quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

A FALÊNCIA DA "REVOLUÇÃO CULTURAL" DO PSDB


Por Alexandre Figueiredo

As críticas à mediocrização cultural no país estão crescendo, e os efeitos causados pelas análises de Mino Carta tornam-se devastadores. Há um bom tempo a blindagem intelectual da breguice imposta pelo mercado e pelo poder midiático à cultura brasileira já não consegue mais "vender o peixe" nas rodas esquerdistas, e depois do artigo de Carta Capital, terá até que retirar seus quiosques.

Há muito este que lhes escreve aponta as associações da breguice cultural com a grande mídia e o tucanato, e como suas caraterísticas encontram consonância com as ideias de pensadores neoliberais, seja o economista Roberto Campos, seja o sociólogo Fernando Henrique Cardoso, através da sua Teoria da Dependência, e sobretudo este, que como presidente viu a breguice tomar conta de todo o Brasil.

Quanto a Roberto Campos, até parece que os primeiros ídolos cafonas eram mais próximos dele do que do Tropicalismo, tese um tanto equivocada mas alardeada por intelectuais badalados. Roberto, como ministro do Planejamento do governo Castelo Branco, propôs o desenvolvimento econômico do país através de tecnologia obsoleta lá fora e da degradação sócio-econômica das classes trabalhadoras.

No âmbito cultural, era justamente isso que se via no ideário brega simbolizado por ídolos como Waldick Soriano. Tínhamos referenciais estrangeiros obsoletos, como boleros, mariachis etc, que "prometiam" desenvolver a cultura popular brasileira através da degradação estética, poética artística etc. Até os "modernos" ídolos que vieram depois também adotavam tardiamente modismos já ultrapassados.

Até mesmo o modelo de "qualidade de vida" exaltado pelos ideólogos da "cultura" brega, a partir de Paulo César Araújo, nada tinha de generoso: homens maduros se "divertindo" enchendo a cara num bar. Mulheres jovens na prostituição. Trabalhadores no comércio informal, no desemprego, para não dizer na mendicância. Casas velhas, caindo aos pedaços. Ruas sem asfaltos. Tristezas e lamentos resignados da multidão.

Enquanto isso, os auto-falantes exerciam o poder midiático nas piores roças. Mas o poder midiático do brega tentava, num mimetismo ideológico, se disfarçar e se confundir com as massas. As rádios AM e, depois (e sobretudo) FM, então, tentavam ocultar a figura de seu dono e exagerar no (limitado) poder formador de gosto dos programadores de rádio, na verdade meros capatazes do coronelismo eletrônico.

Fernando Henrique só diferiu um pouco de Roberto Campos por seu verniz "moderno" e "progressista". O sociólogo prometia um "desenvolvimento social", mas determinava, assim como Campos, a manutenção de uma posição subordinada do país diante das potências desenvolvidas. O Brasil poderia ser relativamente desenvolvido, com alguma prosperidade sócio-econômica, mas culturalmente inferiorizado.

Bingo! A cultura tornou-se um objeto de manobra da intelectualidade neoliberal. Se víamos na música de Waldick Soriano, Benito di Paula e Odair José a aplicação ideológica das ideias de Roberto Campos e do ministro da Economia do mesmo governo de Castelo, Otávio Bulhões, na música brasileira, a modernização do brega em outras tendências se deram pela Teoria da Dependência de Fernando Henrique Cardoso.

A TURMA USPIANA

Já contamos a história de que a intelectualidade que se influenciou pela Teoria da Dependência de FHC, que se propagou nos círculos universitários sobretudo a partir de 1974 e, de forma mais intensa, entre 1983 e 1992, a partir da Universidade de São Paulo.

Eram intelectuais de diversas faculdades que desenvolviam um projeto ideológico na qual as análises sobre cultura popular originárias das gerações dos antigos ISEB (Instituto Superior de Estudos Brasileiros) e CPC-UNE (Centro Popular de Cultura da União Nacional dos Estudantes) eram desqualificadas e substituídas por abordagens mais adequadas à lógica neoliberal.

Vieram então abordagens que esvaziassem a cultura brasileira, reduzindo sua brasilidade a alguns pontos formais, associados à ideia econômica e administrativa de "competitividade" aplicada às nações. A partir dessas abordagens, intelectualidade, política, mídia e mercado se aliaram para desenvolver uma "cultura popular" asséptica, ideologicamente vazia e esteticamente calculada para um "melhor consumo" pelo povo.

