quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

A INTELECTUALIDADE ETNOCÊNTRICA ESTÁ EM PÂNICO


Por Alexandre Figueiredo

Depois que Mino Carta abriu a Caixa de Pandora da crítica cultural brasileira, a intelectualidade dominante está em polvorosa. Em pânico, os intelectuais que detinham o monopólio da visibilidade e do prestígio, defendendo uma cultura de qualidade duvidosa por seus claros objetivos comerciais, tidos como "expressão genuína da vontade popular", tentam manter suas reputações ou neutralizar a crise com outros meios.

Desde que o jornalista da Carta Capital descreveu a imbecilização cultural do Brasil, com sua experiência de brasileiro naturalizado, de origem italiana mas bem afinado e consciente dos problemas do nosso país, voltou-se o debate cultural há muito amordecido por conta de uma intelectualidade tida como "sem preconceitos", mas dotada dos piores preconceitos contra a mesma cultura popular que dizem defender.

E esse debate, que não teme derrubar mitos e totens tidos como "sagrados" pela intelectualidade mais influente, que não teme contestar os grandes sucessos da chamada "cultura de massa" brasileira e também não tem medo de questionar o suposto "gosto popular" do momento, gerou até mesmo frases bastante coerentes a respeito de tais problemas.

"O modo pervasivo como a mídia corporativa ajuda a plasmar um mercado cultural pasteurizado, pouco inovador e ideologicamente conformado parece-me, pelas razões acima elencadas, um dado a corroborar a opinião de Mino Carta sobre o papel imbecilizante da mídia. Que a percepção sobre tal fato seja explicitada após uma década de governos ditos de centro-esquerda é algo paradoxal, a evidenciar a persistência de mais um aspecto retrógrado no que deveria ser um governo progressista. E não se pode isentar os governos Lula e Dilma de sua parcela de responsabilidade pela situação, dada a resistência de ambos em regularem a mídia e fazer as TVs - que são concessões públicas - cumprimem funções educacionais, como a Constituição determina.", disse Maurício Caleiro, no blogue Cinema e Outras Artes. 

Por sua vez, Pedro Pomar, mesmo se referindo a Nelson Motta, fez um comentário que serve para toda a intelectualidade etnocêntrica que controla os processos acadêmicos e os debates intelectuais de grande porte no Brasil:

"A hegemonia do “pensamento Globo” é tão forte que arrasta para o seu campo uma série de intelectuais progressistas (ou que supúnhamos que o fossem) que mantêm vínculos simbólicos ou materiais com o principal grupo de mídia do país", escreveu Pomar, em texto reproduzido em vários blogues progressistas, como o Escrevinhador de Rodrigo Vianna e Blog do Miro de Altamiro Borges.

Com tantos comentários assim, que se espalham feito epidemia e vão para as rodas de discussões nas cantinas universitárias, vão para os debates nas salas de aula, nos sindicatos e chegam mesmo às eventuais perguntas que certos provocadores fazem para os intelectuais badalados do país, estes astros do status quo acadêmico começam a tremer, temendo o fim de seu poder formador de opinião.

"DESIDEOLOGIZAÇÃO" DA CULTURA

A blindagem envolve até mesmo uma tentativa, um tanto contraditória, de "desideologização" da cultura, na tentativa de voltar à visão de que a cultura brasileira é um brinquedinho que vive protegido numa bolha de plástico imune a qualquer politicagem.

A visão é contraditória porque, num momento ou em outro, despolitização e politização deixam de ser palavras antagônicas para serem encaixadas conforme a conveniência das circunstâncias. O historiador Paulo César Araújo, no prefácio de seu livro Eu Não Sou Cachorro Não, disse que os ídolos da música brega eram "despoltiizados", mas ao longo do livro insistiu em trabalhar na tese contrária da "canção de protesto".

O antropólogo Hermano Vianna, por sua vez, tenta definir a "politização das periferias" como um processo ao mesmo tempo "politizado" e "sem ideologias": "E há também uma politização geral nesse interior que não é só de esquerda, e quase sempre não tem lugar definido no espectro ideológico tradicional. Ela é alternativa à vida político-partidária, parte do "disco voador", e produziu importantes organizações como a Cufa (Central Única de Favelas) e o AfroReggae. O pop periférico e a politização cultural periférica - que não mantêm relações harmoniosas entre si - são as principais novidades culturais brasileiras das duas últimas décadas."

