quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

REGULAÇÃO MIDIÁTICA, CULTURA E ENTRETENIMENTO


Por Alexandre Figueiredo

O debate em torno da regulação da mídia no Brasil é bastante delicado e nem sempre aqueles que aparentemente defendem a causa estão realmente identificados com a sua natureza bastante complexa de limitar a influência dos oligopólios da Comunicação.

Infelizmente, a ênfase dos debates se limita ao noticiário político, que, além de preocupar bastante os analistas políticos de esquerda, é o que menos influencia a sociedade. Afinal, as empregadas domésticas, os porteiros de prédios e outras figuras sociais das classes populares não sabem quem é Reinaldo Azevedo e Merval Pereira, quando muito, é apenas um jornalista com um bigode engraçado e visual retrô.

O que influencia mesmo a sociedade é o entretenimento, mesmo aquele travestido de "cultura popular", onde o rótulo "popular" permite qualquer baixaria, qualquer pieguice. O povo é transformado em caricatura pela mídia, mas se isso garante resultados "favoráveis" - grande audiência, grandes lucros para as empresas envolvidas - , então é um "popular" que dá certo.

A intelectualidade dominante, tão fechada em seus meios acadêmicos, chegou mesmo a se autoproclamar, sob os aplausos de plateias desavisadas, juíza maior da cultura popular brasileira. Nomes como Hermano Vianna, Pedro Alexandre Sanches e Paulo César Araújo tinham a palavra final sobre o que para eles deveria ser o folclore brasileiro e o futuro da cultura popular no Brasil.

Mas, a cada dia que se avança a crítica cultural e esses "pensadores" passam a ser questionados, quebrando a aura de pretensa unanimidade que pairava sobre eles, as análises sobre o monopólio midiático começam a sair da questão, um tanto simplória, de querer domar as "feras" do noticiário político da mídia dominante.

MÉTODOS SUTIS

A manipulação midiática, no setor da cultura, a questão também vai além das discussões sobre os preconceitos transmitidos em programas humorísticos e reality shows. Afinal, a estereotipação da sociedade é um processo que adota métodos muito mais sutis do que uma exploração sutil de machismo ou de racismo em esquetes humorísticas.

A transformação do povo em caricatura se observa até mesmo nas "saudáveis" manifestações midiáticas transmitidas sob o rótulo de "popular". Do "saudável funk carioca" à "brilhante rádio rock" da UOL 89 FM, a grande mídia cria estereótipos, caricaturas, de forma proposital para transformar seus pretensos públicos-alvos em massas conformistas e impulsionadas para o consumo mais obsessivo.

Mas essas estereotipações não são tão inocentes quanto parecem. Em muitos aspectos, a "sadia" exploração da imagem do povo das favelas ou dos jovens rebeldes urbanos, por exemplo, em muitos aspectos esvazia a essência de seus comportamentos e mentalidades, transformando-os apenas em tipos formalmente diferenciados, mas de personalidade oca e bastante superficial.

Em muitos aspectos, a mídia chega mesmo a criar estereótipos que contradizem violentamente com os tipos originais que lhes serviram de inspiração inicial. O povo das favelas, trabalhado pela ideologia da "periferia legal" guiada pelo "funk carioca", se transforma numa massa sem poder reivindicatório, numa tradução pós-moderna dos "bons selvagens" das comédias comerciais norte-americanas.

A música brega-popularesca e seus "grandes artistas" completamente submissos ao mercado - cujos exemplos recentes são Thiaguinho, Péricles e Michel Teló - , também evocam um povo caricato, bobo alegre demais para representar com fidelidade a realidade vivida nas periferias em nosso país.

Mas mesmo a "cultura rock" supostamente resgatada pela UOL 89 FM, que, não esqueçamos, integra o cenário da grande mídia oligárquica através da participação acionária de Otávio Frias Filho, não escapa desse processo de estereotipação, transformando o jovem rebelde brasileiro numa espécie de debiloide consumista e num alienado enrustido.

O jovem "rebelde" da UOL 89 FM é de tal forma um rebelde sem causa que, perto deste estereótipo, o James Dean dos filmes de Hollywood mais parecia um ativista político dos mais engajados. Pelo menos o falecido ator tinha suas questões existencialistas, ainda que um tanto vagas. Já o "rebelde" brasileiro mais parece um cruzamento de Beavis & Butt-Head com Xou da Xuxa.

"PAGODÃO" E "FUNK CARIOCA"

A discussão sobre os abusos da grande mídia, no entanto, nem sempre conseguem identificar os males piores, mesmo quando eles se mostram evidentes, tamanho o receio que certos analistas mais tímidos têm em desagradar intelectuais dominantes e os interesses estratégicos do mercado dito "popular".

É o caso do "pagodão" baiano e do "funk carioca", que, não bastassem sua vocação pela apologia da miséria, pela glamourização da pobreza, apelam para os "proibidões" que são suas expressões voltadas para a exaltação da criminalidade, da violência e da pornografia, lançando mão até mesmo da pedofilia mais escancarada.

Os intelectuais que defendem essas "culturas" tentaram minimizar os problemas dizendo que a pornografia e a pedofilia eram "formas de iniciação sexual das jovens das periferias", como se o que fosse deplorável na sociedade mais civilizada fosse "saudável" nos "bons selvagens" exaltados pela influente intelectualidade "soros-positiva".

Isso é o maior problema. Se a intelectualidade mais influente no Brasil trata como "positivo" o processo de degradação cultural do povo pobre, deturpando o sentido de aceitação do "outro" através da conivência da decadência sócio-cultural que atinge as populações pobres, então as discussões sobre a Lei de Meios no Brasil se torna ainda mais complicada.

Com essa conivência intelectual, as discussões sobre a regulação midiática ainda se tornam cada vez mais estéreis, pondo o Brasil em desvantagem em relação à Argentina. Lá, por mais que o Grupo Clarín tente todos os recursos judiciais para manter seu império, pelo menos ele está sendo ameaçado de perder sua hegemonia.

Aqui, porém, se parte da opinião pública aceita a degradação sócio-cultural como se fossem "outros valores a serem respeitados", então as discussões sobre a regulação da mídia pararam pela metade, não bastasse a falta de firmeza do governo Dilma Rousseff.

A regulação midiática não termina na domação de jornalistas políticos reacionários ou de humoristas preconceituosos. A mídia não se torna mais democrática porque Merval Pereira e Miriam Leitão passaram a elogiar Lula e Dilma. A regulação da mídia é um grande e complexo processo de transformação social a partir do fim dos abusos cometidos pela grande mídia.

O que se quer é permitir que o povo se veja na mídia tal como realmente é. Mas a indústria midiática dificilmente quer isso. O povo se transforma numa caricatura, e, em vez da imagem midiática do povo brasileiro ser um reflexo de sua realidade, é a realidade que acaba sendo reflexo de uma imagem estereotipada trabalhada pelo poder midiático e pelo mercado.

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