terça-feira, 1 de janeiro de 2013

PUNK ROCK E CONTRACULTURA SOB AS "ORDENS" DA 89 FM


Por Alexandre Figueiredo

Como é que ficarão os movimentos de rebeldia juvenil no Brasil? Até hoje, não encontramos movimentos como os que ocorreram entre 1966 e 1968 da juventude brasileira, ou mesmo o peculiar movimento politizado do punk rock de Brasília e São Paulo, na virada dos anos 1970 para os 1980.

Hoje o Brasil vive a influência voraz do "deus mercado", que tenta atingir tudo e todos e, dentro daquela mania brasileira de ter um pouco (ou talvez muito) de pretensiosismo e mentira, dizer que "está morto, enterrado e apodrecido sob um caixão".

Sim, o "falecido" mercado continua comandando os inconscientes coletivos em diversos setores. E agora que as notícias internacionais falam das mobilizações juvenis que ocorrem desde 2010, no Oriente Médio, EUA, Europa e na Argentina e Chile, a grande mídia brasileira está preocupada com os efeitos que tudo isso pode causar no Brasil.

Só para se ter uma ideia, hoje os movimentos de ocupação "tiraram umas férias", mas atualmente há a revolta popular, da qual a juventude participa de forma decisiva, contra a concentração de poderes do presidente do Egito, Mohamed Mursi, "autorizada" por artifícios constitucionais.

Aqui a grande mídia precisa domesticar a juventude de toda forma. No caso das classes mais pobres, o "funk carioca" foi usado para efetivar essa domesticação, sobretudo pela glamourização da pobreza. Mas os resultados não deram certo e se denunciou até mesmo a influência da CIA, agência de informação dos EUA, no processo.

Os ativistas funqueiros tentaram reagir com gracejos às acusações de que a CIA estaria patrocinando o "funk carioca" para derrubar a cultura brasileira, mas a CIA está por trás do apoio logístico, ideológico e financeiro às mesmas instituições e empresas que patrocinam diretamente o ritmo carioca. Isto é fato.

DOMESTICAR JOVENS DE CLASSE MÉDIA: É O QUE A MÍDIA QUER

Agora é a vez da grande mídia paulista, matando "três coelhos" numa marretada só, tentar domesticar a juventude de classe média, usando como pretexto a "gloriosa" volta da dita "rádio rock", a 89 FM de São Paulo, agora rebatizada de UOL 89 FM.

Pois em uma só marretada, a UOL 89 FM tenta salvar a reputação da Folha de São Paulo, parceira acionária do clã Camargo que controla a 89 (e a breguíssima Nativa FM), do desgaste midiático, tenta realimentar o mercado de apresentações internacionais, garantindo poder e fortuna para gente como Roberto Medina e, acima de tudo, deixar os jovens se "distraírem" com falsa rebeldia e consumismo.

Enquanto o Coletivo Fora do Eixo tenta promover a domesticação do folclore brasileiro e transformar a vanguarda da MPB num engodo pós-moderno sem pé nem cabeça e aliado à pasmaceira brega-popularesca dominante, a UOL 89 FM tenta promover um "modelo" de rebeldia juvenil que se limite apenas à forma e a alguns clichês gestuais, retóricos e visuais.

Os jovens de classe média são considerados como os mais instruídos e formadores de opinião não só da juventude brasileira em geral, mas também da sociedade como um todo. Com a domesticação da rebeldia promovida pela dita "rádio rock", os jovens, segundo os barões da mídia, não precisariam deixar de ser rebeldes na forma para deixarem de ser rebeldes no conteúdo.

PUNK E CONTRACULTURA

Essa domesticação se dá sobretudo pela deturpação da chamada cultura alternativa de rock, completando o "serviço" dos "fora do eixo" no âmbito da cultura alternativa de MPB e do folclore brasileiro, condescendentes com a breguice dominante que enriquece os barões da grande mídia.

Assim, o aparelho ideológico da UOL 89 FM quer reduzir o rock alternativo a uma mesmice grunge um tanto sorridente, entendida pelos brasileiros como um misto de guitarras barulhentas, vocal bubblegum e clipes simulando imagens super-8 mostrando crianças brincando. Ou então reduzir o punk rock a uma rebeldia sem conteúdo, com críticas endereçadas a ninguém ou que falam sobre nada.

"Vamos ter que agir, contra o monstro que nos segue. Vamos lutar contra as sombras que nos ameaçam, contra o poder que nos exploram...", é uma amostra dessas letras. Não se sabe do que se fala nem sobre quem se fala, as críticas são vagas, imprecisas, revoltas sobre o nada, que fizeram a fama de grupos como Charlie Brown Jr. e seus fanáticos fãs.

Aliás, o próprio gerente artístico da UOL 89 FM, Tatola, havia sido líder do Não Religião, um grupo que se limitava a usar os clichês do punk rock mais manjados, como copiar o som do Ira! e da Plebe Rude, "chupar" o nome do Bad Religion e puxar muito saco dos Ratos do Porão e do 365, como se a banda do Tatola fosse "tão independente" quanto os outros grupos.

Mas até mesmo os veteranos do Rock Brasil passaram a agir assim, desde os anos 90, quando a 89 FM mostrou seus defeitos de forma bastante clara, mas que infelizmente ainda são vistos como "qualidades admiráveis" por vários internautas.

MODISMO GRUNGE

A cultura alternativa já havia sido empastelada nos anos 90, época do modismo grunge, com gravadoras pseudo-independentes vinculadas às gigantes multinacionais do disco, com falsos fanzines feitos por jornalistas da grande imprensa, e por falsas rádios de rock nascidas a partir de rádios pop ou brega que nem sequer tomaram o cuidado de mudar o quadro de locutores.

E a 89 FM estava comandando isso, sob a proteção firme dos Civita e dos Frias. Quem sabe muito da ascensão de Otávio Frias Filho e Roberto Civita foi facilitada pelo protecionismo que seus jornalistas culturais deram à 89 FM e seu "radialismo rock" de mentirinha? A memória curta fez da 89 FM uma rádio "genial", mas ela voltou com os mesmos erros que fizeram derrubar a rádio em 2006.

E a receptividade da 89 FM nem envolve os roqueiros autênticos, que preferem ouvir seus áudios em CD e MP3, já que o rádio FM está em baixa credibilidade no Brasil. Eles, em si, não confiam na volta da 89 FM. Já os "roqueiros de butique", "alfabetizados" na infância por Xuxa e Gugu Liberato, é que fazem coro em uníssono para dizer que voltou "a melhor rádio do país".

Isso preocupa. Afinal, não serão novos rebeldes que aparecerão por trás de camisetas dos Ramones e do Iron Maiden, mas versões punk ou heavy de Reinaldo Azevedo ou versões riot grrrrl da Eliane Cantanhede. Será uma juventude que usará a máscara de rebelde para esconder seu conservadorismo doentio e ainda mais furioso. Convém tomarmos cuidado.

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