Tenta-se encaixar o discurso tanto dentro dos salões da grande mídia e da sociedade de elite - que Hermano define como o "disco voador" - quanto nos movimentos sociais, ignorando que os motivos que se encontram por trás disso são bastante mercadológicos, dentro de uma lógica neoliberal aplicada à cultura popular.

E mais. Tenta-se reciclar um discurso que, em si, é bastante confuso, dentro das mais diversas vozes que na prática falam a mesma coisa, seja o paranaense Pedro Alexandre Sanches em São Paulo, seja Eugênio Arantes Raggi em Belo Horizonte, seja Milton Moura em Salvador, seja Paulo César e Hermano, nordestinos, no Rio de Janeiro, também "palco" das pregações de MC Leonardo, que compartilha dos mesmos sonhos da revista Veja de ver a esquerda brasileira submissa e estéril.

Eles tentam enxertar a ideologia brega-popularesca dentro do caldeirão cultural brasileiro. Se ao menos eles assumissem algum vínculo com a ideologia neoliberal, seria válido considerar suas abordagens para o debate da problemática cultural brasileira. Mas eles se autoproclamam "progressistas", mesmo mostrando vários pontos de vista bastante conservadores e até surreais.

Tidos como "sem preconceitos", eles são preconceituosos, na medida em que entendem a cultura popular não como um processo de relação social das comunidades, mas como um processo em que o poder midiático define o gosto popular que é "legitimado" por um discurso pseudo-etnográfico por esses intelectuais.

E isso é que faz eles ficarem condescendentes com a imbecilização cultural criticada por Mino Carta, embora não reconheçam essa imbecilização como tal. Para eles, pouco importa se os "artistas populares" e as "personalidades populares" de hoje são medíocres e incompetentes.

Pouco lhes importa que a burrice esteja por trás dessa pseudo-cultura. "É o que o povo sabe fazer", disse certa vez a professora da UFBA, Malu Fontes, sobre a mediocridade cultural do arrocha, ritmo pós-brega baiano.

ACEITAÇÃO CEGA

Se não temos mais Milton Santos, Jackson do Pandeiro e Dolores Duran, mas integrantes do Big Brother Brasil, cantores brega-popularescos e musas "popozudas", esses intelectuais tentam relativizar dizendo que são "outros tempos". Chamam a burrice desses nomes de "inteligência" e atribuem nosso questionamento a tudo isso a uma suposta "ignorância" e "incompreensão".

Nada mais elitista, nada mais preconceituoso. Não podemos contestar, que é um processo natural da verdadeira ruptura do preconceito. "Romper o preconceito" acaba sendo visto, erroneamente, como "aceitação", mesmo sem qualquer tipo de verificação. Daí a improcedência de haver uma "ruptura de preconceitos" baseada numa aceitação cega, que é muito mais preconceituosa.

Portanto, a blindagem intelectual tenta se reciclar. Criam-se novos "coitadinhos" como MC Naldo, falsos "cidadãos do mundo" como Valesca Popozuda. Um Coletivo Fora do Eixo que "gororobiza" a cultura brasileira juntando alhos com bugalhos enquanto recebe mesadas de George Soros e "namora escondido" a Yoani Sanchez, também está se mexendo para salvar a intelligentzia atual.

Enquanto isso, a intelectualidade, seja Hermano Vianna, Milton Moura etc, tenta desmentir as acusações de vínculo com a grande mídia ou com a influência ideológica do PSDB, da Folha de São Paulo e da Rede Globo. Acham que seus pontos de vista mercantilistas são "independentes" e "acima de interesses político-partidários".

Pode ser, mas eles buscam afinidade perfeita com os interesses das grandes corporações, dos grandes investidores de capital, dos barões da mídia, dos políticos mais reacionários e da "urubologia" que domina na nossa imprensa.

Para essa intelectualidade etnocêntrica, não devemos defender o fim do analfabetismo, a melhoria da cultura popular, a regulação midiática, o combate à baixaria. Para esses intelectuais, povo burro e estúpido rende mais dinheiro para a indústria cultural, e nada como camuflar essas intenções malignas com uma confortável retórica "socializante" que, queiram eles ou não, já começa a perder sua razão de ser.

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