segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

AS ILUSÕES E DESILUSÕES INTELECTUAIS


Por Alexandre Figueiredo

A mediocridade cultural cria, em parte da sociedade brasileira, uma utopia um tanto torta e míope, uma esperança de que a mediocridade venha a se tornar "genial" e "digna" com o tempo, bastando o respaldo financeiro e o ensinamento de macetes a sub-artistas e sub-celebridades que buscam manter a fama a qualquer custo.

Como havíamos escrevendo em outra oportunidade, a intelectualidade dominante do passado tinha uma outra utopia, que era acreditar que o apoio da burguesia nacional às esquerdas brasileiras iria garantir a democracia e até o socialismo.

Só que a História mostrou que não foi assim. A burguesia nacional estava ao lado do capitalismo imperialista, do coronelismo político e do direitismo partidário e midiático, e apoiou com gosto a ditadura militar. Mas, desiludida, boa parte da esquerda ilustrada de 1963-1964 - Ferreira Gullar, Arnaldo Jabor, José Serra, Paulo Francis, Danuza Leão - hoje está no mesmo plano ideológico da direita golpista de então.

E hoje? A intelectualidade dominante dita "de esquerda", que envolve tanto analistas esquerdistas frágeis e direitistas enrustidos que dissimulam sua formação neoliberal com uma aparente "simpatia pelo popular", acredita, há cerca de dez, quinze anos, na aliança das esquerdas com o mercado e a "cultura de massa" como etapa necessária para a construção do socialismo.

Grande ilusão. Se, naqueles tempos de 1963 e 1964, a burguesia nacional que muitos acreditavam querer financiar a revolução social brasileira, estava muito bem envolvida com o IPES (o Instituto Millenium da época) e com as vozes do golpismo, hoje a chamada "cultura de massa" e seu mercado associado ao pretexto do "popular" está muito bem associado aos barões da grande mídia.

CRENÇA NA "MELHORIA" DA MEDIOCRIDADE CULTURAL COM O TEMPO

São ilusões que resultam em desilusões. Afinal, o protecionismo à mediocridade comercialmente bem sucedida de cantores bregas, neo-bregas e pós-bregas, musas "popozudas", jornalismo policialesco e outras "expressões populares" da grande mídia era feito por uma elite "ilustrada" de intelectuais, artistas e celebridades que apostavam suas fichas pelo "aprimoramento" da mediocridade com o tempo.

As apostas eram surreais. Acreditava-se que a vulgaridade feminina "popular" era "livre" dos pecados que se observa na mídia machista "de elite", aquela que mostra modelos de grife fazendo papel de mulheres-objetos ou que veicula comerciais de automóvel dizendo que mulher não sabe dirigir.

Dessa maneira, houve casos de intelectuais - inclusive mulheres - que tentaram nos fazer crer que as musas vulgares, que expressavam o grotesco como meros objetos sexuais midiáticos, eram "feministas" apenas porque gostavam de sexo e odiavam os homens, além de serem aparentemente celibatárias. Mas isso em nenhum momento escondeu o sentido machista do erotismo forçado de "boazudas" e "popozudas" atuais.

Aposta-se também em ídolos musicais ligados ao brega como se eles fossem a futura genialidade "incompreendida" da MPB. Virou um marketing ostensivo e até presunçoso. A mídia tentou trabalhar os ídolos bregas (de Waldick Soriano a Tati Quebra-Barraco) como "coitadinhos" e o que se viu foram os ídolos popularescos de mau humor atacando a MPB e pedindo mais espaço para eles na mídia.

De pouco adiantou criar histórias "humildes", verdadeiros dramalhões travestidos de toda forma, até de documentários e monografias, porque tudo isso acabou se tornando uma ostentação às avessas, uma publicidade invertida que usa a origem humilde apenas para alimentar as vaidades pessoais dos ídolos brega-popularescos e criar mais mercado para eles.

Ou seja, cria-se um dramalhão para justificar a mediocridade cultural dominante. Seja para manter o sucesso dos ídolos atuais, seja para resgatar ídolos antigos, tudo para alimentar o mercadão e a mídia, mesmo da forma mais enrustida possível, pois chegou-se a falar em "morte do mercado" e "agonia da mídia" para dizer que esse mainstream popularesco era uma "cultura independente e alternativa".

