terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

GRANDE MÍDIA E A IMAGEM DA MULHER SOLTEIRA NO BRASIL


Por Alexandre Figueiredo

Já se falou em outras ocasiões que a grande mídia brasileira trabalha uma imagem bastante depreciativa da mulher solteira. A mídia machista enfatiza a imagem da solteira brasileira como uma vadia que só quer curtição e possui referenciais culturais bastante duvidosos.

A coisa sempre desaba no lado do "popular", mas a intelectualidade dominante, no Brasil, vê o "popular" como pretexto para qualquer baixaria, como um terreno onde perdem validade as lutas pela cidadania e pelas melhorias de vida.

Neste terreno do popularesco agraciado pela intelectualidade mais badalada, as melhorias nas classes populares só devem se limitar aos aspectos gerais, geralmente alguma liberdade institucionalmente e legalmente garantida e o maior estímulo ao consumismo mais impulsivo.

No entanto, quando pensamos não só em queda do analfabetismo, mas em melhoria de valores culturais, éticos, morais das classes populares, essa intelectualidade - que, pasmem, se autocelebra "progressista"! - vem a nos acusar de "higienistas", "elitistas" e "preconceituosos".

Sim, porque para a "admirável" elite intelectual de Hermano Vianna, Paulo César Araújo e seguidores, quando as baixarias e grosserias ocorrem nas classes populares, elas são "admiráveis" e "saudáveis", as quais todo combate e questionamento é visto como "preconceito". Para todo efeito, esses intelectuais tentam nos fazer acreditar que esses são "novos valores trazidos pela felicidade (sic) das periferias".

A SOLTEIRA E A CASADA

No que diz às mulheres, a visão é a mesma. Se nas classes médias a intelectualidade dominante quer promover valores mais realistas à mulher brasileira, soando o alarme se aparece uma mãe debiloide num comercial de suco, uma esposa ao lado de um sempre engravatado homem num café da manhã ou a dona de casa expulsando sua clone "neurótica", nas classes populares a coisa é bem diferente.

Se uma Gisele Bündchen vestida de empregada doméstica causa o pavor dessa intelectualidade - e, pasmem, inclusive mulheres - , se aparece uma Solange Gomes fazendo a mesma coisa, a reação torna-se diferente, mesmo que o teor machista seja o mesmo ou até pior do que o da senhora Tom Brady.

No caso da ex-estrela da Banheira do Gugu, as reações passam a ser "mais positivas", com a intelectualidade usando argumentos prolixos para dizer que se trata de uma "saudável tirada humorística", que significa uma aliança (surreal) entre o senso de humor popular(esco) e uma decisão "feminista" (sic) da celebridade em questão.

Atirbui-se às musas vulgares qualquer tipo de "feminismo". A intelectualidade dominante, no seu discurso verossímil e apelativo, tentam nos fazer crer que elas "se sobressaem sozinhas na mídia", ocultando que se trata da mesma mídia machista que apavora esses mesmos intelectuais quando se trata de criar estereótipos de mulheres de classe média para cima.

E a reboque disso, temos a própria campanha da mídia sobre o que devem ser a mulher solteira e a mulher casada no Brasil, onde estranhamente valores "novos" são usados apenas como pretexto para camuflar valores velhos.

Explica-se tudo isso. A grande mídia, machista e reacionária, impõe às mulheres pobres que "não façam questão" de formarem famílias. As novas estruturas familiares são defendidas não como uma liberdade mas sim como uma obrigação, não se trata de reprimir famílias cujas mães são solteiras ou homossexuais, mas obrigá-las a optar por essas condições mesmo quando não as quer.

Já as mulheres mais abastadas e com melhores instruções e referenciais culturais, são sempre trabalhadas pela mídia para se casarem com empresários, executivos e profissionais liberais, mulheres até reconhecidas por sua independência intelectual e profissional, mas que precisam ter essa independência "patrocinada" e "protegida" pela sombra de um namorado ou marido, geralmente um homem com uma função de comando.

HIGIENIZAÇÃO SOCIAL

Cria-se uma inversão das coisas. A solteira brasileira é um estereótipo midiático ligado à vulgaridade, ao grotesco e à curtição impulsiva e irresponsável. Não é uma mulher com a natural liberdade de viver sozinha e se redescobrir no trabalho, no lazer e nos estudos que a mídia brasileira trabalha, mas o que há de pior atribuído à imagem da mulher no Brasil.

