terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

GRANDE MÍDIA DISCRIMINA A MPB E DIFICULTA SEU ACESSO AO PÚBLICO

MILTON NASCIMENTO - Apesar do reconhecimento público e da elevada qualidade musical, a mídia dificulta o acesso do grande público à sua música.

Por Alexandre Figueiredo

Não é o brega que é vítima de preconceitos ou avaliações elitistas. Até porque nunca, na história do nosso país, os ídolos bregas e derivados andaram com todo o cartaz na grande mídia, elogiados até pelo alto clero do Instituto Millenium e pela nata da "urubologia" da imprensa política mais reacionária.

Quem sofre preconceito é a MPB autêntica, tida como "elitista", "velha" e "chata". Mesmo com suas melodias de alto conceito e seus artistas genuínos, íntegros e capazes de dar opiniões relevantes e tomar posições seguramente solidárias em relação ao ativismo social.

Praticamente envelhecida, isso até que não é um problema em si para a nossa MPB. Afinal, seus artistas, mesmo entre 60 e 80 anos, continuam com fôlego para lançar músicas novas com o mesmo frescor da juventude. Milton Nascimento, que fará 71 anos este ano, e Djavan, que fez 64 anos há pouco, mantém o vigor criativo de juventude e em perfeitas condições de seguirem em atividade com novos clássicos.

Chico Buarque, então, nem se fala. Em que pese um intervalo maior de lançamento de discos, ele continua com sua criatividade intata, lançando músicas sofisticadas e letras que mantém a expressividade de quando ele era um rapazinho de 22 anos que assustou a ditadura militar com sua arte engajada, a perfeita síntese da militância cepecista com a sofisticação melódica da Bossa Nova.

O grande problema é que não existem artistas novos que façam frente a eles e que tenham muita visibilidade e acesso liberado do grande público. Em vez disso, temos uma linhagem de ídolos bregas submissos às regras de mercado, sem opiniões firmes sobre coisa alguma, altamente tendenciosos e oportunistas, mas de nível criativo medíocre, até mesmo ruim.

E se até os ídolos brega-popularescos - como Chitãozinho & Xororó e o cantor baiano Bell Marques, do Chiclete Com Banana - já estão na casa dos 60, ou então nos 50 (Zezé di Camargo, Leonardo) ou 40 (Daniel, Latino, Ivete Sangalo), então a coisa é muito, muito séria. Se bem que os bregas sempre têm seus sucessores, a MPB é que carece de uma geração nova com grande força artística.

A própria mídia deseducou a população brasileira, sobretudo nos anos 90, com a mídia quase toda atrelada a Fernando Collor e Fernando Henrique Cardoso, tomada de completa politicagem e comprometida apenas com o falseamento da cultura popular tomando como referência os valores bregas que haviam "marcado" os subúrbios e as zonas rurais durante a ditadura militar.

O brega-popularesco cresceu tanto, seja em poder midiático, poder mercadológico e poder político, que teve dinheiro suficiente para "alugar" uma intelectualidade que apoiasse seus ídolos, assim que esses se desgastassem. Ou seja, no exato momento em que a geração brega surgida até os anos 90 estava se desgastando, a intelectualidade veio com a sua choradeira para convencer a opinião pública.

E isso fez prolongar o que deveria ter acabado. Cobrou demais dos ídolos neo-bregas uma produtividade que não tinham. Resultado: enquanto eles vendiam a falsa imagem de "artistas contemporâneos", faziam um revival não-assumido de seus antigos sucessos e se autopromoviam com sucessivos DVDs ao vivo e covers de MPB para disfarçar a fragilidade artística autoral.

Todos eles acabavam fazendo discos medíocres, forçadamente sofisticados, apoiados por uma intelectualidade e por um exército de "troleiros" que os defendiam na marra nos vários cenários discursivos possíveis. Isso fez acostumar mal a juventude brasileira, que pensa que a MPB autêntica nada diz para elas.

Pelo contrário, o que nada diz para elas é o que se foi produzido de "pagode romântico", "sertanejo", "funk", "forró eletrônico" e axé-music, além de outras expressões do brega-popularesco (do brega original a ritmos recentes como arrocha e tchê music) dos anos 60 até hoje. Mas a própria juventude ficou viciada por esses ritmos devido à campanha maciça da velha grande mídia.

