses trabalhos ao vivo, que camuflam a baixa criatividade desses nomes, incapazes de se sustentarem com discos de estúdios com um mínimo de conceito musical.

Eles têm a mídia ao seu lado, têm todo o mercado em seu apoio. Duplas que surgem do nada viram sucesso no YouTube, nas rádios, nas TVs, na revista Caras, e seus ídolos ainda choram para serem respeitados até pela imprensa de esquerda.

Já a MPB autêntica, de valiosas contribuições à nossa cultura, é que precisa competir para que, pelo menos, não seja esquecida pelo grande público, ainda que uma Rita Lee corra o risco de ser dada como "polêmica" e ter suas gravações originais ofuscadas pelas versões oportunistas e pedantes que algum brega-popularesco gravar por aí.

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