A coisa é tão séria que a grande mídia tenta desestimular as moças pobres a desejar homens por afinidade. No seu meio, basta um homem pobre querer jogar futebol na praia aos domingos para a mídia convencer as moças pobres de que tal homem não presta. Afinidade pessoal é tida como "sinônimo" de frescura, mas isso tem uma intenção bastante cruel por trás dessa "liberdade de ser solteira" das moças pobres.

As musas vulgares são promovidas como "vitrine" dessa visão cruel. Geralmente ex-BBBs, paniquetes, Miss Bumbum, mulheres-frutas etc. Mesmo com suas gafes e esteticamente um tanto "bizarras", várias dessas mulheres, as "popozudas", são tidas pela mídia popularesca como "ideal de beleza" e "modelo de sucesso" para as jovens pobres.

No deserto de valores éticos e morais na "saudável" fauna popularesca da grande mídia, as solteiras são vistas como "desocupadas" que só vão para a praia, boate, ensaios de escolas de samba, e não fazem mais outra coisa. Cuidam demais do corpo, mas descuidam da mente. Não têm personalidade, e são bastante temperamentais.

Para a coisa ficar ainda mais surreal, digna de um filme de Luís Buñuel se caso ele fosse brasileiro e vivesse hoje nas periferias, muitas dessas "popozudas" nem solteiras são. Pesquisas recentes no principal portal da mídia machista, o Ego (Organizações Globo), descobriu-se que as "encalhadas" Solange Gomes e Mayra Cardi arrumaram namorados.

A funqueira Andressa Soares, a Mulher Melancia, teve que cancelar sua participação num quadro de namoro de um programa de TV depois que se descobriu que ela tinha namorado. E até agora a moto importada que Valesca Popozuda ganhou "desapareceu", o que indica que a imagem de "solteira" trabalhada pela funqueira pode ser uma grande farsa, pois ela nunca depois foi vista passeando com a moto pelas ruas.

Num país onde as mulheres bem sucedidas arrumam maridos com facilidade, as "popozudas" tentam forçar a barra ao trabalharem a imagem estereotipada da "solteira" brasileira. Nem mesmo a palavra "solteiríssima" pode ser levada a sério, porque essa palavra, muitas vezes, é vista como eufemismo para a mulher que brigou com o namorado e saiu sozinha no dia seguinte mas que, duas semanas depois, já reatou a relação.

Na Europa e nos EUA, a mulher solteira não é trabalhada de forma distorcida pela grande mídia. Lá se respeita o direito de uma parcela de mulheres de não se casarem nem se envolverem com algum namorado, ou, se arrumar um, só o fizer por afinidades pessoais. Mesmo as comédias sobre solteironas não investem em estereótipos grosseiros ligados a moças vulgares ou cafonas.

Chega a ser uma grosseira inversão de valores. A moça brasileira mais intelectualizada, de gostos culturais melhores, é "aconselhada" pela mídia a arrumar um marido, geralmente um empresário, médico da rede particular ou advogado. Precisa ter sua independência intelectual e financeira "domada" pela figura "protetora" do homem associado à ideia de liderança e "sucesso" profissional.

Já a mulher vulgar ou aquela "coitada" cafona que fica ouvindo CDs de breganejo às lágrimas, ambos os tipos produzidos pela ideologia machista, "precisam" ficar solteiras, e houve casos de mulheres vulgares que recusaram pretendentes, depois de "amassos" de poucas horas, namoros de duas semanas e casamentos de três meses.

Isso é promovido pela mídia como forma de higienismo social. Desestimulando a formação de casais, nas classes pobres, por afinidades pessoais - nas classes abastadas a afinidade também não é estimulada, mas o contexto é outro - , desestimula-se a formação de famílias sólidas nas periferias, evitando que seus filhos cresçam em ambientes familiares saudáveis que lhe garantam fortalecer a autoestima.

Com isso, a grande midia, ao fazer um incentivo hipócrita à solteirice das moças pobres, sendo preferível uma homossexualidade forçada a uma relação heterossexual por afinidade, promove o higienismo social a produzir crianças perturbadas e confusas, fazendo com que as classes populares fiquem socialmente enfraquecidas, dentro de um engodo onde valores retrógrados estão camuflados de retórica moderna.

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