O PRECONCEITO CONTRA A MPB

Portanto, o brega-popularesco está muito bem valorizado pela mídia. Nunca teve o menor preconceito. Se é para apontar algum preconceito, ele está justamente naqueles que gostam desse tipo de música, ou pelo menos aceita-o de alguma forma.

Afinal, o preconceito não está naqueles que detestam o brega-popularesco. Quem não gosta é porque conheceu a fundo esse tipo de música. Eu mesmo já ouvi, pela força de vizinhanças ou de quem ouvisse brega e derivados nas ruas ou estabelecimentos diversos, tudo de brega-popularesco possível. E, se ele está em todo lugar e faz sucesso, não pode ser considerado "vítima de preconceito".

Até mesmo as multinacionais e mesmo a agência norte-americana CIA - queiram ou não queiram os intelectuais que tentam ridicularizar esse fato - apoiam abertamente o brega-popularesco, que alimenta um mercado milionário demais para ser considerado "expressão das periferias". Não é o brega-popularesco e sua Música de Cabresto Brasileira que ficou periférico. Periférica ficou a MPB autêntica, a dita "elitista".

A intelectualidade dominante até usou os erros cometidos pela ex-ministra da Cultura, a cantora Ana de Hollanda (irmã de Chico Buarque) como símbolo da decadência da MPB, atraindo a fúria acadêmica de cientistas sociais e críticos musicais para os quais tudo o que fosse sofisticado na MPB autêntica era "abominável".

Já li os artigos de gente "endeusada" como Paulo César Araújo, Pedro Alexandre Sanches, e a dupla baiana Milton Moura e Roberto Albergaria (os vi pessoalmente na UFBA) e fiquei horrorizado. Araújo e Sanches escrevem verdadeiras "urubologias" enquanto Moura e Albergaria apelam para o mais abjeto cafajestismo discursivo, tudo protegido por uma aura de visibilidade e (nada merecido) prestígio acadêmico.

Eles tentam se desvincular do poder midiático, mas se alimentam ao redor dele. E graças a suas pregações, o que se viu não foi uma ruptura de preconceito em relação ao que o mercado entende hoje como "cultura popular", mas o agravamento de um preconceito em relação à cultura brasileira de qualidade.

Esse preconceito só era rompido parcialmente por conta da tendenciosa necessidade de usar a MPB autêntica para justificar alguma manobra brega-popularesca ou jogá-la para redutos de vanguarda e sofisticação. Algo como, por exemplo, usar Jackson do Pandeiro e Itamar Assumpção para beneficiar Psirico, Molejo e Leandro Lehart. Ou jogar Sérgio Ricardo no mesmo balaio de Odair José.

Isso também piora o preconceito. Afinal, a usurpação da MPB autêntica para reforçar as apologias ao brega só deixa a MPB num papel secundário, subserviente, pois a cultura de qualidade serve apenas como "escudo" para a mediocridade cultural apostar em algum oportunismo futuro. E isso nada contribuiu para a valorização da cultura brasileira, antes a desvalorizasse cada vez mais.

O brega-popularesco possui espaços demais, é tocado pela maioria das emissoras de rádio, e, no entanto, graças a sua pose hipócrita e oportunista de "vítima de preconceito", conquistou mercados que não eram seus, invadindo redutos que deveriam ser da MPB autêntica, como universidades, públicos de classe média etc. Da hegemonia, se caminha para o quase monopólio.

E tudo isso é culpa dos intelectuais dominantes, atrelados - queiram ou não queiram - ao poder midiático do qual fingem não estarem associados. Mas eles se afinam com os interesses dos barões da grande mídia, fazem coro à "urubologia" jornalística em muitos momentos, e preferem que a cultura brasileira decaia e dê lugar ao hit-parade mais mercantil.

Com todo seu neoliberalismo abertamente expresso, intelectualidade etnocêntrica e barões da mídia ainda gracejam quando se fala que a CIA quer destruir a MPB. Um gracejo que, em vez de desmentir, acaba confessando, pelo seu cinismo insólito.

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