sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

BREGA-POPULARESCO E A GLAMOURIZAÇÃO DA POBREZA


Por Alexandre Figueiredo

Numa tentativa de voltar às campanhas apologistas de 2002, os defensores da bregalização cultural brasileira, perdendo seu poder de influência nas forças progressistas, tentam de todas as formas reciclar seu discurso, mesmo limitando seu espaço à grande mídia mais conservadora.

Tentam voltar aos mesmos métodos de 2002, promovendo ídolos bem-sucedidos como se fossem "coitadinhos" e "vítimas de preconceito", mesmo já conquistando muitos privilégios na mídia e no mercado. E os intelectuais ainda tentam manter suas convicções como se seu discurso já saturado pudesse convencer a opinião pública tal qual há dez anos atrás.

Depois de Hermano Vianna tentando defender o "funk carioca", que ele acredita ser "uma rica fonte de criatividade popular" (sic), vemos agora um ídolo brega-popularesco falando de seu passado humilde num programa de entrevistas.

Desta vez foi o cantor de "funk melody", MC Naldo, que em entrevista para a jornalista Marília Gabriela disse que, aos nove anos de idade, foi engraxate. Aparentemente, foi apenas um dado na vida do cantor, mas que a mídia explora como se fosse "sinônimo" de genialidade.

A pobreza é apenas uma limitação social, que se carateriza pelo fato da pessoa não ter muito dinheiro para sobreviver com qualidade de vida. Não é garantia de humildade nem de evolução social alguma, ninguém vira herói porque aguentou uns dias passando fome, até porque as reações sobre as condições de pobreza variam de uma pessoa para outra.

MARKETING DA EXCLUSÃO

No entanto, durante muito tempo intelectuais e jornalistas apostavam na origem pobre para promover o chamado "marketing da exclusão", como uma forma de inverter publicitariamente o sucesso conquistado pelo ídolo brega-popularesco, fazendo propaganda de sua origem pobre para "justificar" os muitos discos vendidos, as muitas plateias lotadas e o grande cartaz na grande mídia.

De Waldick Soriano a Tati Quebra-Barraco, passando por Zezé di Camargo & Luciano e Alexandre Pires, por Amado Batista e até por Michael Sullivan (que foi o chefão do brega dos anos 80), a música brega, através da blindagem intelectual, criava pretensos "humildes", justificava o enriquecimento dos mesmos pela origem pobre há muito superada, mas que era resgatada como propaganda para reciclar o sucesso.

Criou-se um maniqueísmo a partir desse mito que glamouriza a pobreza e transforma a palavra "popular" num escudo para a defesa de qualquer mediocridade, de qualquer baixaria. Mas isso, em vez de dar uma imagem mais respeitável aos ídolos brega-popularescos, acaba alimentando sua vaidade e estimulando a apologia da pobreza que impede o progresso social em nosso país.

O QUE É SER POBRE?

O que é ser pobre? É muito suspeita essa exploração ideológica da origem pobre, pois isso acaba resultando na glamourização da pobreza que desmobiliza as classes populares. O "orgulho de ser pobre", a "apologia à miséria" tornam-se fenômenos que acabam mais prejudicando do que beneficiando as classes populares, nessa suposta campanha midiática de supostamente fortalecer a autoestima do povo pobre.

Ser pobre é uma condição que varia não só entre as pessoas, como em várias fases da vida. Torna-se rico ou pobre conforme as circunstâncias, e nessa constante rotatividade social da humanidade, não há como definir a "pobreza" como uma ideologia positiva, como se fosse uma "causa nobre" ter sido pobre um dia.

Afinal, na "elitista" MPB, vemos mais gente simples do que no "humilde" brega-popularesco que não para de fazer novos ricos. Os "humildes" Zezé di Camargo & Luciano, já no auge do sucesso mas se passando por uma dupla de "coitadinhos", enganando esquerdistas e intelectuais em geral, eram em 2005 muito mais ricos do que muita gente "rica" da Bossa Nova.

Aliás, Tom Jobim que, apesar de ser brasileiro até no sobrenome, era acusado por certos intelectuais de ser "americano", era pobre quando foi tocar piano num bar da Zona Sul do Rio de Janeiro, por conta de uns trocados. Mas o eminente compositor, nascido na Tijuca, nunca foi exatamente rico, e além disso deixou de receber muito dinheiro de direitos autorais por conta de um picareta norte-americano que fez letras em inglês das músicas de Jobim.

Muito antes de MC Naldo, viveu-se os tempos em que engraxate era uma figura como o eminente intelectual Florestan Fernandes, pai do jornalista Florentan Fernandes Jr.. Milton Nascimento teve origem pobre e, mesmo adotado por uma família abastada, ainda assim passou fome no começo da carreira musical, e nem fez publicidade desse sofrimento.

Clarice Lispector e Graciliano Ramos viviam de pensão em plena penúria. O cantor da pré-Bossa Nova Lúcio Alves, muito popular em seu tempo, morreu pobre e doente. Cândido Portinari era muito pobre na infância e andava descalço. E mesmo o maestro erudito Heitor Villa-Lobos morreu com sérios problemas financeiros, dependendo da ajuda de amigos para tratar sua saúde.

Por outro lado, os "humildes" Chitãozinho & Xororó são latifundiários. Bell Marques é empresário e também latifundiário. DJ Marlboro é um poderoso empresário do "funk carioca". Michael Sullivan era um poderoso e rico produtor ligado à RCA brasileira e à Rede Globo. As dançarinas do É O Tchan são quase todas de classe média. Os "paupérrimos" empresários do entretenimento brega são na verdade milionários.

Além disso, essa pose de pretensos "coitadinhos" dos ídolos das diversas tendências da música brega soa, além de uma presunção às avessas, uma forma desses ídolos se passarem por "pedintes culturais" para conquistar novas reservas de mercado ligadas a públicos de maior poder aquisitivo, mas, pelo jeito, sem necessariamente ter uma melhor formação cultural.

Mas não vamos nos divagar dessas questões. O que se sabe é que nomes como MC Naldo, assim como Alexandre Pires, Zezé di Camargo, Márcio Victor (Psirico), Odair José, DJ Marlboro, Michel Teló e outros fazem muita publicidade de suas origens pobres, coisa que o mestre Milton Nascimento nunca fez, ele que se mantém realmente humilde e simples na sua brilhante carreira artística.

Por isso, a alegação de que o brega-popularesco é "música de pobre", numa abordagem carregada de positivismo da intelectualidade associada, não deu certo. Não promoveu grandes artistas por isso, até porque o trabalho deles é de qualidade duvidosa e até ruim, o que tira o mérito de qualquer choradeira por algum espaço a mais na mídia.

Até porque espaço os ídolos bregas em geral têm de sobra na grande mídia. Eles têm espaços demais para perderem o tempo posando de "coitados" a troco dos mesmos espaços da MPB autêntica. Aliás, é a própria MPB autêntica que, vítima de verdadeiro preconceito, é que perde seus próprios espaços, sendo proibida até de ser apreciada pelo público universitário.

A MPB autêntica sofre isso e mesmo assim nomes como Milton Nascimento e Chico Buarque não ficam se passando por "coitadinhos" para reclamar algum espaço a mais na mídia. E eles é que merecem mais espaço, em virtude de sua arte de altíssimo conceito, que não depende de questões de pobreza ou riqueza para ter valor. Afinal, seu valor é cultural, e não econômico.

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