domingo, 24 de fevereiro de 2013

A SUB-CRIATIVIDADE NA MÚSICA BRASILEIRA


Por Alexandre Figueiredo

Os ideólogos da "cultura popular" que predominavam no mainstream intelectual brasileiro tinham, entre muitas teses, uma que, embora pareça bastante generosa em relação às classes populares, tem uma postura não só conivente mas estimulante à mediocrização sócio-cultural que atinge o apogeu no nosso país.

Essa tese se baseia na hipótese, um tanto utópica, de que as classes populares hoje se encontram num "outro contexto" de criatividade, atribuído supostamente à "recriação". Ou seja, as classes populares agora passam a ser "recriativas" e seu conceito de "criatividade" reside nisso.

Com todo o sofisticado repertório ideológico que possui para persuadir a opinião pública, a intelectualidade etnocêntrica de nosso país, tenta argumentar da "melhor maneira" para que sua visão elitista sobre o que deve ser a criatividade popular pareça "pertinente".

Geralmente eles usam como "justificativas" as artes de vanguarda mais recentes, que se baseiam em técnicas de colegam e sampleagem ou da reciclagem de expressões criativas conhecidas. Do movimento pop art nas artes plásticas ao hip hop lançado nos EUA, a intelectualidade tenta superestimar essas tendências para reforçar sua tese sobre a "recriatividade popular".

RECRIATIVIDADE OU SUB-CRIATIVIDADE?

Esse ponto de vista, embora pareça bastante generoso e correto, esconde preconceitos nos quais a elite intelectual que domina o país e estabelece sua hegemonia de visibilidade em palestras e até mesmo com a ajuda da grande mídia (da qual os intelectuais associados recusam a assumir seu vínculo) expressa contra o povo pobre.

Que na arte não existe expressão absolutamente inédita, isso é verdade. Mas dá para perceber sempre diferenciais criativos peculiares em determinados artistas, que, se nada fazem de absolutamente inédito, possuem um valor de novidade pela expressão e pelo estado de espírito de sua produção. Ou seja, eles tornam-se "inéditos" pela sua criação cujo frescor e força não possuem similaridade em outros.

Só para citar um exemplo bastante óbvio: Chico Buarque. Sua música remete a elementos criativos que se vê em Tom Jobim, Vinícius de Moraes e João Gilberto. Ou em Denis Brean, Dick Farney e Braguinha. Ou em Carlos Drumond de Andrade e Heitor Villa-Lobos. No entanto, Chico trabalhou esses elementos com uma personalidade própria, cuja arte se sobressai pelo frescor e força próprios.

Isso não é o mesmo que se atribui ao brega-popularesco, quando pessoas surgidas nas classes populares, mas a serviço do "deus" mercado, pegam elementos estrangeiros difundidos pelo rádio e TV e "recriam" em produtos (no sentido econômico do termo) considerados "de linguagem própria", pelo simples fato formal de que são cantados em português por pessoas residentes no Brasil.

É até uma forma cínica de um paternalismo elitista tentar usar o hip hop, por exemplo, para "justificar" o "funk carioca". Ou então partir para a necrofilia e tirar, tendenciosamente, o escritor modernista Oswald de Andrade do esquecimento, que a memória curta lhe condenou, só para reforçar a retórica de defesa das tendências bregas dos últimos 45 anos.

Nestes casos, não há "antropofagia". Afinal, a "recriação", quando verdadeiramente re-criativa, significa que elementos "de fora" ou previamente criados são usados para somarem-se à nova expressão criativa. Por exemplo, de repente um rapper do ABC paulista se acha por bem samplear "Peace Frog" dos Doors. Vamos dar um nome hipotético para ele: Sandro Navalho.

Suponhamos que, através do sâmpler de "Peace Frog", com o conhecido acorde de órgão de Ray Manzarek, é "montado" para servir de fundo para o rap de Sandro Navalho, que com sua letra falada e rimada ele batiza com o título de "Sapo da Paz", com o refrão que diz "Sou o sapo da paz / Que fala na periferia / O que o povo entende / E o governo nem sabia".

