domingo, 13 de janeiro de 2013

A SÉRIA CRISE DA CULTURA BRASILEIRA

A MÚSICA PASTEURIZADA DE THIAGUINHO, UM DOS ÍDOLOS NEO-BREGAS DA VELHA GRANDE MÍDIA.

Por Alexandre Figueiredo

"Exportamos o não ser e importamos o ser", disse Roland Corbisier, um dos membros-fundadores do ISEB (Instituto Superior de Estudos Brasileiros), há mais de 50 anos. Naquela época, era o ápice de uma geração de intelectuais que desenvolveram o progresso da cultura brasileira desde a Semana de Arte Moderna de São Paulo, em 1922.

Recentemente, perdemos um de seus últimos remanescentes, Oscar Niemeyer. O que ele contribuiu para a cultura brasileira é algo que um texto é insuficiente de mostrar, já que Niemeyer, além de arquiteto e cronista, foi um importante agitador cultural e sua participação incluiu até mesmo nos projetos da fundação do IPHAN e da Universidade de Brasília, na qual chegou a ser um dos professores.

Hoje o que vemos é uma preocupação maior com a comercialização cultural. Discutimos apenas dinheiro, investimentos, patrocínios, acesso às tais "novas mídias" que no entanto não passam apenas de mecanismos tecnológicos como quaisquer outros. "Twitterizar" ou "Facebooquizar" os movimentos sociais será inútil se a essência desses movimentos se encontrar enfraquecida.

Num recente artigo de Vladimir Safatle, um dos críticos das esquerdas acomodadas e debilitadas no país, ele expressou preocupação com a mercantilização da cultura brasileira, através do cinema da Globo Filmes, das artes plásticas de Vik Muniz e da "música popular" que não avalia criticamente a problemática sócio-cultural de nosso país.

O que se nota é apenas a preocupação com o desenvolvimento de estereótipos de cultura popular, expostos mais como uma expressão para consumo, dentro de um modelo de financiamentos públicos que acaba favorecendo os interesses dos departamentos de marketing das empresas, sobretudo as de Comunicação e de promoção de eventos, que influem até sobre a intelectualidade brasileira.

Nessa "cultura", temos que nos contentar em "ser" e "continuar sendo" o que "não somos", porque é "isso" que "somos", uma colcha de retalhos do que vem de fora, importados de outros lugares e outras pessoas. Apenas brincamos de ser o "outro" pensando sermos "nós mesmos",  prejudicando nossas identidades reais com sub-identidades de cunho popularesco difundidas pela grande mídia.

Para piorar, as esquerdas brasileiras chegaram a ficar reféns de uma linha de pensamento que, dominada por nomes como Paulo César Araújo e Pedro Alexandre Sanches, servem para os banquetes esquerdistas pensantes ideias claramente influenciadas por Fernando Henrique Cardoso, Francis Fukuyama, Steve Jobs, Otávio Frias Filho e até pela Rede Globo de Televisão (!).

Isso acaba piorando as coisas, na medida em que a intelectualidade que poderia pensar o progresso cultural do Brasil acaba sendo dominada por cientistas sociais e críticos musicais que fazem o serviço da velha mídia, reafirmando com "categoria" os mesmos valores que satisfazem de forma explícita os interesses dos barões midiáticos.

Sob essa influência, acabamos por aceitar um cinema que aposta na glamourização da pobreza ou como meros alimentadores de sucessos popularescos (Tati Quebra-Barraco, Zezé di Camargo & Luciano, Waldick Soriano, Frank Aguiar e Banda Calypso), além de aceitarmos sob o rótulo de "MPB" expressões de gosto duvidoso como Thiaguinho e Michel Teló, os mais novos nomes da "MPB de mentirinha" do brega.

Do mesmo modo, aposta-se em expressões das artes plásticas e do teatro que também apostam na glamourização da pobreza e numa imprensa que vai mais além, espetacularizando a miséria da forma mais estúpida, como é o caso da dita "imprensa popular". A condescendência é tal que ignora-se que, à maneira de um News Of The World, o jornal carioca Expresso seja dos mesmos donos da Rede Globo e O Globo.