Grande engano. A mesma intelectualidade que falava mal de qualquer "idealização da cultura popular" contribuiu para a cosmética da música brega, fantasiando os ídolos radiofônicos de 1989 até agora numa pseudo-MPB de roupas de gala, com ênfase nos covers e duetos relacionados à MPB autêntica para dissimular um repertório autoral constrangedor numa simples execução em um toca-CD ou toca-DVD.

Ou seja, os mesmos cientistas sociais e críticos culturais que achavam ridículo pensar no povo pobre curtindo a "MPB de elite" aplaudiam quando ídolos do "sertanejo" e do "pagode romântico" eram maquiados como a pseudo-MPB da grande mídia e ovacionavam quando funqueiros e antigos ídolos bregas faziam dueto com artistas pós-tropicalistas.

FALTA DE DOM NATURAL PARA A COISA

Ou seja, a intelectualidade queria transformar ídolos medíocres em "grandes criadores", mas eles não tinham o dom natural da coisa. Em muitos aspectos, ídolos com 20 anos de carreira mais pareciam calouros de reality show gravando tanto cover de MPB. E os artifícios eram tantos que os cantores envolvidos eram na verdade diminuídos porque o mérito natural era de arranjadores, maquiadores, produtores etc.

Isso não impediu que um Alexandre Pires, que parecia fazer o "dever de aula" cantando músicas de Lupicínio Rodrigues no Som Brasil da Rede Globo, com outros músicos e outros arranjadores conduzindo o trabalho, voltasse à péssima lavra autoral através da escandalosa música "Kong" e das canções bregas que estavam dentro do disco Eletrosamba, mesmo com a capa sugerindo, falsamente, um CD de sambalanço.

Recentemente, cantores breganejos como Daniel e Victor & Léo andavam "criticando" o "sertanejo universitário", dando a crer que estavam fora da mediocridade expressa por centenas de duplas e cantores surgidos. No entanto, eles também fazem parte desse cenário, sendo apenas beneficiados por uma cosmética e uma publicidade que os faz parecerem "geniais" dentro de tanto lixo.

Mas até mesmo fora da música a mediocridade tentava ser genial. As "boazudas" chegaram a fazer sessões "sensuais" fantasiadas de Betty Boop, de fada Sininho, de Marilyn Monroe, como se quisessem mostrar algum "diferencial". Mesmo muitas "mulheres-frutas" entravam nessa onda, como se "não" fossem vulgares, mas acabam profanando a imagem de outras mulheres, reais ou fictícias, que se celebrizaram na História.

E o que dizer de Ratinho querendo ser um apresentador de TV "cult"? E o que dizer da imprensa "popular" indecisa entre ser reconhecida como "investigativa" ou "humorística" conforme as circunstâncias? E a própria imagem caricata do povo pobre, transmitida pelas emissoras de TV, que causa deleite da intelectualidade paternalista enrustida, que jura que aquele é "o verdadeiro povo"?

Quanto à utopia de que o brega-popularesco melhoraria com mais dinheiro, um bom exemplo do fracasso dessa tese é a mensagem de um DJ de "funk carioca" que, furiosamente, dizia que era só melhorar a sociedade que o "funk" melhorava. Só que esse discurso existe há dez anos e nunca os riquíssimos DJs e empresários de "funk" se interessaram em ajudar na melhoria social, educacional e cultural do povo pobre.

Essa utopia em relativizar a degradação sócio-cultural, a pretexto de que ela melhoraria com mais dinheiro e apoio paternalista da sociedade "esclarecida", não resolveu qualquer problema a respeito. Afinal, o sucesso financeiro não garante, por si só, uma melhoria sócio-cultural.

Daí a frustração que ocorre nos bastidores da intelectualidade. Eles não conseguiram melhorar a degradação sócio-cultural do país, porque não é possível fazer do problema uma solução. A palavra "popular" não é pretexto para permitir a queda sócio-cultural das classes populares, acreditando que são "outros valores" que "não entendemos".

Se muitos intelectuais não entendem como problema essa degradação sócio-cultural, então é sinal que eles não estão sendo sábios, mas irresponsavelmente ignorantes.

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