terça-feira, 18 de dezembro de 2012

THE VOICE BRASIL E A SUPERVALORIZAÇÃO DOS CONCURSOS MUSICAIS


Por Alexandre Figueiredo

A histeria em torno da final do programa The Voice Brasil - uma franquia de um programa estrangeiro - , da Rede Globo, mostra o quanto a opinião pública média ainda depende dos valores da grande mídia até mesmo para estabelecer o futuro da cultura brasileira.

Afinal, essas pessoas podem falar mal do Jornal Nacional, não ver o Casseta & Planeta por causa do Marcelo Madureira, cortar a assinatura da revista Veja, chamar Eliane Cantanhede de "dondoca histérica" e até cortar a assinatura da revista Veja que, horas atrás, essas mesmas pessoas achavam ser "o melhor exemplo" de imprensa investigativa.

No entanto, são essas mesmas pessoas que fingem odiar a Globo a ponto de colocar no Facebook as charges que Carlos Latuff faz sobre a emissora. Mas quando chega Luciano Huck, ou Galvão Bueno ou Fausto Silva, essas pessoas voltam ao seu estado de transe hipnótico, tomando como "valores seus" os valores da "casa".

E lá foi todo mundo apostar num programa de calouros, por sinal uma franquia de um programa de uma produtora holandesa, a Talpa, mas que foi implantado por influência de sua edição estadunidense. E, no Brasil, onde a grande mídia manipula o inconsciente até mesmo das esquerdas mais frágeis, até elas apostam num programa desses para a renovação da Música Popular Brasileira.

Isso é mau. Afinal, já se imaginou que o WalMart iria decidir sobre o futuro do samba brasileiro, com as Lojas Americanas, companhia brasileira adquirida pela rede estadunidense, tocando ídolos do chamado "pagode romântico" (que os incautos definem como "samba moderno"). E ficam achando que um reality show irá trazer o novo grande gênio da MPB.

E olha que, do quadro de jurados, apenas metade possui vínculo autêntico com a MPB, que são os músicos Carlinhos Brown e Lulu Santos. E, além disso, como todo programa de calouros, há também a valorização da técnica, sobretudo vocal, em detrimento da criatividade.

Afinal, é muita técnica, sobretudo no padrão "gritado" adotado no ato de cantar, como e todo mundo pudesse ser cantor de spirituals. E não pode. Dá até saudades dos tempos em que até mesmo uma cantora teen como Connie Francis podia ter uma voz encantadora e doce. Se tivesse surgido hoje, Connie teria que optar pelos sussurros "sensuais", pela voz robotizada ou pelo falso timbre de cantora negra.

Tudo é postiço, muito técnico, muito empostado. No entanto, é algo tão artificial que ficou até fácil para os cantores neo-bregas, como Alexandre Pires e Zezé di Camargo & Luciano, brincarem de fazer música com sua "MPB de mentirinha", através de covers dos sucessos da MPB que não os faz mais talentosos, mas os nivela justamente aos cantores lançados ou promovidos nos reality shows.

Afinal, virou clichê cantar sucessos de MPB, dentro daquele canto "emocional" gritado, cheio de malabarismos copiados de cantores comerciais dos EUA (como Celine Dion, Michael Bolton e a falecida Whitney Houston), onde os clichês da "boa voz" menos demonstram emoção, soando técnicos demais.

Além disso, como em toda competição, não há como apostar numa verdadeira renovação musical. Cantores demasiado técnicos e gravando covers nem sempre sugerem que sejam grandes criadores. Talvez isso seja até mais raro disso acontecer.

O que devemos nos lembrar é que a renovação da música brasileira não depende de campeões de competições, muito menos de um júri onde, de quatro integrantes, só dois são realmente vinculados à MPB. E a história da MPB mostrou que muitos clássicos da MPB não eram sequer vencedores dos festivais de música brasileira.

Por isso, não dá para apostar no The Voice Brasil como termômetro do que será a nova MPB. Quem pensa assim está perdendo muito tempo com isso. Nem o The Voice Brasil, nem o Domingão do Faustão, nem o Caldeirão do Huck, nem as trilhas de novelas "globais". A verdadeira MPB não depende desses artifícios para mostrar seu valor e traçar seu futuro.

É isso que a opinião pública média não percebe, nem mesmo as esquerdas médias, nem mesmo a intelectualidade pós-tucana associada. Eles andaram vendo televisão aberta demais nos últimos 30 anos. "Cultura", para eles, é só uma questão de mercado, marketing e do que os barões da mídia decidirem.

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