sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

A "VERDADEIRA MPB" DA VELHA MÍDIA


Por Alexandre Figueiredo

A "urubologia" cultural volta a dar os berros. Nas redes sociais, o horror moralista (o verdadeiro) da sociedade temerosa em ver o povo pobre abandonando a cafonice cultural que aquece o mercado, volta à tona.

Assustados com as críticas, os arautos da cafonice mostram seu pavor quando ouvem que o brega-popularesco não é MPB. Sentem horror, achando que para ser MPB basta lotar plateias, vender discos e estar em evidência na mídia.

Sem compreender o que é realmente a música popular, esses "urubólogos" teleguiados pelo poder da velha grande mídia só pensam na quantidade e não na qualidade. Ficam impressionados com números, achando que a cultura se baseia num simples processo de atrair público. Que, por sinal, vai que nem gado através da persuasão midiática.

Recentemente, vieram nas redes sociais comentários a respeito dos ídolos brega-popularescos, como Michel Teló, Cláudia Leitte e outros. Relembrando os tempos da "MPB de mentirinha" de Alexandre Pires, Chitãozinho & Xororó e outros cinicamente classificados de "verdadeira MPB" só porque lotam plateias, sem dar qualquer contribuição relevante à Música Popular Brasileira, o discurso se repete.

E aí haja "verdadeira MPB" e "MPB com P maiúsculo", que é o que esses "urubólogos" fazem, sempre defendendo os sucessos comerciais a título de uma popularidade que, sabemos, é muito mais fruto da pressão publicitária do poder midiático do que de qualquer identificação com a cultura popular.

BARÕES DA MÍDIA E ATÉ MULTINACIONAIS QUEREM DITAR NORMAS

Horrorizados com a crítica que se faz, com frequência cada vez maior, à mediocrização cultural expressa por esses ídolos "populares", vários internautas e até blogueiros, temendo que o povo pobre abandone esses ídolos midiáticos em prol de uma cultura melhor, acabam batendo o pé dizendo que "verdadeira MPB" é a dos lotadores de plateias que vão toda semana ao Domingão do Faustão.

Tentando desmentir a influência da velha mídia, essas pessoas mal conseguem disfarçar que a dita "verdadeira MPB" de bregas arrumadinhos é patrocinada, com gosto, por rádios FM controladas por oligarquias regionais, pelos barões da mídia nacionais e pelas empresas multinacionais.

Chega-se ao ponto de entregarmos às multinacionais o destino do samba ou das modas de viola rurais. A sociedade que defende, "solidariamente", o brega e seus derivados, que acham ser a tal "MPB com P maiúsculo", na verdade defende o mercado e os ídolos que rendem muito dinheiro para gravadoras, meios de comunicação e empresas de entretenimento em geral.

Ver que empresas estrangeiras ditam normas sobre o que deve ser o samba no Brasil - aquela assepsia sonora ruim da cabeça e doente do pé de Thiaguinho e Péricles, Alexandre Pires e Belo etc - ou a música rural - aquela esquizofrenia que vai de Chitãozinho & Xororó a Michel Teló - é algo muito assustador, além desse lobby que elas e a grande mídia exercem na opinião pública.

Recentemente, foi lançado um disco chamado Moda Sertaneja, pela Som Livre (Organizações Globo), que não passa de uma desculpa para vender os bregalhões Chitãozinho & Xororó como se fossem "música de raiz".

A Som Livre nunca se preocupou em recuperar antigos clássicos da música caipira, algo que o selo paraense Revivendo já faz há uns 30 anos, mas teve que fazê-lo como um gancho para uma tendenciosa e oportunista reabilitação da dupla que esteve na frente das primeiras diluições violentas da música caipira e cujos grandes sucessos não passam de apropriação de canções alheias.

Há muita choradeira em prol do brega-popularesco que a gente até imagina que há todo um coral, uma "Banda de Música da UDN" querendo que uma MPB FM, no Rio de Janeiro, se limite a ser uma síntese do que as três rádios bregas tocam juntas - O Dia FM, Nativa FM e Beat 98 - , discriminando o que realmente é MPB para os horários da madrugada, exílio potencial para a cultura de qualidade no rádio.

Isso é terrível, porque nesse lobby incluem até mesmo cientistas sociais, com suas monografias, cineastas documentaristas, jornalistas e tudo o mais, gente que está atrelada à velha grande mídia mas finge que não está. Mas seus pensamentos, embora transitem na imprensa de esquerda, estão todos lá nas páginas da Folha de São Paulo, O Globo, Caras e até Veja.

Isso não contribui para a verdadeira cultura brasileira. Primeiro, porque o brega-popularesco já tem seus espaços amplos demais, não precisa abocanhar os espaços da MPB. Segundo, porque não resolve transformar os ídolos bregas numa pseudo-MPB de roupa de gala, gravando covers da MPB autêntica, porque isso nada acrescenta a seus talentos medíocres e duvidosos.

A choradeira, no entanto, têm seu claro tom de preconceito, embora se afirme "sem preconceitos". É elitista, purista, higienista, embora diga o contrário. Afinal, querem substituir a verdadeira cultura brasileira, orgânica, vibrante e honesta, pelo jabaculê mercantilista dos ídolos "de massa", apoiados sobretudo pela Rede Globo, e que, eles sim, representam uma música asséptica e sem muita serventia para a arte e o conhecimento.

Portanto, a "verdadeira MPB" da grande mídia e seus adeptos não é mais do que uma pseudo-MPB que não acrescenta coisa alguma à cultura das classes populares.

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