quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

UOL 89 FM E BBB "LAVAM" PECADOS DA "MASSA CHEIROSA"


Por Alexandre Figueiredo

Com as pressões que acontecem sobre o noticiário político, tomado de muito desgaste por conta das posições reacionárias que seus articulistas - conhecidos como a "massa cheirosa" da imprensa "hidrófoba" (reacionária) -  assumem, a velha grande mídia precisa tirar outras cartas de suas mangas para salvar seus interesses.

A decadência da grande imprensa brasileira acontece, mas deve-se tomar cautela, uma vez que dois fenômenos da grande mídia chamam a atenção pelo sucesso que desempenham no mercado e que é capitalizado pelos barões midiáticos.

Há dias este blogue chama a atenção pelos fenômenos Big Brother Brasil e UOL 89 FM, respectivamente sustentados pelas Organizações Globo e Grupo Folha. O que impressiona é a divulgação maciça que ambos recebem, trabalhados como "grandes acontecimentos" que refletem na histeria coletiva onde o medíocre é visto como se fosse "genial".

As famiglias Marinho e Frias buscam nessas atrações a reciclagem de seu poderio midiático, buscando uma compensação do desgaste que o reacionarismo mal-humorado dos articulistas políticos - como Merval Pereira, Miriam Leitão, Eliane Cantanhede, Ricardo Noblat e outros - reflete em parte da opinião pública.

Não bastasse isso, os Frias e os Marinho buscam o respaldo de poder num público que não é habituado a ler noticiário político, um público jovem cujos instintos que envolvem sociabilidade e rebeldia são canalizados pela grande mídia para convertê-los em consumismo e conformismo.

TUDO É TIDO COMO "GENIAL"

Na edição do Vídeo Show, da Rede Globo, exibida ontem à tarde, o destaque foi a nova edição do Big Brother Brasil, com os integrantes e ex-integrantes sendo entrevistados, falando de suas expectativas para a nova edição ou recordando "melhores momentos" das antigas edições do programa.

Até mesmo Kleber Bambam, um dos integrantes da primeira edição, voltou sob o status de "celebridade histórica". Tudo é promovido pela grande mídia para parecer "genial", e a "divertida" imprensa "popular", que poucos admitem ser integrante do velho poder midiático, mostra-se cada vez mais entusiasmada na cobertura do "riélite chou".

Na UOL 89 FM, houve até mesmo uma festa de lançamento. O locutor e coordenador Tatola, sob as câmeras da reportagem sobre a nova fase da dita "rádio rock", teve direito até a fazer gracinhas, fazendo air drumming (tocar bateria imaginária) e tudo.

O relançamento da 89 FM, que havia se tornado uma rádio de pop convencional em 2006, teve direito até a uma aparente unanimidade de comentários exagerados e até mesmo improcedentes, que definiam a emissora como a "melhor rádio rock do mundo", entre outros elogios cegos.

Só que, diante do que foi e é a história do radialismo rock do Brasil e do mundo, a 89 FM esteve aquém até mesmo do que deveria ser o básico de uma rádio rock. Perto do que foram históricas rádios de rock brasileiras dos anos 80, como a Fluminense FM e a 97 Rock, a 89 FM, diante dessas duas, sempre pareceu um Menudo diante dos Beatles e dos Rolling Stones.

Há até uma postura politicamente correta da UOL 89 FM evitar a tocar Restart ou a pegar carona no saudosismo abobalhado do Ploc 80. Mas, descontando isso, a 89 voltou adotando o mesmo estilo debiloide de locução, igualzinho ao das rádios de pop dançante, além de um hit-parade associado, em tese, ao rock.

ALIENAÇÃO E SUPÉRFLUO

Em ambos os casos, a grande mídia impõe um modelo de "ascensão social" que busca amarrar a juventude brasileira num patamar ideológico que favorece os interesses do poder midiático. A franquia feita pelas Organizações Globo e a participação acionária da Folha de São Paulo, respectivamente sobre o BBB e a 89, não são processos acidentais nem gratuitos. Eles possuem um projeto ideológico por trás.

Os dois fenômenos tentam promover a alienação e a valorização do supérfluo apenas com um "pouco mais de categoria" em relação a antes. Ambos tiveram "arranhões" em sua trajetória. O BBB já foi apontado como um dos líderes das baixarias televisivas, e a 89 FM estava enfatizando demais o humor besteirol, os debates esportivos e os game shows que prejudicaram seu verniz "roqueiro".