As mudanças causadas pelo mercado turístico brasileiro e pelas mudanças na economia agrícola a partir da "Revolução Verde" do governo do general Emílio Médici "abrasileiraram" o brega brasileiro. A "Revolução Verde" impulsionou o agronegócio, modernizou o coronelismo e, no plano musical, permitiu as diluições comerciais da música caipira, gerando no "sertanejo" dos últimos 30 anos.

Nessa época, apenas São Paulo ainda estava "desobrigada" a "abrasileirar" o brega, porque era uma cidade cosmopolita. Os ídolos bregas de então, como Gretchen, Ângelo Máximo, Nahim e até Wagner Montes (sim, o hoje político e apresentador do Balanço Geral carioca, da TV Record), eram inspirados na disco music ou no pop juvenil norte-americano da época, fazendo em 1979 o que os gringos já faziam em 1973.

INTELECTUALIDADE DEMOTUCANA

Essa intelectualidade, da qual tiveram pelo menos duas gerações principais, a dos "mestres", que veio a fundar o PSDB, e dos "discípulos", que vieram depois dos anos 80. Nos anos 80, a Teoria da Dependência era um paradigma dominante nos meios acadêmicos, não só na USP, mas em outras universidades públicas e particulares de todo o Brasil.

A Fundação Ford e a Fundação Rockefeller eram alguns dos patrocinadores mais conhecidos entre seus pares, embora isso só seja revelado tardiamente. E as abordagens previam que o PSDB fosse conduzir uma "Revolução Cultural" no país, já que os tucanos previam que o partido permaneceria, pelo menos, duas décadas no poder a partir de 1994.

Só que, em 2002, José Serra não conseguiu ser eleito e outro partido chegou ao poder, o PT, que já está há dez anos no comando da nossa República. Embora esteja mais próximo de um partido social-democrata que o PSDB deixou de ser do que de um partido socialista que pretendeu um dia ser, o PT tornou-se um novo paradigma político, corretamente chamado de centro-esquerda, apesar de algumas inclinações à direita.

Em todo caso, a intelectualidade cultural que se preparava para ser a "comitiva intelectual" do Brasil tucano - Paulo César Araújo seria o intelectual-símbolo de uma presumida Era Serra - ficou transtornada com as derrotas eleitorais e alguns intelectuais tentaram migrar à esquerda para fazer proselitismo e impedir que abordagens críticas sobre cultura brasileira voltem à tona.

Por isso as esquerdas médias, muitas desprevenidas, outras corrompidas, aceitaram de braços abertos a adesão de intelectuais alienígenas, que apesar do pretenso esquerdismo adotavam pontos de vista neoliberais, defendo a "cultura de massa" e desmoralizando, até de forma bem rabugenta, artistas da genuína esquerda musical, como Chico Buarque.

Foram dez anos de hegemonia dessa intelectualidade tão falada aqui. E que no entanto se afinava em interesses, com surpreendente fidelidade, com os interesses do poder midiático que se tornou absoluto no Brasil pré-Internet dos anos 90.

Só que esses intelectuais não passavam de meros propagandistas da "cultura de massa" e se viu que não bastou sequer os ataques forçados que a intelectualidade cultural dominante faziam aos totens da mídia e política direitistas, já que os interesses e as afinidades eram literalmente os mesmos. A identificação com os ideais de Fernando Henrique Cardoso e dos barões da mídia se tornaram claras em muitos momentos.

Os intelectuais mais jovens estavam vulneráveis a esse canto de sereia acadêmico, daí que ressurgiu uma voz veterana como Mino Carta para mudar o norte das coisas. Sua visibilidade permitiu que ele criticasse a mediocridade cultural sem que os outros, pelo menos de forma convincente, o acusassem de preconceituoso ou elitista.

Agora, o que se desenha é o fim do ciclo de um poder intelectual neoliberal que tentou se sobressair nos círculos esquerdistas. Hoje eles são obrigados a se contentar a "vender o peixe" na velha grande mídia que fingiram odiar. Até a Veja socorreu essa intelectualidade, dando o maior cartaz aos "sertanejos". E a Globo e a Folha, como sempre, dando o maior aval.

Vivemos em outros tempos e quem quiser defender a mediocridade cultural que o faça nos salões da "casa grande".

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