quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

A NOVA INDÚSTRIA FONOGRÁFICA E AS NOVAS GRANDES MÍDIAS


Por Alexandre Figueiredo

Os pretensos "gurus" da intelectualidade brasileira tentaram fazer prevalecer um ponto de vista em que o mercado fonográfico morreu, que a grande mídia está agonizando e que o mundo se transformará num grande cenário alternativo onde tudo é cultura independente e subversão midiática.

Sim, estamos falando do pessoal de sempre: Pedro Alexandre Sanches, Ronaldo Lemos, Hermano Vianna etc. Os pretensos profetas da subversão cultural, da derrubada total das leis de copyright, da anarquização do mercado e da tuiterização dos movimentos sociais, não conseguem esconder suas contradições e inverdades ideológicas, por trás do seu otimismo falsamente libertário.

Até mesmo suas "previsões" sobre a derrubada da mídia e do mercado soam risíveis, se melhor observadas. E, com uma análise ainda mais atenta, o que Sanches, Lemos, Vianna e companhia pregam sobre as "novas mídias" se baseia, na verdade, numa visão tecnocrática bastante conservadora, baseada nos conceitos neoliberais de informática que se identifica claramente aos ideais do "negócio aberto" de George Soros.

Soros, que em 2010 havia apoiado a candidatura presidencial de José Serra no Brasil, tenta deturpar os conceitos de novas mídias digitais e da liberação das leis sobre direitos autorais. Seu discurso estabelece um aparente enunciado teórico que supostamente indica que os movimentos sociais irão dominar a mídia e a indústria fonográfica e os destinos da humanidade serão decididos pelo clique de um mouse.

Chegam a anunciar até mesmo o termo copyleft, um termo cinicamente usado, até de forma um tanto jocosa, para forçar a associação desse ponto de vista ao ideário de esquerda, mesmo sendo ele dotado de um conteúdo neoliberal bastante explícito. Lembra os primórdios do PSDB em 1989, quando o tucanato se autoproclamava de centro-esquerda quando apenas era inspirado na atualização do liberalismo clássico.

Naquela época o tucanato ainda era comedido por membros humanistas como André Franco Montoro e Mário Covas e o PSDB ainda lembrava um PSD mais moderno (leia-se o PSD na sua fase anos 50). Daí um certo vínculo com os valores iluministas que o liberalismo clássico chegou a considerar, mas que o neoliberalismo abandonou completamente, apesar dos progressos da humanidade.

O MERCADO FONOGRÁFICO SE TRANSFORMA

Um dos equívocos que a intelectualidade badalada e detentora dos privilégios da visibilidade e prestígio acadêmico fazem é defender a tese de que a simples crise das maiores companhias fonográficas mundiais representa, por si só, o fim das grandes gravadoras.

Dá para ver a associação de Pedro Alexandre Sanches com o Coletivo Fora do Eixo, que já tem como integrante o produtor Carlos Eduardo Miranda, que havia sido parceiro de Tatola na fase "grunge" da rádio paulista 89 FM (atual UOL 89 FM), a mesma que hoje tem Otávio Frias Filho, ex-patrão e mestre de Sanches, como sócio acionário. Famiglia unida...

Carlos Eduardo havia feito um simulacro de "gravadora independente" sustentado pela norte-americana Warner Music. A grande mídia tentou espalhar aos quatro ventos que a Banguela Records era uma "gravadora independente", quando era apenas um sub-selo da Warner, que a mídia creditava como "simples distribuidora". Aí vieram outros selos do tipo como Radical Records (EMI) , Indie Records (PolyGram) etc.

E farsa não colou, porque ficou muito fácil montar um selo "indie" dentro de escritórios arranjados pelas grandes gravadoras. E mostra que essa intelectualidade anda blefando muito quando diz que as grandes gravadoras estão morrendo e o mercadão mergulhará fundo na indústria independente.

O que ocorre, na verdade, é uma rearticulação de forças. As grandes gravadoras apenas cedem terreno a outras grandes gravadoras. É como na política brasileira, quando a ARENA cai e depois o PSDB se ascende ao poder. E existem selos fora do quarteto Sony-Warner-Universal-EMI (remanescentes das "sete irmãs" de 20 anos atrás) com clara mentalidade de grandes gravadoras.

