segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

'FAMIGLIA' SIROTSKY E A BREGALIZAÇÃO DO SUL DO BRASIL


Por Alexandre Figueiredo

Em outros tempos, o Brasil era conhecido por suas sérias desigualdades sociais. O Sul e o Sudeste, sobretudo nas capitais e regiões metropolitanas, eram considerados mais desenvolvidos, e o Norte, Nordeste e Centro-Oeste, menos desenvolvidos, sobretudo pelo provincianismo sob influência do coronelismo das suas capitais e zonas interioranas.

Nos anos 80, por exemplo, o Sul e Sudeste possuíam rádios alternativas e eram lugares férteis para expressões culturais de vanguarda. No Norte, Centro-Oeste e Nordeste, havia expressões culturais vanguardistas, mas elas eram ainda mais marginalizadas, enquanto predominavam expressões de caráter e valor mais duvidosos.

Mas, desde a década de 90, a velha grande mídia e os políticos associados, em consequência da "farra" de concessões políticas dadas no governo José Sarney, a situação mudou completamente, não no sentido de melhorias, mas de nivelar o país para baixo quanto à eliminação de desigualdades sócio-culturais.

Os barões da grande mídia, dando sequência a expansão de tendências derivadas da música brega - várias delas já falsamente "regionais" - nos anos 70, acabaram firmando seu mercado nos anos 90, desenvolvendo o brega-popularesco que se tornou hegemônico e dominante do Oiapoque ao Chuí, ameaçando até mesmo os espaços do antigo folclore e da MPB autêntica.

No Brasil como um todo, sabe-se que o que estava ruim no Norte, Nordeste e Centro-Oeste ficou pior ainda. Afinal, essas regiões tornaram-se os polos da indústria brega-popularesca, com ídolos apadrinhados pelos poderes político, econômico e midiático locais.

E mesmo o Sudeste, a partir de São Paulo, começou não só a receber as tendências popularescas das outras regiões, mas também a lançar tendências como o sambrega não só do eixo Rio-São Paulo, mas também incluindo Minas Gerais. E, do breganejo, tem-se também a dupla Chitãozinho & Xororó, do Paraná.

A bregalização do Sul, sobretudo nas cidades do interior, também controladas pelo coronelismo, acabou favorecida não só por esse quadro, em que as rádios não escaparam do clientelismo político do presidente Sarney e seu ministro Antônio Carlos Magalhães, ambos conhecidos oligarcas nordestinos, mas situados num contexto político nacional.

A expansão do brega-popularesco abriu mercado para a axé-music e o sertanejo em áreas antes inflexíveis, como as cidades de Porto Alegre e Florianópolis. Até o forró-brega acabou penetrando nesses locais, e um subproduto havia sido criado no Rio Grande do Sul, que é o tchê-music, que, dizem as más línguas, inspirou o "sertanejo universitário".

A INFLUÊNCIA DA REDE BRASIL SUL

Longe da erudição cultural de Nahum Sirotsky, o jornalista que idealizou a antiga revista Senhor (1959-1964) e sua linha editorial sofisticada, seus parentes da Rede Brasil Sul se comprometem com o conservadorismo midiático auxiliado pelas parcerias com as Organizações Globo.

No âmbito radiofônico, seu carro-chefe é a rede de rádios Atlântida FM, que organiza o festival do mesmo nome. A Atlântida é conhecida pelo seu formato de rádio pop, mas ultimamente possui inclinação bastante popularesca. A rádio lançou a axé-music no Sul do país, criando uma reserva de mercado na região, sobretudo nos Estados do Rio Grande do Sul e Santa Catarina.

O mercado brega-popularesco, sob a influência da RBS e da famiglia Sirotsky, fortaleceu de tal forma que hoje até mesmo ex-integrantes do Big Brother Brasil passam efemérides em Florianópolis, que vira também um "pólo" de ídolos neo-bregas se apresentando em eventos diversos, sobretudo para plateias vip.

A parceria com as Organizações Globo faz com que os ídolos brega-popularescos em geral sejam aceitos pelo público sulista a pretexto de serem "artistas de projeção nacional", permitindo assim que a mediocrização cultural que atinge cidades como Belém, Salvador e Goiânia atinja também Florianópolis e Porto Alegre.

Com isso, a região Sul acaba não escapando desse processo todo, que atinge até mesmo plateias de classe média alta e de nível universitário. O que faz com que mesmo o Sul do país deixa de ser um oásis de cultura de alto nível diante da hegemonia quase totalitária do brega-popularesco.

O coronelismo também toma chimarrão e possui a barriga verde.

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