Vivemos sob a influência de uma elite intelectual que apenas finge estar desvinculada aos interesses midiáticos. Só que seus "pensadores" se esquecem que o vínculo ideológico está acima de qualquer postura "favorável" ou "desfavorável" aos seus gurus. De que adianta falar mal dos mestres, se há fidelidade "canina" a suas lições?

Daí que, escondidos sob os círculos esquerdistas, seja por pretensiosismo ou medo, intelectuais como Araújo e Sanches acabam reafirmando aquilo que tentam negar: o vínculo essencial às ideias que eles aprenderam de seus "hoje desafetos" ideólogos do neoliberalismo sócio-cultural. Nunca Fernando Henrique Cardoso havia se mostrado tão forte nas veias desses dois intelectuais festejados.

A ojeriza que esses intelectuais tentaram semear em discutir a crise cultural brasileira mostra-se sem efeito. Afinal, não basta apenas abastecer financeiramente a cultura brasileira. A melhoria dos investimentos é apenas um aspecto da coisa, não é tudo. Mas se o dinheiro só serve para reafirmar a hegemonia de expressões de gosto duvidoso, simplesmente o problema ficou resolvido numa metade e agravado em outra.

ELITISMO

Tornou-se inútil definir o "mau gosto" como se fosse uma causa nobre. Isso, com o tempo, fez com que os "admiráveis" intelectuais da moda fossem desmascarados como expressões de um elitismo social não muito diferente de uma Danuza Leão ou de um Instituto Millenium. A inversão discursiva de tentar "transferir" nos seus detratores os rótulos de "elitistas", "preconceituosos" e "higienistas" também não resolveu.

Afinal, à maneira de Danuza Leão ficar apavorada ao ver que até um porteiro de prédio pode ir ao Theatro Municipal, um Milton Moura e um Pedro Alexandre Sanches ficam apavorados quando empregadas domésticas passam a descobrir Itamar Assumpção, Sidney Miller e Miriam Batucada.

A recém-terminada produção Suburbia, dirigida por Luiz Fernando Carvalho e exibida pela Rede Globo, não fez a prometida visão "realista" das periferias, mas apenas uma visão um tanto poética e sensual que, mesmo assim, continuou contribuindo para a glamourização da pobreza típica do nosso cinema de raízes publicitárias.

O pavor de ver uma periferia pensante e criativa fez essa intelectualidade defender as barbaridades popularescas que dominam o mercado. Durante anos achamos que o brega, o "funk carioca", o tecnobrega e outros ritmos brega-popularescos era o futuro do folclore brasileiro, acreditando que basta a elite intelectual "ensinar MPB" para seus ídolos para tudo se resolver numa boa.

Mas isso não trouxe os artistas realmente criativos que tivemos. Nem as bobagens que Zezé di Camargo e DJ Marlboro disseram na imprensa permitiram que eles fossem "artistas de opinião". Confronte as entrevistas deles com as de Chico Buarque e verá o contraste aberrante.

Mas não se trata apenas de Chico Buarque. É só se esforçar e pesquisar antigas entrevistas com Cartola, Luís Gonzaga e outros grandes artistas populares para ver a diferença ainda mais assustadora com os ídolos bregas, neo-bregas e pós-bregas que demonstram total submissão ao mercado.

Entregar o futuro da cultura brasileira a cantores "carneirinhos", da mesma forma que defender um cinema que trate a miséria como "uma coisa bonita", puxado por outras modalidades artísticas que fazem o mesmo, e juntando tudo isso a uma imprensa "popular" policialesca e sensacionalista, não muito diferente daquela de Rupert Murdoch, e musas que só expressam a imagem de objetos sexuais, tudo isso acaba sendo nocivo ao país.

Reduzir a resolução da crise brasileira apenas à melhoria dos investimentos e da tecnologia, mesmo que seja para reafirmar as barbaridades escritas no parágrafo anterior é deixar a crise cultural como está. Apenas financiamos as piores expressões, os piores veículos, os piores canais.

O povo não melhora sua vida com isso, e não melhorou, apesar das promessas feitas pelas apologias intelectualiodes. Convém lutarmos por uma cultura popular verdadeira, como quem defende o fim do analfabetismo e da miséria. E isso não é preconceito nem elitismo nem higienismo. É cidadania de verdade.

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