Pelos malabarismos vocais de Sandro Navalho, sua velocidade de dicção e suas entonações, enquanto o disc-jóquei joga uma base pré-gravada da introdução instrumental de "Peace Frog", repetida para "ambientar" o vocal, com eventuais manobras de scratch - o manejo manual de uma vitrola em movimento - e o resultado, de fato, torna-se criativo não pelo ato em si, mas pela habilidade com que rapper e DJ o fazem.

Não é o mesmo do que um ídolo brega-popularesco pegar uma canção estrangeira do rádio e fazer versão em português. Nem tudo que parece "recriativo" é realmente criativo. Daí a sub-criatividade que ocorre quando não há a criatividade na apropriação, direta ou indireta, de algum elemento artístico já feito.

SOMAS E SUBTRAÇÕES

Na apropriação de elementos artísticos prévios, a criatividade só ocorre quando essa apropriação é feita para somar-se à expressão artística. No caso fictício de Sandro Navalho, a música dos Doors somou-se à criação dele, causando um resultado próprio, que faz um diferencial na expressão artística.

Esse é também o caso da antropofagia de Oswald de Andrade, quando o elemento estrangeiro é assimilado para enriquecer uma expressão local. Ele mesmo propunha cautela para que o elemento estrangeiro não se sobrepusesse às expressões locais, e que estas também precisam ter sua força sócio-cultural mantida.

O brega-popularesco, seja o brega original de Waldick Soriano e Odair José, seja o "funk carioca", seja o tecnobrega, axé-music, "sertanejo" e todas as demais tendências, nem de longe pode ser considerado "antropofágico", até porque, neste caso, não existe soma de expressões culturais, mas uma subtração, já que o que vemos são músicas "não muito estrangeiras, mas também nem tão brasileiras assim".

Afinal, o brega-popularesco se dá pela assimilação submissa de elementos estrangeiros trazidos pelo poder midiático de rádio e TVs locais, controlados por oligarquias. Isso enfraquece as expressões locais, que viram um subproduto da "educação" feita pelo poder midiático regional. E tudo se dá em função desses "ventos" midiáticos, por mais que os "artistas" envolvidos formem carreira por decisão própria.

Os aspectos locais são enfraquecidos pela baixa consciência social, sobretudo consequência da escolaridade precária e pela baixa autoestima regional. Os aspectos estrangeiros são assimilados de forma deslumbrada, mas dentro do contexto de colonização cultural, onde o elemento estrangeiro não é assimilado por vontade da própria pessoa, mas é o que aparece como "mundo ideal" através do rádio e TV.

Mesmo assim, essa assimilação das culturas estrangeiras nem em si é forte. Ela é tão debilitada quanto a consciência de localidade, uma vez que não são as culturas estrangeiras fielmente representadas pela transmissão via rádio e TV regionais, mas uma leitura "provinciana" dessas culturas. Ou seja, elas mesmas são deturpadas e chegam ao público local de forma estereotipada e bastante distorcida.

Ou seja, o brega-popularesco é duplamente fraco: fraco como expressão de alguma indentidade nacional ou regional, fraco como expressão de uma possível universalidade cultural. Não consegue ver o local e o global de forma plenas, mas sempre de maneira submissa e precária, por mais que tendenciosamente sinalize alguns "progressos", como a pseudo-sofisticação da "MPB de mentirinha" de bregas "arrumadinhos".

Portanto, brega-popularesco é sub-criatividade. E, como tal, não representa acréscimo algum na cultura brasileira, só prevalecendo no gosto popular sob o apoio ferrenho do poder midiático. E essa sub-criatividade não pode ser confundida com "re-criação", porque a verdadeira recriação, com toda a apropriação com o previamente já feito, soma sempre alguma coisa a ele.

O brega-popularesco, não. Ele subtrai, na medida em que nele as noções de local e global são muito precárias e tendenciosas, sem representar a espontaneidade necessária para a evolução artística que esperaríamos de uma cultura popular.

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