sábado, 19 de janeiro de 2013

O BRASIL PROVINCIANO


Por Alexandre Figueiredo

Note-se como o Brasil é um país provinciano, que até para assimilar novidades prefere distorcer com bases ideológicas velhas. Muitos de nós queremos um "pop" moderno baseado nas entranhas da cafonice rural e coronelista. E queremos todo tipo de novidade de fachada, com velhas receitas e recheios podres.

Vejo o contraste que é o que acontece lá fora e o que acontece aqui. Apenas no ramo do entretenimento mais básico, dá para perceber o quanto é gritante a diferença que existe entre o exterior e aqui, até mesmo nas perspectivas mais simples.

Lá fora tivemos há uns diasum evento de cinema, o Golden Globe Awards, que conhecemos aqui como Globo de Ouro, e que teve a premiação do drama político Argo, dirigido e estrelado por Ben Affleck, e o discurso sensato de Jodie Foster sobre a vida.

Tivemos a volta de David Bowie depois de tanto tempo sem lançar disco, ele que é uma referência ao rock de vanguarda mundial. Lá fora temos uma cultura rock consistente, até porque seus dois maiores redutos, os EUA e o Reino Unido, têm que manter sempre um cenário de boas bandas e grandes artistas.

Há os movimentos de ocupação, as passeatas, a revolta contra a crise europeia. Os filmes comerciais dos EUA possuem liberdade até de transmitir informações críticas, num país que começou a discutir as práticas de bullying que sempre foram vistas, outrora, como "brincadeiras saudáveis".

Temos seriados de televisão, desde a comédia nerd de Big Bang Theory até outras de suspense e dramas familiares, que são largamente produzidos nos EUA, com seus equivalentes na Europa. E a programação televisiva, se não é aquela maravilha, oferece opções de qualidade em algum momento.

Aqui no Brasil cultura de qualidade existe, mas ela tem poucos espaços e é rara, diante da hegemonia quase total de uma mediocrização que tenta prevalecer sob o rótulo, tendencioso e hipócrita, de "vítima de preconceito".

E o que vemos ocorrendo no Brasil? Ora, são as coisas mais provincianas que existe aqui. O "fenômeno" Michel Teló nem deu pro gasto, "Ai Se Eu Te Pego" ficou velha antes de 2012 terminar e o tal "sucesso mundial" não passou de uma estratégia de jabaculê e marketing que nem de longe incluiu os melhores espaços culturais na Europa.

Temos a onda do "sertanejo universitário", um engodo que parodia o folk rock da maneira mais cretina. Temos a choradeira do "funk carioca" tentando obter algum respaldo. Temos os preparativos para a tirania escravista da axé-music, no Carnaval de Salvador. E ainda temos Big Brother Brasil.

Temos ainda o entretenimento machista das "boazudas" e "popozudas", por conta de uma mídia machista que se esconde sob o pretexto do "popular" para deixar passar incólume nos seus pecados. E elas nada têm a nos dizer e nem a mostrar, até porque parecem carne de rua. Insistem em permanecer em evidência, quando ninguém mais as deseja para qualquer fantasia sexual e muito menos amorosa.

E quem imaginava que uma "rádio rock" iria combater a mediocridade, logo veio uma rádio medíocre como a UOL 89 FM, seus locutores de estilo pop-debiloide e o repertório hit-parade que mais restrições que concessões faz a músicas e intérpretes de rock.

Não bastasse tudo isso, ainda o Brasil vira uma espécie de "exílio" para DJs europeus decadentes ou à beira do ostracismo. Aqui até mesmo as "culturas" tecno e hip hop chegam aqui pela forma datada de pelo menos 10, 20, 30 anos. O tecno só entrou em alta no Brasil quando na Inglaterra já estava em baixa. E Emicida faz hoje o que o Public Enemy fazia com mais criatividade há 25 anos!

O Brasil continua provinciano. Temos uma mídia velha e datada. Temos um mercado subserviente. Antes o Brasil sofria a síndrome de vira-lata com uma certa vergonha. Hoje há um certo orgulho nisso, vide a moda dos bregas "coitadinhos". E o Brasil ainda pensa em ser potência mundial, farol da humanidade planetária. Nem em sonhos.

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