sábado, 26 de janeiro de 2013

DESESPERADO, O BREGA QUER SE PASSAR POR "ALTERNATIVO"

GABY AMARANTOS, HARMONIA DO SAMBA, ODAIR JOSÉ E RAÇA NEGRA - Quando a música brega tenta se apropriar do mercado alternativo brasileiro.

Por Alexandre Figueiredo

A cantora de tecnobrega Gaby Amarantos fez sua primeira apelação ao classificar a nova música dos Strokes, "One Way Trigger", como "supertecnobrega", apenas porque a canção possui um acorde "bizarro" nos teclados.

O episódio é mais um que revela o quanto o brega tem de tendencioso e pretensioso. É quando seus ídolos, incapazes de permanecer no mainstream por muito tempo - evidentemente, por conta de sua música descartável - , tentam recuperar desesperadamente o estrelato se passando por "cult" ou "alternativos".

Com uma blindagem que inclui de barões da mídia a empresários do setor do entretenimento, o brega-popularesco volta e meia vive esses surtos pseudo-vanguardistas. Nos últimos dez anos, quando se intensificou a campanha midiática e intelectual em torno do brega-popularesco, isso tornou-se um complemento à imagem de pretensos "coitadinhos" que os ídolos promovem para recuperar o sucesso.

Tanto o brega do passado, como Odair José, quanto o brega "mais futurista", que é o "funk carioca", se deixaram valer dessa imagem pseudo-alternativa, para tentar evitar o ostracismo e conquistar reservas de mercado novas, ligadas à juventude das zonas urbanas. O "funk carioca" já havia feito sua retórica usando, falsamente, supostas referências que iam da Semana de Arte Moderna ao punk e pós-punk.

Odair chegou a ganhar um tributo de bandas "indie" - sobretudo aquelas que, incapazes de fazer sucesso, se autopromovem às custas da "provocação" dos covers bregas - , não bastasse a tendenciosa inclusão de suas músicas, anos antes, numa coletânea chamada Brazilian Nuggets, que fica a dever diante da coletânea Nuggets, de rock psicodélico, que a inspirou.

Afinal, pelo menos as "pepitas" do rock antigo, na coletânea organizada pelo músico de protopunk Lenny Kaye, não incluíam Pat Boone ou Bobby Darin (em que pese ele ter morrido de overdose de drogas), ídolos comportadinhos que ninguém se atreveu, pelo que se saiba, a chamá-los de "psicodélicos". Mas aqui Odair José é "psicodélico". Vá entender.

O Harmonia do Samba foi definido por uma revista baiana, a "Só", dedicada ao "pagodão" local, como um "grupo de pagode curtido por alternativos". Não é a primeira bobagem do gênero, já que outros grupos como Psirico e Saiddy Bamba haviam sido classificados pela imprensa local como underground.

Já o grupo Raça Negra, pioneiro do sambrega ou "pagode romântico" dos anos 90, também ganhou, a exemplo de Odair José, um tributo tendenciosamente alternativo, com direito a uma moça de aparência bem parecida àquelas que nos EUA normalmente curtem Sonic Youth e Mudhoney.

Quanto ao comentário "entusiasmado" de Gaby Amarantos, que só faltou botar a culpa em Julian Casablancas pelo surgimento do tecnobrega, ele foi equivocado. O portal de celebridades Zimbio foi mais feliz, comparando a nova música com o A-ha. Se bem que a comparação ainda é imprecisa, já que os Strokes não fazem tecnopop, mas new wave bem naquela linha da safra 1977-1982.

O BREGA É QUE COPIA REFERÊNCIAS, NÃO O CONTRÁRIO

A associação do brega à cultura alternativa torna-se uma farsa marqueteira e mercadológica, e a máscara cai quando se constata que o brega não passa de uma "colcha de retalhos", de um "Frankestein" constituído de "restos" de tendências musicais dispersamente assimiladas pelas emissoras de rádio "populares", mas, nunca nos esqueçamos, controladas por ricas oligarquias regionais.

Não é o alternativo que copia o brega, é o brega que copia tudo o que vê pela frente. Já se copiou até o som dos Byrds no brega setentista. O brega é que é retardatário, sempre é o último a saber dos modismos de temporada, podendo ser uma música orquestral de quinta categoria ou um pop semi-acústico da linha do Bread.

Portanto, não é a banda de Julian Casablancas que virou "supertecnobrega". O tecnobrega é que tenta imitar o som de fora. No Pará, imitou-se até a juju music, tipo de ritmo afro-caribenho, para se fazer a lambada. O "forró eletrônico" de Calcinha Preta e afins também se valeu pelo parasitismo da música estrangeira.

Se alguém ouvir "Ex Mai Love" de Gaby Amarantos e pegar carona no que ela disse sobre os Strokes, vai pensar que os Ventures e o Dick Dale eram tecnobregas. Uma coisa tão absurda quanto dizer que hambúrguer é comida de vegetariano porque tem alface e tomate no recheio.

Portanto, não valeu a comparação dos Strokes com o tecnobrega. Julian Casablancas passa longe disso. O que ele quer é trazer para as novas gerações aquele som imediatamente pós-punk que existiu na virada dos anos 70 para os 80, que ia do Television ao Wire, do Pere Ubu aos B-52's, do Devo ao Teardrop Explodes. Sem mais piadinhas, Gaby Amarantos!!

Um comentário:

  1. Tem uma música de um grupo novo, Passion Pit, chamada "I'll be alright", que tem efeitos de teclado que, se for pelo ponto de vista de Gaby Amarantos, poderia ser também "tecnobrega" ou "tecnoforró". Ridículo.

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