domingo, 20 de janeiro de 2013

BARÕES DA MÍDIA E O "ESPETÁCULO" DA AXÉ-MUSIC

BELL MARQUES, DO CHICLETE COM BANANA, É UM DOS MAGNATAS DO ENTRETENIMENTO NA BAHIA, SENDO ATÉ LATIFUNDIÁRIO.

Por Alexandre Figueiredo

A axé-music é marcada por sua megalomania e pretensiosismo. Nos bastidores, a chamada "música baiana" é conhecida também por ser imperialista, escravista e socialmente preconceituosa, mesmo quando investe em ritmos aparentemente consumidos pelas classes populares, como o arrocha e o "pagodão".

Isso porque o arrocha e o "pagodão" apostam na exploração depreciativa da imagem das classes pobres, idiotizando-as e veiculando valores machistas e até racistas, como no caso do "pagodão", que trabalham uma imagem negativa do negro baiano, tido como "tarado" e "abobalhado".

Hoje temos até o "pagodão proibidão", a exemplo do "funk carioca", quando há letras exaltando a criminalidade e pegando pesado no conteúdo pornográfico. Nesse mercado pagodeiro, as moças da periferia são induzidas, pela propaganda midiática, a praticar assédio sexual e até a se tornarem vulneráveis à prostituição e ao turismo sexual, para alimentar o mercado em torno da "sensualidade" baiana.

As relações da axé-music com a grande mídia já são muito conhecidas. A axé-music é "filha" direta do carlismo, o regime político conservador de Antônio Carlos Magalhães (o "coronel" baiano que atravessou todas as encarnações da UDN: a própria UDN, ARENA, PDS, PFL e DEM). Em nome do turismo, ACM estimulou mídia e mercado a traçarem um tipo de "cultura baiana" ligado a interesses turísticos locais.

Assim, criou-se a axé-music, um mercado musicalmente asséptico, supostamente eclético, altamente tendencioso, que se fortaleceu quando Magalhães, na condição de ministro das Comunicações de José Sarney, concedeu emissoras de rádio para aliados políticos.

Com essa farra de concessões, criaram-se os barões da grande mídia local: Cristóvão Ferreira (e seu filho Cristovinho, depois da morte do pai), Pedro Irujo, Marcos Medrado e Mário Kertèsz, entre outros. Marcos Medrado tornou-se pedetista por acidente, mas continua alinhado na direita ruralista baiana. Kertèsz é o "genérico" baiano de Paulo Maluf, mas com apetite midiático próximo a Fernando Collor.

As concessões também complementaram o fortalecimento de mercado de blocos carnavalescos baianos, que se tornaram tão ricos e hegemônicos que praticamente eles se tornaram donos da cultura baiana. Quem não estiver com a axé-music que caia fora. Bahia: ame-a ou deixe-a. Se bem que os que realmente amam a Bahia é que estão fora dela.

SALVADOR TEM POPULAÇÃO COM MAIORIA MASCULINA; IBGE IGNORA

A Bahia está vivendo um período de degradação social, com crescimento demográfico desordenado vindo sobretudo do êxodo rural camuflado por ônibus supostamente vinculados às secretarias de saúde de cidades do interior. Sob o pretexto de levar interioranos para hospitais públicos de Salvador, esses ônibus deixam essas pessoas na capital baiana e elas vivem à própria sorte.

É um contingente tão grande de pessoas, sobretudo do sexo masculino, que os dados do recenseamento, manipulados tendenciosamente, deixam de incluir centenas de milhares de homens que habitam a capital baiana, e que continuam tendo a residência creditada às suas cidades de origem.

Esses dados são manipulados pelas autoridades baianas, que não querem prejudicar o turismo sexual de Salvador e, por outro lado, precisam evitar que o êxodo rural transforme as cidades interioranas em "fantasmas", creditando, mesmo ficticiosamente, um "expressivo" número de habitantes que permita seus prefeitos e séquitos a pedirem uma boa quantia de verbas públicas, mesmo que seja para eles mesmos.

Juntando a manobra política acima mencionada, há o fato de que recenseadores do IBGE deixam, por razões de segurança, de irem às entranhas das favelas - onde há o "grosso" da população masculina - ou a entrevistar moradores de rua, ocultando em seus dados um grande contingente de homens relacionados a tais populações, que nem sequer se tornam números para o instituto.

