quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

TESE DE PAULO CÉSAR ARAÚJO SOBRE BREGA E DITADURA ESTÁ ERRADA


Por Alexandre Figueiredo

Já havíamos falado a respeito dos equívocos de análise de Paulo César Araújo sobre o contexto da ditadura militar no seu livro Eu Não Sou Cachorro, Não, cuja abordagem sobre a Censura Federal entra em contradição com o que é apresentado, de forma mais realista, pela escritora Beatriz Kushnir no livro Cães de Guarda, lançado na mesma época.

No entanto, não falamos com tamanha ênfase e uma análise próxima do caráter científico que apresentaremos a seguir.  Portanto, aqui se é feita uma análise bem mais objetiva e racional, e não apenas uma avaliação aparentemente opinativa, a respeito desse equívoco de Paulo César Araújo, geralmente visto como "unanimidade" entre os círculos intelectuais brasileiros.

Segundo a abordagem de Paulo César Araújo, durante o período de vigência do Ato Institucional Número Cinco (AI-5), lançado pela ditadura militar brasileira para tornar a repressão mais rigorosa, a música brega viveu o que o autor considera seu período áureo, fazendo muito sucesso nas emissoras de rádio e televisão.

Até aí, nada de errado. O grande erro cometido por Paulo César Araújo está em creditar esse sucesso a uma suposta reação popular aos arbítrios da ditadura militar. E, contrariando o que ele próprio disse no parágrafo do referido livro, no qual ele definia os ídolos cafonas em "despolitizados", ele tenta transformá-los em "artistas politizados", em "cantores de protesto".

TESE SEM FUNDAMENTO

Por que a tese de Paulo César Araújo de que a música brega era "uma canção de protesto" não tem o menor fundamento? Independente de acharmos que a música brega é "boa" ou "ruim", a tese não tem o menor fundamento por diversos motivos.

Em primeiro lugar, porque é insuficiente a "prova" usada por Araújo, de uma "pesquisa" de estudantes da PUC mineira de que "Eu Não Sou Cachorro Não" seria "uma canção de protesto", até porque o exercício é apenas um artifício "científico" para justificar uma avaliação de caráter subjetivo, altamente discutível, sem falar que o objetivo de Waldick com a música era apenas falar de desilusões amorosas. Só isso.

Em segundo lugar, Paulo César Araújo tentou criar uma abordagem estereotipada da censura brasileira, apostando num contexto uniforme de censores necessariamente militares, moralistas e durões. Já Beatriz Kushnir define os censores não necessariamente como "sargentões" a cortar tudo e todos, mas em servidores públicos que estavam cumprindo ordens da ditadura militar.

Uns censores eram mais flexíveis, outros tinham frescuras pessoais, outros eram realmente durões, mas havia censores que tinham uma relação mais cordial com os órgãos de mídia para os quais trabalhavam. Não dá para criar uma visão maniqueísta entre a ditadura e a sociedade, já que mesmo nas Forças Armadas havia interesses divergentes e sérios atritos mesmo entre aqueles que dirigiam a ditadura militar.

Através dessa análise, constata-se que o argumento de Araújo de que, só pelo fato de terem tido músicas censuradas, os ídolos bregas teriam sido "cantores de protesto" não possui o menor fundamento. Até porque, a partir dos próprios ídolos mais destacados, como Waldick Soriano e Odair José, se constatou que os dois cantores depois demonstraram ser ideologicamente bastante conservadores.

MÍDIA E INDÚSTRIA DO ENTRETENIMENTO

Outro fato que também desmonta a tese de Araújo é que, se a música brega fez sucesso durante a vigência do AI-5, houve um mercado e um sistema midiático para difundi-los. Aí Araújo contradiz, porque se acreditarmos nele teríamos que crer que a mídia toda estava completamente contra a ditadura militar, o que não é verdade.

Pelo contrário, era nessa época que a mídia brasileira via agonizarem e morrerem os poucos focos oposicionistas abertamente expressos ao público. A grande mídia estava abertamente solidária ao regime militar e a mídia oposicionista, sufocada ou marginalizada, era impotente para se projetar ao grande público naqueles anos de chumbo.

A TV Excelsior, ligada a um empresário janguista que havia se suicidado antes (o mesmo Mário Wallace Simonsen da companhia aérea Panair), seria lacrada em 1970. O Correio da Manhã, que apoiou o golpe de 1964, mas se opôs severamente contra a ditadura, foi transformado num periódico inócuo aos arbítrios da ditadura. Já não tínhamos a revista Senhor e a Visão, tornando-se esquerdista, ficou marginalizada no mercado.

Enquanto isso, na mídia tutelada por grupos conservadores, a Folha da Tarde (dos Frias) havia encerrado sua fase esquerdista e a revista Realidade (dos Civita) havia deixado de ser a notável revista de excelentes textos jornalísticos - geralmente inspirados na tendência do "Novo Jornalismo" de narrar reportagens como se fossem romances - e uma postura progressista.

Se a grande mídia tinha esses desfechos todos, imagine então as inúmeras rádios que tocavam os ídolos bregas, muitas delas com concessões feitas ou renovadas durante o periodo militar. Elas nem de longe representariam uma oposição ao regime militar, como quer a abordagem de Araújo, mas seriam sobretudo o mais fiel reduto de defesa da ditadura militar.

Afinal, são rádios controladas por oligarquias regionais ou nacionais, juntamente com emissoras de televisão que não representavam ameaça à ditadura militar. E também existe um mercado de entretenimento que é associado ao respaldo dos poderosos regionais no interior do país, ou do poder econômico das capitais estaduais.

Mesmo os serviços de autofalantes - pretexto dos defensores da música brega falarem em "mídia alternativa" - eram feitos sob autorização dos chefes oligárquicos que influenciavam as cidades do interior. Portanto, nem eles representam qualquer oposição ao regime militar, mas o seu respaldo mais satisfatório.

Portanto, a música brega tornou-se sucesso num contexto próprio para isso, através de uma mídia e um mercado que respaldaram a ditadura militar. Sendo assim, a música brega não só não representava ameaça aos interesses da ditadura militar, mas estava de acordo com os mesmos.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...