O exemplo brasileiro da Som Livre é ilustrativo. A gravadora nem de longe pode ser considerada independente, e nem mesmo pseudo-independente. Seu vínculo com as Organizações Globo, bastante explícito e assumido, impede que o selo se alinhe num contexto de mídia alternativa na qual se inserem verdadeiras (e poucas) gravadoras independentes brasileiras, como a Baratos Afins.

Enquanto isso, vemos também selos pequenos do Pará, da Bahia e de Goiás, só para citar exemplos, que já possuem mentalidade de grandes gravadoras, em muitos casos até de uma forma bem mais cruel. Uma Sony Music, por exemplo, com toda a sua tirania mercantil, é capaz de permitir a liberdade artística para Bob Dylan, um dos mais "difíceis" artistas da música contemporânea.

Essa liberdade não existe, por exemplo, nas "pequenas" gravadoras do Pará que investem em "forró eletrõnico" e tecnobrega, pois seus executivos, associados aos empresários de seus "artistas", impõem normas rígidas e um método escravista de trabalho, transformando os músicos em sub-empregados.

No exterior, destaca-se a gravadora asiática YG, que lançou o cantor Psy, que gravou vários álbuns na gravadora antes de ser vendido como um suposto "fenômeno de Internet". A YG se configura como uma multinacional, com escritório nos EUA e filiais em vários países. Mas, se nos guiarmos pela análise "segura" dos intelectuais brazucas, ela seria definida como "independente".

NOVAS MÍDIAS CONSERVADORAS

O que se observa, também, é que no âmbito das novas mídias digitais, a tão sonhada revolução social simplesmente não aconteceu. A própria grande mídia, sobretudo a "popular", restringe a atuação social na Internet a bobagens que envolvem desde gafes de pessoas anônimas até a risíveis sucessos musicais.

A própria "pequena" indústria fonográfica brasileira é esperta. Para dar a impressão de que não faz parte da indústria, ela lança seus "artistas" primeiro através dos vídeos do YouTube. Depois é que lança em disco, isso quando lança. Mas nem por isso esses ídolos se tornaram "indie" ou representam a extensão cultural e popular das novas mídias.

As novas mídias digitais apenas foram uma novidade como a televisão brasileira em 1950. A tão propagada "revolução socialista" não se deu pelo clique de um mouse nem pelos 140 caracteres do Twitter. E, além disso, as empresas de informática e de Internet se mostraram conservadoras, assim como "gurus" executivos como Bill Gates e Steve Jobs, adeptos do neoliberalismo como qualquer empresário moderno.

Mas mesmo os internautas brasileiros mostraram seu ultraconservarodorismo em tons reacionários. A trolagem é um fenômeno na Internet que, socialmente, é comparável ao do Comando de Caça aos Comunistas no Brasil de 1964.

O ultrareacionarismo juvenil, através de comentários jocosos por vezes lançados com pseudônimos (fakes), representou uma defesa desesperada do "estabelecido" pela mídia, política e mercado dominantes. Isso derrubou qualquer utopia de que as redes sociais se tornariam um paraíso de rebelião socialista, uma "primavera" digital.

A chamada subversão dos direitos autorais também é um conceito que requer cautela. Os "gurus" da subversão do tal "copyleft" também não querem que os artistas recebam dinheiro por suas obras, já que o ideal, no caso, defende apenas a "liberdade" no uso de obras alheias, mas sem atentar para o uso responsável, favorecendo até mesmo a pirataria fonográfica e digital como fins em si mesmos.

Os "agentes" acabam se tornando outros, pois se temos, de um lado, empresários e editores de obras artísticas ficando com a grana, de outro teremos equivalentes "clandestinos" e "modestos" dos mesmos, fantasiados de "guerrilheiros digitais".

Devemos, portanto, tomar muita cautela. A indústria fonográfica apenas rearticula suas forças e estruturas de poder. As novas mídias são apenas novas mídias, mudanças maquinais que pouco refletem, por si mesmas, no progresso das mentes. Por mais que tenhamos Twitter, Facebook e YouTube, são as mentes humanas que de fato realizam transformações, e isso vale desde a idade da pedra.

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