segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

BREGA-POPULARESCO, ESPETÁCULO E IMPRUDÊNCIAS

A BANDA GURIZADA FANDANGUEIRA, QUE SE APRESENTOU EM SANTA MARIA NO MOMENTO DA TRAGÉDIA: O SANFONEIRO DANILO JAQUES MORREU NA OCASIÃO.

Por Alexandre Figueiredo

O brega-popularesco, que é a "cultura popular" promovida pelo mercado e pela grande mídia e que, do contrário que muitos pensam, tem muito menos a ver com o folclore das classes populares e mais com o hit-parade adaptado aos contextos brasileiros, é imprudente por excelência.

Afinal, seu universo é marcado pela mediocridade cultural e artística, que em muitos casos carece até mesmo de estratégia. Em criatividade, então, nem se fala, porque ela é quase nula. A intelectualidade dominante tenta relativizar, definindo essa sub-criatividade como "recriação", "novos valores artísticos" ou coisa parecida, mas isso não tem fundamento lógico.

Mesmo fora da música, o espetáculo brega-popularesco é imprudente porque não toma cautelas em muitas posições. No âmbito das chamadas "boazudas", por exemplo, as moças podem tão somente mostrar seus corpos de forma obsessiva, seja nas praias, ensaios de escolas de samba ou mesmo ocasiões impróprias, "sensualizando" até mesmo em missas de igreja, que o mercadão deixa como está.

Isso faz com que seus ídolos diversos cometam gafes ou deixem ocorrer transtornos diversos. A ex-BBB Maíra Cardi "sensualizando" num aeroporto, Alexandre Pires envolvido em clipe racista, MC Leonardo caindo em contradições quanto à "função educativa" do "funk carioca", os defensores de Waldick Soriano pedindo a "verdade histórica" exceto para este cantor brega, que sempre foi ultraconservador.

No caso de Waldick Soriano, chegou-se ao ponto de, misteriosamente, dois vídeos de uma entrevista com o cantor de "Eu Não Sou Cachorro, Não" para o TV Mulher de 1983, em que ele se mostrava machista e direitista, terem sido retirados do portal Globo Vídeos, provavelmente sob pressão do lobby de Paulo César Araújo e Patrícia Pillar, atriz da Globo que havia feito documentário e livro sobre o cantor.

Mas até mesmo tragédias ocorrem por conta disso. É o caso da banda gaúcha de tchê music, Gurizada Fandangueira, que havia feito um espetáculo pirotécnico sem a menor necessidade na boate Kiss, em Santa Maria, interior do Rio Grande do Sul.

Incapaz de se destacar pela música em si - não muito diferente de qualquer conjunto do gênero que, dizem, seria a versão original do "sertanejo universitário" - , o grupo sempre colocava como clímax em suas apresentações o espetáculo pirotécnico.

Isso contribuiu para o trágico incêndio que matou mais de 200 pessoas, ontem de madrugada, uma tragédia considerada uma das piores da história do Rio Grande do Sul. Um dos integrantes do grupo, o sanfoneiro Danilo Jaques, acabou perdendo a vida no incidente, agravado pelas irregularidades da boate, da negligência de seus donos e até do fato de que a casa noturna tinha alvará vencido.

Mas a banda deveria ter sabido que não se faz espetáculo pirotécnico em lugares fechados. Deveria ter poupado a "façanha" para apresentações em lugares abertos, de preferência sem edifícios à volta, evitando usar sinalizadores numa casa bastante fechada como aquela.

Embora seus integrantes alegassem que nunca havia dado errado o uso de sinalizadores, os técnicos desaconselham a realização de espetáculos pirotécnicos em lugares fechados, porque eles sempre oferecem risco contra a vida dos presentes.

Na manhã de hoje, o vocalista da banda, Marcelo de Jesus dos Santos, o segurança de palco da banda e o empresário Elissandro Sphor, conhecido como Kiko, tiveram prisão decretada. Sphor se encontra internado no Hospital Santa Lúcia, em Cruz Alta, por ter sido intoxicado com a fumaça do incêndio, mas deve ir diretamente para a prisão quando receber alta.

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