quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

"CASA GRANDE" LIMITA SUA AÇÃO DE COMBATE À MÍDIA MACHISTA


Por Alexandre Figueiredo

Os combates à mídia machista, no Brasil, tornaram-se muito restritos, limitados.

De um lado, temos radicais feministas que, nuas da parte de cima, manifestam repúdio à exploração sexual das mulheres nos diversos meios observados na sociedade machista brasileira.

De outro, temos intelectuais de classe média preocupados tão comente com o zelo da imagem feminina nos comerciais e programas de televisão, além do espaço publicitário e no meio jornalístico e humorístico em geral, combatendo a depreciação da imagem da mulher dentro desses limites.

No primeiro caso, o ativismo é louvável, embora um tanto polêmico e bastante radical neste sentido. E, além disso, as atitudes das manifestantes dão uma impressão aos machistas, sempre preparados para reações de esnobismo e orgulho deles mesmos, de que são "feiosas frustradas em não serem desejadas pelos homens". Uma impressão falsa, mas que os machistas tentam trabalhar para que prevaleçam na opinião pública.

Mas o segundo caso é que é grave, porque vem de uma intelectualidade que, de forma não assumida, vislumbra a "casa grande" do poder midiático e mercadológico e, não obstante, participa de seus "banquetes", embora essa intelectualidade faça de tudo para obter reconhecimento e cumplicidade nos movimentos sociais e outros ambientes progressistas.

Evidentemente, preocupar com a exploração da imagem feminina em comerciais de televisão é útil. Reclamar que um comercial de automóvel trata a mulher como uma retardada que mal começou a aprender a dirigir é justo, assim como reclamar de mães tolas perguntando bobagens para seus filhinhos em comerciais de sucos ou de esposas submissas aos maridos engravatados nos comerciais de margarina.

É o mesmo caráter de validade e de justiça que vemos quando as esquerdas médias descrevem a questão do Oriente Médio. O problema não está na citação desses problemas ou no empenho de repudiar os abusos cometidos pelo poder dominante, mas a de adotar uma ênfase que os coloca acima de problemas ainda mais graves que acontecem no nosso país.

Afinal, existem muitas "palestinas" no Brasil, e não é só o homônimo bairro suburbano de Salvador, mas até mesmo as "palestinas" culturais controladas por "israéis" manobrados pelo capitalismo ianque, como o brega-popularesco que nossos intelectuais associados ao poder midiático pensam ser a "cultura das periferias".

Da mesma forma, a questão da imagem distorcida da mulher brasileira tem sua gravidade fora dos comerciais de automóveis, margarinas, produtos de limpeza, serviços de TV por assinatura, os quais até trabalham uma imagem menos cruel da mulher, se observarmos bem.

PSEUDO-FEMINISMO

O pior é quando a mídia machista associada ao pretexto do "popular" investe numa depreciação ainda maior da imagem da mulher. Mas pior ainda é quando a sociedade que reclama da leve depreciação feminina nos comerciais e programas de TV adota uma postura condescendente para esse outro lado, mesmo quando a redução da mulher a um estereótipo sexual grosseiro a coloca como escrava de valores machistas.

Durante um bom tempo essa sociedade, a partir dos intelectuais mais badalados, definiu a exploração mais grotesca da vulgaridade feminina como se fosse "feminismo". Valia qualquer pretexto, por abusrdo que pareça: "liberdade" de iniciação sexual das mulheres da periferia, "direito ao sexo livre", "liberdade de escolha", "liberdade do corpo", "ruptura (?!) com a dominação machista" etc.

Sim, essas pregações eram feitas por sociólogos, antropólogos e jornalistas, não é coisa de internauta troleiro jogando absurdos para provocar as pessoas. A atitude "provocativa" vinha de meios considerados sérios e de caráter científico, como monografias, documentários, reportagens, dentro de uma perspectiva "objetiva" para reforçar a manipulação ideológica de seus pontos de vista.

Através dessa tese, as "popozudas" são "feministas" porque ganham dinheiro com seu "trabalho" e aparentemente vivem sem depender da sombra de algum homem. O grotesco ainda é usado para reforçar a tese de que, por serem "feias e indelicadas", as "popozudas" têm "mais atitude" na sua afirmação como "mulheres bem sucedidas".

A lorota "cientificamente" bem construída deu certo e fez com que a intelectualidade dita "progressista" mas associada à "casa grande" do poder midiático e mercadológico defendesse as baixarias quando expressas nas "senzalas" modernas do espetáculo popularesco.

Só que isso acaba gerando contradições e sérios equívocos. Num artigo sobre o "funk carioca", Bia Abramo, que, apesar de ser filha do eminente jornalista de esquerda Perseu Abramo e sobrinha de Cláudio Abramo, "contaminou-se" com as ideias dos grupos Folha e Abril onde trabalhou, ela preferiu defender a vulgaridade feminina em detrimento dos movimentos sociais.

Isso foi quando, no artigo, Bia condenou a reação das trabalhadoras de Enfermagem, as conhecidas enfermeiras, que moveram um processo judicial contra a "Proibida do Funk", uma "popozuda" que havia feito fotos posando de "enfermeira sexy". Bia chamou as enfermeiras de "moralistas". Repercutiu mal. O artigo, publicado na Fundação Perseu Abramo, teve que ser retirado do ar.

Além disso, quem observar os bastidores das tais "feministas" de corpos siliconados e anabolizados, verá que elas trabalham para um mercado claramente machista, como revistas "sensuais" de segunda categoria, escolas de samba e times de futebol, cujos dirigentes, sejam bicheiros ou "cartolas", são assumidamente associados ao mais ferrenho machismo.

E, não sendo somente isso, as musas "popozudas" também depreciam, à sua maneira, a imagem da mulher brasileira. Elas impõem a obsessão da forma física de forma bem mais cruel que as revistas femininas das editoras mais conservadoras. E, o que é pior, não permitem estimular à mulher das classes populares o mínimo de inteligência possível, do contrário da depreciação light da mídia da "casa grande".

Pelo menos, a mulher expressa nos comerciais de produtos de limpeza e margarinas possui alguma inteligência. A das revistas femininas, essa inteligência é valorizada, embora dentro dos limites do conservadorismo social, de preferência com as mulheres emancipadas socialmente mantendo seus casamentos com homens vinculados a algum cargo de liderança ou comando.

No âmbito popularesco, isso não ocorre, e o que se vê são musas vulgares cometendo gafes imensas, "sensualizando" demais até em aeroportos, dizendo absurdos como "odeio ler livros porque sou formada pela faculdade das ruas" ou "faria amor com um mosquito", com a tranquilidade que as faz pensar que se pode ser polêmico a qualquer custo sem causar problemas na vida.

Por isso, não tem fundamento o apoio de intelectuais a essa vulgaridade, que deprecia a imagem feminina nas classes populares. Afinal, a postura intelectual favorável às "popozudas" torna-se uma expressão cruel da discriminação social contra as classes populares, na medida em que imaginam que o sentido da baixaria só existe nas elites, enquanto no povo essa baixaria é vista como uma coisa "saudável" e "divertida".

Só essa postura faz com que esses intelectuais prestem um sério desserviço à sociedade, a partir dessa postura pseudo-progressista que faz apologia à degradação social como se ela fosse um repertório de "novos valores". Não são. O que ocorre, na verdade, é que essa sociedade manifesta seu claro higienismo social, enquanto reserva todo o lixo cultural para as periferias, mesmo a partir de uma retórica dócil.

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