domingo, 27 de janeiro de 2013

GRANDE MÍDIA E INTELECTUALIDADE CULTURAL


Por Alexandre Figueiredo

A intelectualidade dominante no país está acima da mídia? Ela está acima dos cenários políticos dominantes? Não. Embora ela não se confunda, como força social, aos barões da mídia, governantes e empresários, ela demonstra estar associada e dependente das demais forças, numa clara aliança ideológica.

De Milton Moura (foto) a Roberto Albergaria na Bahia até Hermano Vianna em âmbito nacional, a intelectualidade se associa ao poder midiático legitimando a "cultura de massa" dominante e veiculada por esse mesmo poder. Criam até um discurso bastante apologético, assinando embaixo no que a mídia dominante decide que deva ser a "cultura popular".

Toda a intelectualidade que defende o brega-popularesco, que é essa suposta "cultura popular" da grande mídia, onde além dos citados vimos Mônica Neves Leme, Pedro Alexandre Sanches, Eugênio Arantes Raggi, José Flávio Júnior, Paulo César Araújo e muitos outros, tenta enxertar no seu ideário folclórico as tendências brega-popularescas tidas como "controversas".

É notória a tentativa de creditar como se fosse a mesma coisa uma pseudo-cultura rotulada como "popular" e que seja ditada pelo mercado e pelo poder midiático. A mitologia em torno do "popular" no Brasil faz com que mesmo o mais aberrante ídolo popularesco "fabricado" pelos escritórios empresariais seja tido como "novo folclore", apenas porque faz sucesso estrondoso.

Durante anos prevaleceu esse discurso, em que o mercadológico e o sociológico se confundiam, e o poder midiático era praticamente "inocentado" da culpa da hegemonia do "mau gosto", através de um grupo de intelectuais que tentava afirmar que a degradação sócio-cultural era um natural processo "evolutivo" das classes populares que a chamada sociedade organizada "não conseguia compreender".

ESCOLA DEMOTUCANA

Todos esses intelectuais acima citados basearam seus contextos sobre a apologia do "mau gosto popular" e a glamourização da pobreza - ambos os casos indicando uma deturpação intelectual da ideia de compreensão antropológica do "outro" - em conceitos claramente inspirados na principal corrente da Teoria da Dependência difundida pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

A escola "demotucana", ou, sendo mais exato, "prototucana" da USP, que determinou os paradigmas neoliberais de estudo da cultura popular - sobretudo rompendo com métodos e ideias dos antigos ISEB e CPC da UNE - foi a formação ideológica dessa geração de intelectuais que passou a defender o comercialismo cultural dos anos 90 como se fosse o "novo folclore brasileiro".

Usando como pretexto as aventuras tropicalistas na apreciação do "mau gosto cultural" - lembrando que o próprio Caetano Veloso, simpatizante da música brega, é também admirador de FHC - , os intelectuais tentavam creditar o brega-popularesco como se fosse a "verve polêmica e incompreendida da cultura popular" e, no âmbito musical, tentaram legitimá-lo como "força rebelde da Música Popular Brasileira".

Entrando em diversas contradições, como por exemplo subestimar o caráter conservador de nomes diversos como Waldick Soriano, Odair José e Zezé di Camargo & Luciano, ou superestimando supostas rebeldias de Wando, Tati Quebra-Barraco, É O Tchan e Michel Teló, essa intelectualidade seria a comitiva pensante do PSDB, não fosse a derrota eleitoral de José Serra.

Se julgando "alheios" ao poder da grande mídia, esses intelectuais até chegaram a fazer proselitismo na mídia esquerdista, como é o caso de Pedro Sanches e Paulo César Araújo (este não pela presença profissional nessa mídia, mas pelo tráfico de influência sobre esquerdistas médios), mas seus pontos de vista sempre eram inteiramente apoiados pelo poder midiático.

Daí a semelhança das defesas ao brega-popularesco que Sanches fazia na imprensa esquerdista e o que os jornalões escreviam a respeito. Era a mesmíssima defesa. Ver que Gaby Amarantos foi defendida até pela ranzinza Veja derrubava de vez a tese de que o brega era discrminado pela mídia. E Mr. Catra era considerado "sem mídia" depois de aparecer várias vezes nos veículos das Organizações Globo.

POR QUE A RETÓRICA "PROGRESSISTA"?

Essa intelectualidade estava preparada para assumir um paradigma de cultura popular que simbolizasse a Era José Serra, no caso de uma vitória eleitoral deste. Só que Fernando Henrique Cardoso não conseguiu eleger seu sucessor e o PT, mesmo moderado e respaldado por aliados conservadores, ganhou as eleições e está há dez anos no poder.

Por uma questão de sobrevivência na busca da visibilidade, a intelectualidade dominante, mesmo com acesso na Rede Globo e na Folha de São Paulo e defendendo compreensões da cultura popular dignas de um Instituto Millenium, foi se alinhar teoricamente na "esquerda", buscando se protegerem através do pretexto mitológico da palavra "popular".

A retórica "progressista" era então um plano de emergência para intelectuais que passaram os anos 90 aprendendo conceitos neoliberais de compreensão da cultura popular e se alinharam no poderio político midiático dominantes.

Pedro Alexandre Sanches, por exemplo, era cria do Projeto Folha de Otávio Frias Filho. Já Milton Moura e Roberto Albergaria eram ligados a uma ótica mercadológica que se alinhava a um modelo de "cultura de massa" patrocinado pelo poder midiático derivado do domínio político de Antônio Carlos Magalhães.

Por isso, ao longo desses dez anos, a intelectualidade cultural dominante tentou nos fazer crer que nada tinha a ver com a grande mídia. Mas tinha e continua tendo a ver. Seus pontos de vista, em diversos sentidos, são apoiados até mesmo por Nelson Motta e Otávio Frias Filho nos salões do Instituto Millenium, quanto mais nas telas da Globo ou nas páginas da Folha.

Mesmo as "divergências" do brega-popularesco são internas entre si e não em relação a mídia, como o aparente contraste entre um suposto tradicionalismo de Chitãozinho & Xororó e a suposta rebeldia de Tati Quebra-Barraco. No fundo, são dois lados de uma mesma moeda, onde valores morais "flexíveis" ou "tradicionais" apenas se alternam como pretexto para manter o mercado dominante da cafonice.

Mas nada que assuste os barões da grande mídia. Eles e o empresariado associado em diversos setores, das agências de entretenimento e promoção de eventos às redes de supermercado e de eletrodomésticos, sem excluir as multinacionais, gostam muito dos pontos de vista que a intelectualidade dominante faz do que eles entendem como "cultura popular".

Afinal, intelectuais também podem fazer apologia ao "deus mercado", e essa geração se organizou para isso. Só que, no Brasil, tudo é feito com desmentiras. Faz-se algo, e desmente que se está fazendo. A intelectualidade, assim, tentou parecer "progressista" e "vanguardista", mas ela estava na carona da retaguarda midiática e no mercantilismo mais escancarado.

Só tentaram criar um discurso "diferente", um tanto confuso mas altamente persuasivo. Todavia, ideias falam muito mais do que qualquer postura que possa desmentir o sentido ideológico das mesmas. Este é o problema de nossa intelectualidade.

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