segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

SÃO PAULO, UMA CAPITAL CONSERVADORA?


Por Alexandre Figueiredo

A cidade de São Paulo pode ser a maior da América Latina, mas em que pese seu caráter aparentemente moderno, ela vive o conflito histórico entre modernidade e atraso, cosmpolitismo e provincianismo, progresso e retrocesso. A cidade serve para vitrine tanto de ideias futuristas quanto de interesses coronelistas.

Pois a São Paulo do PSDB, partido pretensamente moderno que demonstrou ser um aglomerado político bastante conservador, ainda tenta dar seu grito. A velha grande mídia, agonizante, junto aos políticos reacionários que não conseguem mais exercer seu prestígio, busca seus últimos recursos de apoio, para manter seu poderio de alguma forma.

Pois em certos momentos, o conservadorismo vê a hora de substituir os anéis, para preservar os dedos. Cria "novidades" que buscam reciclar seu poder sobre a sociedade. E São Paulo foi durante muito tempo o lugar exato para a reciclagem ideológica de ideias e fenômenos retrógrados no Norte, Nordeste e Centro-Oeste. Hoje, o segundo polo dessa reciclagem é o Rio de Janeiro.

Se o Rio de Janeiro agora realimenta tendências retrógradas que a "reciclagem" paulistana não consegue mais fazer prevalecer, São Paulo ainda não perdeu a "majestade" do processo. Sede do Instituto Millenium e quartel-general da velha grande mídia, São Paulo vê agora os barões midiáticos fazerem suas últimas apostas numa simples emissora de rádio.

Foi dessa forma que eles investiram no "retorno triunfal" da 89 FM, rádio que distorceu, deturpou e empastelou a cultura alternativa juvenil para os clichês e estereótipos mais conservadores. Rebatizada de UOL 89 FM, a emissora, apesar do discurso "novidadeiro" e do oba-oba em torno da "rádio rock", possui o suporte conservador do apoio de Otávio Frias Filho.

A parceria está prevista para um ano, contando a partir deste mês. Mas a grande mídia sempre depositou apoio à 89 FM, e o respaldo ideológico continuará. A rádio está tendo um sucesso comercial e de audiência, nem tanto por ser "rádio de rock", mas por ser uma emissora destinada a um tipo de catarse juvenil e uma onda saudosista dos anos 90.

A 89 FM sempre foi expressão de uma São Paulo que tenta ser moderna e conservadora ao mesmo tempo. Seu paralelismo ideológico com a Folha de São Paulo e o PSDB é exato. O protecionismo dos grupos Folha e Abril permitiram que as críticas do público de rock autêntico contra as limitações e erros da emissora permitiram que a 89 ficasse mais tempo no ar, mais pelo seu departamento comercial forte.

RETORNO VISA DOMESTICAR REBELDIA JUVENIL

O retorno da 89 FM, portanto, tem como objetivo principal fazer com que a juventude brasileira seja controlada de forma mais intensa pelos barões da grande mídia. O retorno da "rádio rock", além de favorecer a indústria de eventos internacionais de música, tem por fim criar uma forma "aceitável" de rebeldia que não ofereça ameaça ao poder político, econômico e midiático.

Alvo de muitas críticas e até ridicularizada por blogueiros e humoristas, a Folha de São Paulo optou pela tutela da 89 FM para salvar seu poderio. Uma rádio evangélica chegou a oferecer uma grana tentadora para comprar a 89 FM, ainda durante sua fase pop, iniciada em 2006 e encerrada há poucas semanas. Mas a Folha, através do portal Universo On Line, de sua propriedade, decidiu investir na volta da "rádio rock".

Portanto, são três processos. Um é retomar o nicho de consumo de medalhões da música internacional, fortalecendo uma indústria de promoção de eventos. Até aí nada demais. Mas o segundo e terceiro processos é que tornam-se cruciais para a domesticação da juventude brasileira e o esfriamento de seus ímpetos rebeldes.

O segundo processo, portanto, visa salvar os barões da grande mídia, cujo poder está abalado pelas críticas feitas por blogueiros. Nem mesmo as réplicas dos colunistas da Folha, como Josias de Souza e Eliane Cantanhede, contra a blogosfera, conseguem surtir efeito.

EVITAR OS MOVIMENTOS DE OCUPAÇÃO

Através da UOL 89 FM, a grande mídia tenta domesticar a juventude com um pretenso projeto de "rebeldia", no qual o rock é usado como pretexto. Culturalmente, o rock nem é abordado de forma abrangente pela rádio, cuja programação é restrita aos "grandes sucessos" do rock e aos nomes mais comerciais. Em outras palavras, uma mera rádio de hit-parade, só que "voltada" para o rock.

Com isso, a emissora pretende completar o "serviço" dos anos 90, no qual a rádio tentou se impor como um pretenso paradigma de radialismo rock, tentando enfraquecer as rádios autenticamente rock que existiram até 1990, pressionando-as para se diluírem comercialmente até serem extintas pela queda de audiência.

Retornando ao ar sob o mais exagerado e risível entusiasmo de seus ouvintes, a 89 FM  tenta se impor como um pretenso polo de rebeldia, reduzindo, no entanto, o instinto rebelde dos jovens brasileiros a um patamar de pose, retórica e mero consumismo.

A intenção é claramente evitar que se repitam, no Brasil, os movimentos de ocupação que acontecem na Europa e nos EUA, e que chegaram a ter reflexos na Argentina e no Chile. As pressões dos argentinos contra o capitalismo chegam ao ponto de impulsionar a Lei de Meios naquele país, ameaçando o poderio midiático do Grupo Clarín, que sofre o risco de perder boa parte de seu patrimônio.

Assustados com as pressões no exterior, os barões da grande mídia "ressuscitaram" a 89 FM visando a domesticação juvenil através dos estereótipos trabalhados pela rádio, que já nem de longe adota uma linguagem e uma filosofia realmente roqueiras, com seu padrão de locução, vinhetas e grade de programação claramente inspirados na Jovem Pan 2, mas "adaptados" para clichês roqueiros.

O simulacro de rebeldia da 89 FM tenta, assim, dar a impressão de que "existe rebeldia", mas que ela ocorre em níveis "saudáveis" (no jargão dos barões da mídia), algo complementar ao que o "negócio aberto" de George Soros faz financiando o Coletivo Fora do Eixo.

MODERNO NA FORMA, CONSERVADOR NA ESSÊNCIA

Assim, a 89 FM completa o serviço de uma elite paulistana ao mesmo tempo moderna (na forma) e conservadora (na essência). Com o respaldo da Folha de São Paulo e do resto da grande mídia, sob as bençãos do Instituto Millenium e de toda uma elite de direitistas que vão desde a "arrojada" Sônia Francine ao neo-medieval Carlos Alberto di Franco, a 89 FM nem está aí para mudar o mundo.

Pelo contrário, a UOL 89 FM será apenas uma realimentadora do mercado midiático, a promover sempre um conjunto de consumismo e conformismo, só que adaptado a clichês inócuos de rebeldia roqueira. E, como a São Paulo das elites demotucanas e seus séquitos, será mais um ente conservador a evitar que a mobilização juvenil do exterior seja fielmente reproduzida por aqui.

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