O Big Brother Brasil - que agora conta com uma "biblioteca" dentro de sua "casa" - tem por objetivo promover a adoração pública a uma "multidão" de anônimos que, sem qualquer talento nem competência (salvo raras exceções), buscam a fama que, uma vez conquistada, é mantida a qualquer custo através de factoides e apelações.

A UOL 89 FM, por sua vez, substituiu o cardápio restrito a apenas 60 músicas por um rodízio, aos moldes das FMs de pop adulto, de "grandes sucessos do rock" tocados em sua programação diária. Todavia, nada que crie uma esperança de ouvir um "lado B" ou uma canção que nunca fez sucesso nas paradas sendo tocado na 89. E até mesmo o apoio midiático é recíproco.

As Organizações Globo podem manifestar seu apoio à UOL 89 FM, como se deu no apoio que o Rio Fanzine (dos críticos Tom Leão e Carlos Albuquerque) deu à 89 (mesmo quando só era sintonizada em SP) e até em mershandising feito numa reportagem sobre exposição de aparelhos de som em São Paulo no Jornal Nacional (um aparelho sintonizado nos 89,1 mhz tocava a música "Garota Nacional" do Skank).

Já o Grupo Folha dá seu aval do Big Brother Brasil, dando cobertura às sub-celebridades e todas as notícias ou mesmo fofocas sobre o programa televisivo, desviando a opinião pública de preocupações mais relevantes sobre sua vida cotidiana, distraídos com a glamourização da imbecilidade coletiva em torno do Big Brother Brasil.

Em ambos os casos, os Frias e os Marinho buscam criar um "modelo" de vida para os jovens. No BBB, são anônimos que priorizam a curtição, como um pseudo-hedonismo levado às últimas consequências, com direito às moças que foram ex-BBBs posarem de "gostosas" nos aeroportos ou mostrando banheiros com controle remoto para vasos sanitários.

Já na UOL 89 FM, o "modelo" é uma rebeldia de fachada que, numa São Paulo dominada pelo conservadorismo político do PSDB, da grande mídia e do Instituto Millenium, encaixa numa juventude abastada carente de uma aparente rebeldia que dissimule seu reacionarismo ideológico. Uma rebeldia de gestos, de poses, de vestuário e retórica, que esconde ideais retrógrados.

MANIPULAÇÃO NÃO É NOVIDADE

Só que esses métodos de manipulação não são novidade. É apenas a reciclagem de métodos que já tornaram a juventude viciada no seu anti-intelectualismo e no seu ódio a tudo que represente qualidade de vida, justiça social e progresso educacional e cultural.

O neo-conservadorismo dos fanáticos do BBB e da 89 FM já vem desde 2001, quando esses fenômenos se ascenderam (a 89 FM, desde os anos 90, mas com maior intensidade em 2001), é apenas um recurso do poder midiático que busca desviar a opinião pública das discussões em torno da crise midiática e da necessidade de implantação da Lei de Meios brasileira.

Só que até mesmo o frágil respaldo do governo Dilma Rousseff e do medo do PT de enfrentar os barões midiáticos, fato comprovado em várias situações, abre caminho para essas duas armadilhas, que poderão produzir novas gerações de neo-conservadores, sob o pretexto da valorização das "coisas boas da vida", no caso do BBB, e da "saudável rebeldia juvenil", no caso da 89.

Por trás disso, a grande mídia trabalha o conformismo social, de uma forma bem mais sutil do que sugere a decadente rabugice dos articulistas políticos da grande imprensa, os quais são completamente desconhecidos pela maioria das pessoas.

Já para estas, as armadilhas "culturais" da grande mídia é que conseguem manipular com mais eficácia do que qualquer "urubólogo" que lhes é desconhecido. Mervais e Cantanhedes falam para as paredes de seus escritórios e para quem estiver ao lado deles.

Já uma 89 e um BBB conseguem seduzir o inconsciente coletivo através de um "ideal de vida" onde tudo parece atraente e sedutor. Mas, por trás desse parque de diversões dessas duas atrações - a rádio e o programa televisivo - , há um perverso processo de manipulação social que trará, nas gerações futuras, não só uma compreensão distorcida da realidade, mas a defesa radical de ideias ultrapassadas.

Não adianta, portanto, comemorar a decadência de Merval Pereira e Eliane Cantanhede, se seus sucessores podem aparecer entre aqueles que contemplam a "casa de vidro" do programa de TV e os que integram a "nação roqueira" da rádio paulista.

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