Com isso e mais os interesses do mercado turístico-hoteleiro, Salvador, que tem uma população majoritariamente masculina que se nota em qualquer andança pelas ruas da capital baiana, no entanto é oficialmente tida como cidade "com maioria de mulheres na população". O dado, embora defendido tanto por movimentos sociais quanto pela mídia machista local, é irreal.

Afinal, os ônibus lotados de homens, as ruas cheias de machos andando por todo canto, tudo isso mostra Salvador como uma "cidade dos homens". Mas para mascarar essa realidade, as moças baianas usam até o eufemismo "não existe homens", "para justificar" a ausência de muitos deles nas boates noturnas - muitos dormem cedo para trabalhar no dia seguinte - , quando o termo quer dizer "só falta homens bonitos".

Assim, enquanto Salvador evita contrair novas dívidas sociais ao esconder de sua população milhares de homens pobres, protegendo também o mercado turístico-hoteleiro que se alimenta da imagem fictícia da "cidade-mulher", as cidades do interior, muito atrasadas, precisam creditar para si gente que não mora mais nelas, para permitir que os políticos locais peçam mais verbas do Governo Federal.

"PAGODÃO" E NARCOTRÁFICO

A decadência musical baiana ocorre a olhos vistos que até mesmo os intelectuais que defendiam essa música, a pretexto de muito relativismo, estão sendo contestados por outros intelectuais mais renomados. Até porque nomes como Milton Moura e Roberto Albergaria, professores da UFBA, tornaram-se astros da grande mídia local e defendem valores socialmente duvidosos como a glamourização da pobreza e o machismo.

O "pagodão", que já era identificado com as baixarias a partir do "fenômeno" É O Tchan, nos anos 90, e já era afeito à imagem depreciativa do povo negro através da geração de Psirico, Guig Guetto e Pagodart, nos últimos anos havia piorado com letras cada vez mais machistas e até mesmo com um caso de músicos envolvidos em estupro e uma facção de "proibidão".

Laudo policial já comprovou a denúncia de duas moças que teriam sido estupradas por integrantes do grupo New Hit, numa apresentação no interior da Bahia. E, depois, houve casos de dançarinas de "pagodão" envolvidas com traficantes de drogas de Salvador, como Kelly Ciclone, recentemente assassinada, e Nem Gorda, que andou sendo muito popular no meio.

Se musicalmente o "pagodão" era extremamente duvidoso, explorando uma leitura caricata do samba de gafieira, partindo para um engodo musical onde vocal e ritmo se desencontram - o ritmo num andamento pesado e um vocal em dicção acelerada - , nos últimos anos as posturas racistas e machistas acabaram acrescidas por letras mais grotescas e alusões sutis à criminalidade, como no "funk proibidão".

Mas mesmo na "elite", a coisa não é boa, vide as denúncias de exploração de músicos de apoio pelos medalhões da axé-music, como Chiclete Com Banana (de Bell Marques), Asa de Águia (de Durval Lélis) e até Ivete Sangalo. Sem falar da música, de caráter extremamente duvidoso, geralmente voltada a falsos frevos, falsos afoxés e até disco music.

Os medalhões da axé-music são muito, muito ricos. E já detém monopólio de mercado nos públicos de classes A, B e C na Bahia. Não há espaço para o rock, para a MPB, para outras manifestações culturais fora da axé-music, a não ser que sejam cooptadas por esta. Só que ninguém quer fazer papel de coadjuvante para o estrelismo e a autopromoção de Ivete Sangalo, Cláudia Leitte e quejandos.

As rádios, os blocos de carnaval, as emissoras de televisão - sobretudo a TV Bahia, dos herdeiros de Antônio Carlos Magalhães - , são aliados na preservação dessa hegemonia e desse "espetáculo" que a grande mídia nacional vende como "maravilhoso".

Até mesmo a famiglia Sirotsky, da Rede Brasil Sul, dá seu aval para empurrar a axé-music para catarinenses e gaúchos. E a Globo e a Folha de São Paulo acabaram fortalecendo o poderio nacional da axé-music e seu imperialismo mercadológico que permite que a axé-music invada os redutos culturais dos outros, mas impede que outros expressem sua cultura em Salvador.

Enquanto isso, um Mário Kertèsz da vida, feito um sub-Bóris Casoy metido a progressista, tenta controlar as esquerdas na Bahia. Não consegue. Seu apoio ao PT deu pontos ao carlismo, com o neto de Antônio Carlos Magalhães assumindo a prefeitura de Salvador. Depois dizem que a Rádio Metrópole é um grande sucesso em Salvador. Não é. Na verdade, é mais um engodo na Bahia decaída pelo poder da axé-music.

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