sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

A INDÚSTRIA TOTALITÁRIA DA AXÉ-MUSIC

A DITADURA DA AXÉ-MUSIC OBRIGA QUEM FAZ MÚSICA DE QUALIDADE A FAZER CARREIRA EM OUTROS LUGARES, COMO MARIENE DE CASTRO, QUE AGORA ESTÁ NO RIO DE JANEIRO.

Por Alexandre Figueiredo

A axé-music é um dos ritmos mais ambiciosos do brega-popularesco. Constituído de uma música dançante comercial , ela estabelece uma reserva de mercado total em Salvador, enquanto tenta criar reservas de mercado em outras cidades, como Belo Horizonte e Florianópolis.

Isso provoca uma grande injustiça, porque a axé-music, totalitária, cria um mercado quase exclusivamente seu na Bahia, para o qual as demais manifestações culturais só têm espaço quando cooptadas pelo esquemão da indústria carnavalesca e seus ídolos axezeiros.

Em contrapartida, a axé-music tenta criar mercado em outras capitais como se fosse um ritmo dessas regiões. Se na Bahia a axé-music não dá espaço para outras expressões, no entanto quer que outros lugares aceitem que se faça eventos de micaretas pouco importando se eles provocam poluição sonora, degradação ambiental etc.

Pretextos são usados para tais manobras. Para cooptar as demais manifestações culturais ao seu esquema - mas impedindo que as mesmas se expressem fora dele - , a axé-music se autoproclama "expressão da diversidade" e se molda como uma tendenciosa indústria cujos "artistas" travestem seu som de reggae, rock, disco music e afoxé e ainda se autocelebram supostos herdeiros do movimento Tropicalista.

Para tentarem emplacar em outros lugares, os ídolos da axé-music se autodefinem como "nacionais", julgando que sua "cultura" é "universal" e por isso se acham no direito de empurrar seu engodo musical para qualquer lugar.

As injustiças se dão porque a axé-music que quer mais espaço para si, mas impede que haja o espaço para os outros. A axé-music se torna uma ditadura no entretenimento baiano, que afastou, há tempos, vários artistas locais, obrigados a fazer carreira no Rio de Janeiro e em São Paulo, às vezes em Belo Horizonte ou Recife.

É notório, por exemplo, o caso dos roqueiros baianos que precisaram mudar para São Paulo para seguirem suas carreiras musicais, de Raul Seixas a Pitty. E, quando o assunto é MPB, a situação não é muito diferente, apesar das tentativas das cantoras de axé-music, sobretudo Ivete Sangalo, de se apropriarem da MPB em várias de suas tendências, do baião ao Clube da Esquina.

A axé-music exerce até uma forma piorada de apropriação da cultura brasileira em relação àquela que a crítica reprovou em Caetano Veloso, sobretudo no auge da imprensa musical brasileira, nos anos 70 e 80. Isso porque Caetano pelo menos conseguia ter algum conhecimento de causa, com sua capacidade de pesquisador musical, oportunista talvez, mas dedicado.

Já na axé-music, essa apropriação se faz de forma pedante e forçada, mostrando uma certa aflição das "divas do axé" em vincular suas imagens a tudo que for tendência na MPB autêntica, até mesmo a sofisticada Bossa Nova, enquanto também faz o mesmo nas tendências brega-popularescas, buscando uma influência ou, ao menos, uma associação totalitária dessas cantoras na música brasileira.

A tirania da axé-music e seu mercado sonegador de impostos e escravista, que transforma músicos acompanhantes em empregados de baixo escalão e que dificulta condições de viabilização do Palco do Rock - uma das vezes o evento paralelo ao Carnaval baiano teve que ser realizado numa casa noturna, sob cobrança de ingressos - faz com que Salvador, cidade aprazível, no entanto não possa ser um mercado próspero para a música baiana de qualidade.

O mais recente nome da música baiana a deixar Salvador foi Mariene de Castro, uma cantora de MPB comprometida com as raízes da música baiana, inclusive o samba. Nem mesmo a influência de Dorival Caymmi, um dos pioneiros da moderna música baiana de qualidade, faz com que os artistas locais possam ter espaço próprio de divulgação, dependendo da cooptação feita pelos ídolos oportunistas da axé-music.

Enquanto isso, o mercado da axé-music é completamente dominante na sociedade local. A axé-music propriamente dita, representada sobretudo pela cantora Ivete Sangalo e pelos grupos Chiclete Com Banana e Asa de Águia, é reservada sobretudo às plateias mais abastadas, capazes de pagar altas quantias financeiras para obter abadás e pagar ingressos caros para a folia dos grandes blocos baianos.

Há também o "pagodão", o "porno-pagode" ou "suingueira", representado sobretudo por grupos como Psirico, Harmonia do Samba, É O Tchan e Parangolé, mas envolvendo centenas de outros, feito para um público de baixa renda, mas também jogados para os públicos mais abastados como "complemento mais sensual" para a folia da elite da axé-music.

Depois, há o "arrocha", que é uma versão, tocada por um tipo de sintetizador barato e com programação de bateria eletrônica, do brega dos anos 70, sobretudo de Amado Batista, com elementos trazidos pelo sambrega de Alexandre Pires e pelo breganejo de Zezé di Camargo & Luciano.

Inicialmente trabalhado por nomes como Nara Costa, Sylvano Sales e Brazilian Boys, o arrocha tem agora como seu cantor principal um ídolo de nome Pablo, e já se fala em "arrocha universitário", um rótulo que nada quer dizer a não ser uma denominação feita exclusivamente para atrair plateias mais abastadas.

Com tudo isso, o mercadão do Carnaval baiano, que se alimentará através do Festival de Verão e tem o apoio dos barões da mídia nacional - as Organizações Globo injetam dinheiro na axé-music - , representa um empecilho para a verdadeira cultura baiana, obrigando quem faz música de qualidade na Bahia a se "exilarem" em outras capitais.

A ditadura da axé-music é tão somente uma "indústria" que nada traz de relevante para os valores sócio-culturais, não produz conhecimento nem valores artísticos e sociais e não representam progresso social, apenas sendo feita para enriquecer seus beneficiários diretos e indiretos, que são seus ídolos milionários e os empresários, executivos midiáticos, intelectuais e políticos associados.

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