segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

ENTRETENIMENTO: INDÚSTRIA E GANÂNCIA


Por Alexandre Figueiredo

Ontem, de madrugada, ocorreu uma das piores tragédias envolvendo jovens no Brasil, um incêndio na boate Kiss, em Santa Maria (RS), durante uma festa de universitários, que causou centenas de mortos e milhares de feridos.

A ocorrência se deu quando o vocalista de uma banda que se apresentava na ocasião fez um espetáculo pirotécnico, que teria causado o incêndio no local. Houve correria, gritos e empurrões, além do fato dos seguranças terem barrado as saídas, aumentando a tragédia. A boate tinha um alvará de segurança vencido.

A tragédia chegou a ter um número de mortos anunciado para 245, mas até a redação deste texto o número foi reduzido para 232. Mesmo assim, é um número muito grande. E a tragédia repercutiu na mídia estrangeira, principalmente em portais como os da rede norte-americana CNN e na inglesa BBC.

O fato atenta pela superestimação do entretenimento no Brasil, que movimenta uma indústria voraz que, de tão grande, atrai o surgimento de empresas sem a menor segurança. Empresas que funcionam sem alvará ou alvará vencido, que vivem sob a obsessão do lucro que fazem seus donos cometerem injustiças.

As portas foram fechadas e os seguranças teriam dificultado os frequentadores de saírem do local. Isso porque os donos queriam que os frequentadores entregassem as comandas, que são aqueles talões usados na escolha e na compra de refeições e bebidas num restaurante ou lanchonete.

MERCADO CRUEL

A ganância dos empresários nessa supervalorização do entretenimento faz com que haja um mercado cruel, que envolve casas noturnas funcionando de forma irregular - como a boate Kiss - , agências de famosos com regime escravista, como se vê no "forró eletrônico" e uma mídia que quer que a juventude veja a diversão como um fim em si mesmo, e não como um lazer para alegrar a alma.

A própria exploração midiática da ideia de diversão faz com que os jovens, nos últimos dez anos, sejam desaconselhados a ler e trabalhar sua inteligência. Impõe-se a diversão em excesso, não aquela que faz rimar lazer e prazer e que ameniza as tensões cotidianas, mas simplesmente o mero ato de sair para boates, eventos de entretenimento, para favorecer o lucro das empresas envolvidas.

A grande mídia até inventou suas gírias relacionadas, como a indigesta "balada", que não traz qualquer significado relevante nem tem serventia social, sendo apenas uma forma preguiçosa para a juventude evitar ter um vocabulário diversificado que inclua "festa", "jantar com os amigos", "agitação", "noitada", "boemia" etc. Até ficar parado comendo bobagem no restaurante virou "cair na balada".

Por isso criou-se mais uma demanda de pessoas empurradas para a curtição vazia e aleatória do que pessoas que realmente sabem se divertir, que possam ler livros, saber de História, Política e admirar intelectuais sérios sem deixar de dar risadas e brincar de forma saudável.

Nada disso. O que se vê são pessoas que sentem obsessão pelas gandaias, pelo narcisismo das noitadas cheias de bebedeira e drogas, pessoas que só querem brincar de "torpedos" nos telefones celulares, para dar flertes que não dão em relação amorosa alguma. Só querem sexo, drogas e diversão, como cantou Paulo Miklos na música "Diversão", dos Titãs.

Cria-se uma demanda de consumidores vorazes de entretenimento, e uma indústria cruel e exploradora. De um lado, jovens que precisam curtir a "noite" a qualquer preço, com todos os riscos que os expõem à violência sob todos os aspectos, até no trânsito. De outro, empresários que abrem mão da segurança, do respeito humano e outras medidas legais em nome do lucro.

A tragédia de Santa Maria foi um grande alerta para o risco que a obsessão pelo entretenimento pode causar, trazendo para sempre muita dor e sofrimento para várias famílias.

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