sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

ALI KAMEL E A FALTA DE AUTOCRÍTICA DO BRASIL MEDÍOCRE


Por Alexandre Figueiredo

O episódio do processo de Ali Kamel contra o blogueiro e jornalista da Rede Record, Rodrigo Vianna, é bastante ilustrativo neste Brasil dominado pela mediocridade e pelo provincianismo cujos beneficiários são pessoas que não aceitam críticas e usam qualquer artifício para desmoralizar quem lhes faça alguma reprimenda.

Rodrigo não é o primeiro a ser processado pelo diretor de jornalismo da Globo. Kamel havia processado Paulo Henrique Amorim e o Sr. Cloaca, além de outros blogueiros progressistas. Por trás desse pretexto de "danos morais", Kamel na verdade quer combater a blogosfera, que anda não só arranhando a reputação das Organizações Globo como lhe tirou boa parte de seu poder de formador de opinião.

Se Kamel não consegue ser um formador de opinião, ele parte para cima de outros formadores de opinião melhores do que ele. Além disso, Kamel acabou mostrando que perdeu a esportiva diante das comparações anedóticas feitas com um ator pornográfico com o mesmo nome.

A falta de autocrítica é comum em quem aposta na mediocridade como fórmula para o sucesso. O Brasil se encontra atrasado em muitos aspectos, seja no âmbito da mídia, do entretenimento, da educação e mesmo da mobilidade urbana (onde prevalece um modelo oriundo da ditadura militar que muitos ainda acreditam ser "futurista" e "progressista").

E vivemos a hegemonia do "estabelecido" que, em diversos aspectos, envolve valores nem sempre benéficos à sociedade, alguns eticamente duvidosos, outros com sérias limitações para a vida das pessoas e até com alguns prejuízos potenciais. Mas são valores defendidos por minorias de interessados, aos quais cabe defendê-los da maneira mais agressiva.

Três métodos principais os reacionários de plantão agem em defesa do "estabelecido", seja na mídia, na política, no entretenimento ou nas simples regras sociais. Os mais extremistas apelam para "brindar" seus discordantes com mensagens de e-mail infectadas com vírus, ou então os ameaçam com haqueagem explícita.

Já os mais cafajestes apelam para trolagem nas mensagens na Internet ou, quando muito, a blogues ofensivos. Usam pseudônimos, mas há casos de uns que chegam mesmo a se arriscar em usar nomes verdadeiros. Os comentários alternam o humor depreciativo do bullying a furiosa agressão verbal, passando até mesmo por paródias das mais desmoralizantes.

Nestes dois casos, não entra o caso de Ali Kamel, para o qual cabe um terceiro, que é usar o aparato legal para humilhar alguém. Kamel busca desmoralizar a blogosfera progressista arrumando algum gancho para processar judicialmente seus discordantes.

Com isso, Kamel tenta promover uma imagem depreciativa da blogosfera progressista na opinião pública mais vulnerável aos impérios midiáticos. Aparentemente, não houve uma mensagem de grande impacto apoiando o processo de Kamel contra Vianna, mas sem dúvida alguma os "calunistas" da grande mídia devem estar solidários ao chefão jornalístico da Globo.

Mas, fora da órbita do jornalismo político, a falta de autocrítica e a fúria processual de Kamel encontra similares nas ameaças que o cantor sambrega Alexandre Pires fez contra a revista Exame Vip por conta de piadas feitas contra ele, e a ex-paniquete Nicole Bahls, que ameaçou processar quem fosse chamá-la de "garota de programa".

Falta autocrítica e sobra arrogância. Muitas pessoas ficam famosas sem saber direito o que fazem, o que não fazem e o que querem fazer. Só depois do auge do sucesso tentam parecer "certinhos", mas, além de não romperem com a antiga mediocridade - só deixam de fazer o que havia de muito pior nelas - , aumentam a arrogância achando que ser veterano é necessariamente sinônimo de ser genial. Não é.

Até que ponto existe os limites entre a paródia e a humilhação, a moralidade e a crueldade, é algo que merece discussões que não cabem neste texto, até porque não é este o tema. Mas a verdade é que, no Brasil, ficou muito comum o "princípio" de muita gente cometer gafes primeiro e exigir respeito depois.

O Brasil regrediu tanto - reflexo da ditadura militar e seus diversos estragos feitos até para além das fronteiras político-econômicas - que, culturalmente, estamos dominados pela mediocridade mais explícita, que faz apenas os medíocres de 20 anos atrás serem apenas menos medíocres, mas isso não quer dizer que eles tenham virado "geniais".

Só que, quando vemos alguma coisa errada, é grande o risco de sermos humilhados por alguém, seja um internauta que nos ofende com blogues ou mensagens ofensivas, seja um jornalista ou celebridade que move um processo judicial contra nós.

Temos que aceitar a mediocridade cultural e a prepotência da mídia, as visões distorcidas da realidade que corrompem até mesmo a Internet, e até mesmo gírias a mídia impõe para nós com mãos de ferro. Somos escravos do mercado e dos impérios midiáticos, que mexem na nossa cultura sob aplausos de uma complacente intelectualidade que apoia tudo de olhos vendados.

Quantas lições o AI-5 deu para muita gente, e naquela época havia tanto esse ato, um artifício legal para o arbítrio do poder militar, quanto atos clandestinos de vandalismo e tortura feitos seja pelo DOI-CODI, seja por grupos tipo Comando de Caça aos Comunistas. A morte por estrangulamento do jornalista Wladimir Herzog é um caso que até une esses dois aspectos.

Hoje o que vemos são pessoas submissas à mídia, aos tecnocratas, aos políticos, ou mesmo os filhos, sobrinhos e netos desses interessados, que se irritam quando aquilo em que acreditam é largamente contestado na Internet. Daí os comentários furiosos, depreciativos e outras represálias.

Com quase cinquenta anos de um projeto de país traçado pela ditadura militar e seus parceiros civis, que afetou o país não só política e economicamente, mas sobretudo no âmbito sócio-cultural, até agora nada superados em muitos aspectos, temos um cenário retrógrado de uma cultura medíocre que permite que a sociedade brasileira fique submissa aos imperativos nem sempre justos às nossas vidas.

E hoje ninguém deve estar entendendo direito o caso Ali Kamel X Rodrigo Vianna. Deve achar graça a comparação do chefão do jornalismo da Globo com um ator pornô. Uns, na boa fé, acabam defendendo a condenação de Vianna, que por enquanto teve o valor de indenização cobrada reduzido de R$ 50 mil para R$ 20 mil. Vianna já entrou com processo pedindo a anulação da condenação.

Só que Vianna não fez galhofa com a homonímia entre jornalista e ator, e posso garantir que acompanho o blogue de Vianna e ele sempre procura ser elegante nas críticas apresentadas. E ser enérgico, muitas vezes, não é perder a compostura e o respeito, mas sim criticar com rigor aquilo que está errado.

O problema está com o próprio Ali Kamel, o da Globo, que, além de mostrar sua prepotência movendo um processo sem permitir que Vianna mostre ao menos seus recursos de defesa - ele teve que recorrer só depois de condenado - , mostra o risco que a grande imprensa traz para a verdadeira democracia, na medida em que se expressa cada vez mais ao lado de interesses particulares em detrimento dos públicos.

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