quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

ESTADÃO E A CHORADEIRA INTELECTUAL

FOTO DO SÍTIO DA REVISTA TRIP SOBRE O ANTROPÓLOGO HERMANO VIANNA.

Por Alexandre Figueiredo

Continua refletindo a denúncia do jornalista Mino Carta, na revista Carta Capital, sobre a imbecilização cultural brasileira, e evidentemente a mídia mais reacionária não poderia deixar de esboçar sua reação, usando como pano de fundo uma entrevista com o antropólogo Hermano Vianna, publicada no jornal O Estado de São Paulo no último dia 11.

Hermano Vianna é uma espécie de Marcelo Tas da etnografia cultural brasileira, sendo doutor em Antropologia pela UFRJ, além de irmão do músico Herbert Vianna, dos Paralamas do Sucesso. Hermano está para o brega mais moderno assim como Paulo César Araújo está para o brega mais antigo, mas praticamente os dois defendem as mesmas ideias em torno da "cultura de massa" brasileira.

O pano de fundo conservador de Hermano Vianna está pelo fato dele ser colunista do jornal O Globo, consultor do programa Esquenta! da Rede Globo e pelo fato dos seus pontos de vista serem respaldados por quase toda a grande mídia, pelo menos a Folha de São Paulo e alguns veículos mais flexíveis do Grupo Abril, como Caras e Contigo.

Além disso, Hermano é um dos poucos intelectuais do brega-popularesco que assumem seu vínculo com a velha grande mídia de forma direta, ao lado de Ronaldo Lemos, sendo ambos também assumidamente patrocinados por entidades estrangeiras como a Fundação Ford (Hermano e Ronaldo) e George Soros (apenas Ronaldo).

Na entrevista feita pelo Estadão, intitulada "O abacaxi da cultura", evidentemente Hermano tenta desmentir o que o jornal chorosamente chama de "suposto empobrecimento geral das manifestações artísticas no País", numa alusão sutil à denúncia feita por Mino Carta sobre a imbecilização cultural. O jornal usa as opiniões de Hermano para tentar desmentir uma realidade que está a olhos vistos.

CONCORDÂNCIA COM FERNANDO HENRIQUE CARDOSO

Na entrevista, Hermano Vianna concorda com Fernando Henrique Cardoso, o ex-presidente e um dos principais membros do PSDB, sobre um artigo que ele publicou (no Estadão e em O Globo) a respeito da imprecisão teórica da "nova classe média" e tentando afastar os aspectos político-ideológicos da análise do "cacique" tucano:

"Falou mais como sociólogo do que como ex-presidente ou político da oposição. (...) Quando dizemos "nova classe média" estamos pensando num grupo extremamente heterogêneo em termos de estilos de vida e visões de mundo. Há de tudo nela: pastores de igrejas evangélicas, DJs de tecnobrega, militantes de coletivos periféricos, donos de lan houses, etc. O rótulo impreciso tenta dar conta de uma grande transformação da sociedade brasileira, ainda não analisada devidamente", disse.

As ligações com FHC são notórias. Afinal, Hermano foi orientado, na sua pós-graduação, pelo antropólogo Gilberto Velho, por sua vez ligado a também antropóloga Ruth Cardoso e, portanto, vinculado às raízes intelectuais de Fernando Henrique. Com essa formação, Hermano tem vínculos rigorosos com as teses de FHC sobre a Teoria da Dependência aplicadas à antropologia e à cultura popular.

Ao longo do texto, Hermano tenta também definir a "revolução das novas classes médias" usando princípios ligados ao "negócio aberto" de George Soros, numa suposta relação entre as novas tecnologias, o novo mercado e os movimentos sociais, em que Hermano superestima a crise da indústria fonográfica e da grande mídia, achando que tudo agora é "uma revolução cultural das periferias".

"O modelo de negócios da "indústria cultural", que funciona na base do broadcast, poucos-para-muitos, ainda não conseguiu se adaptar ao mundo das redes, muitos-para-muitos. Por exemplo, o mundo das gravadoras de discos, que comandava o mercado mundial de música popular, praticamente desmoronou. Milhares de pequenos estúdios surgiram em todas as periferias. Seus produtos são distribuídos via internet e fazem sucesso sem precisar de rádio, imprensa, TV. (...) Descrevi a grande mídia como um disco voador, sobrevoando o País, sem conexão com o mundo "de baixo". De lá para cá, nada mudou tanto assim: apenas o barulho de fora (Ai se eu te Pego), amplificado por milhões de alto-falantes de som automotivo ou de celulares ligados em redes sociais, já penetra a fuselagem da nave, incomodando seus finos tripulantes", disse.

Hermano, no entanto, ignora que as relações da "indústria cultural" estão se rearticulando, sobretudo com a reorganização dos impérios fonográficos - no momento, a gravadora EMI, que tinha os Paralamas do Sucesso como contratados brasileiros, está falida e com o espólio fragmentado para venda para outras gravadoras -  , além de ser duvidoso atribuir o mercado regional de "música popular" como necessariamente de "pequenas mídias alternativas".

Também é muito estranho Hermano falar em crise na grande mídia sendo ele mesmo um colaborador dessa grande mídia, de seus interesses corporativos e escreve nessa mesma mídia. Chega a ser patético Hermano falar na grande mídia que a grande mídia está em crise, dentro desse contexto mais óbvio. É como alguém falar, sorrindo num jantar na "casa grande", que os senhores de engenho estão condenados à falência.

Hermano ainda acredita, fantasiosamente, na sua concepção de "riqueza cultural" atribuída às populações pobres. "Políticas de cultura não devem "dar" nada para a população. Isso se parece com promessa velha de político acostumado ao ar condicionado no disco voador: "Vou levar cultura para as favelas". A imagem tradicional era a favela como vazio cultural que devia ser iluminada com arte de fora. Os próprios favelados já deram a resposta: "Qual é, mané, o que não falta aqui é cultura". As políticas de cultura, então, precisam trabalhar junto com o que já acontece em cada lugar".

Hermano erra neste caso, porque ignora que a própria mídia já "deu" muita coisa para a população, criando uma "cultura" que, embora introjetada no cotidiano das periferias, ela foi imposta, colonizada através do poder midiático regional, que para Hermano é sinônimo de nada.

Ele ignora, por exemplo, que muito do sucesso do tecnobrega se deu através do apoio maciço e assumido da famiglia Maiorana, a mesma que mantém seu truculento poder midiático numa Pará pontilhada de conflitos de terras, sem medir escrúpulos para desmoralizar, sob artifícios jurídicos, o trabalho investigativo do jornalista Lúcio Flávio Pinto.

O próprio "funk carioca", menina dos olhos do antropólogo, também se ascendeu por conta do apoio escancarado dos filhos de Roberto Marinho, num claro acordo com os empresários cariocas do "funk", que sempre se mostraram fiéis às Organizações Globo e a outros impérios midiáticos.

DISCURSO EMPURRADO PARA A ESQUERDA - Essa intelectualidade tenta empurrar o discurso para os movimentos progressistas, escondendo as contradições e todo o processo de dominação que existe no brega-popularesco em geral. Tanto Hermano Vianna quanto Paulo César Araújo tentam evitar ataques às esquerdas, embora não possam dizer que estão associados a elas.

Isso se torna claro até porque, depois que se observou ecos de Francis Fukuyama e Fernando Henrique Cardoso nas ideias de Pedro Alexandre Sanches - o aluno aplicado de Otávio Frias Filho que foi "passear" pelas redações esquerdistas (creio que ele agora só está na revista Fórum) - , a intelectualidade que defende a pseudo-cultura "popular" da grande mídia agora tenta se dizer ideologicamente "neutra".

O discurso tentou a todo preço prevalecer nas rodas progressistas da esquerda intelectual, mas não conseguiu explicar por que muitos aspectos do neoliberalismo econômico estavam associados a essa pretensa "cultura popular" baseada na abordagem do "mau gosto artístico-cultural" como suposta bandeira de luta das classes populares.

Em outros casos, o discurso também não conseguiu esclarecer as contradições observadas na falta da produção de conhecimento dos "artistas" em questão, dos baixos valores sociais ligados à pornografia e à criminalidade, da pieguice extrema dos bregas mais românticos, do apoio latifundiário ao "sertanejo", ao "forró eletrônico" e ao tecnobrega e da presença de políticos como donos de rádios FM e até de emissoras comunitárias e serviços de autofalantes.

Essas questões, não resolvidas, resultaram na degradação sócio-cultural que a pregação intelectual de Hermano, Pedro, Paulo e companhia tentaram relativizar como se fossem "novos valores sociais incompreendidos". Mas sem resolver a questão através dessa choradeira intelectual, abriu-se caminho para a volta dos questionamentos acerca da mediocrização cultural em nosso país.

Daí que uma figura como Mino Carta resolveu falar. Elitista? Preconceituoso? Nada disso. Os críticos do brega-popularesco conhecem muito a fundo seus cantores, jornalistas, celebridades, radialistas. O suposto preconceito atribuído a esses questionamentos não passou de publicidade barata travestida de teses científicas e "bom jornalismo", feita pelos verdadeiros preconceituosos que apoiavam toda a breguice.

Novas choradeiras vão aparecer para tentar dizer que a "cultura de massa" brega-popularesca "tem sua inegável riqueza'. Mas a única riqueza que de fato acontece é o crescimento das fortunas dos empresários associados, sejam os barões da mídia, os chefões do entretenimento, seus patrocinadores e até mesmo os intelectuais, jornalistas e celebridades que se engajarem nessa causa.

Mas, felizmente, o país é outro, e se as transformações nas classes médias brasileiras ocorrem, elas sinalizam não para o aperfeiçoamento e amplitude da breguice, mas pela superação dessa breguice, fruto das tensões, contradições e precariedades enfrentadas pelas classes populares dentro de um contexto de política ditatorial, coronelismo regional e domínio quase absoluto do poder midiático de rádios e TVs.

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