sábado, 22 de dezembro de 2012

RUPERT MURDOCH E O SENSACIONALISMO À BRASILEIRA


Por Alexandre Figueiredo

O grande erro das esquerdas médias, vulneráveis ao "canto da sereia" de intelectuais festivos amestrados pela grande mídia, é adotar, sem critério, qualquer fenômeno social, por mais aberrante que seja, sob o rótulo de "popular".

Isso faz com que a condescendência com a imprensa sensacionalista brasileira, mesmo sendo ela associada aos barões da mídia do mesmo jeito, ocorresse no Brasil, em detrimento à postura enérgica que a sociedade do Reino Unido adota em relação à grande mídia.

Meio Odair Cunha perdoando os Policarpos, as esquerdas médias ainda chegam ao ponto de elogiar a mídia popularesca brasileira, sob o pretexto de que é "muito divertida". Para tudo se tem um jeito, reza a cartilha do "jeitinho brasileiro", e a defesa retórica da mídia popularesca dá matizes diferentes a esta, na tentativa de lhe atribuir algum valor (se é que existe algum).

Assim, a mesma mídia popularesca, de jornalecos "populares" e programas de TV de "variedades" e também os policialescos, pode ser definida pelos seus defensores como "jornalismo investigativo" ou "jornalismo de humor" conforme as circunstâncias, no esforço vão de evitar críticas.

Aqui a mídia popularesca é esperta o suficiente para evitar qualquer ênfase no seu proprietário ou para deixar vazar algum deslize muito grave. Não se tem o culto de personalidade que um Rupert Murdoch exibe nos círculos midiáticos.

Até temos um "News Of The World" brasileiro, o jornal Expresso, que circula nas bancas do Rio de Janeiro. E esse jornal não tem um "Murdoch", mas três, que são os filhos de Roberto Marinho. E o Meia Hora, por outro lado, faz parcerias promocionais com o Grupo Abril. Só que aqui o rótulo "popular" acoberta qualquer barbaridade.

Além disso, Expresso tem como articulista o queridinho das esquerdas médias mais condescendentes, o dirigente funqueiro MC Leonardo. E a linha editorial de Expresso - não muito diferente do Meia Hora dos donos do jornal O Dia - tranquiliza seus membros, pelo conteúdo "popular" veiculado por periódicos desse tipo.

Mas o sensacionalismo desses jornais não é muito diferente ao que o News Of The World havia feito com o caso da menina assassinada Milly Dowler, de 13 anos em 2002, por um matador em série fixado em meninas colegiais. O jornal de Murdoch, segundo revelação do também britânico The Guardian, havia invadido a privacidade ao se apropriar de mensagens de celular deixadas pela vítima.

O que dizer do "nosso" Aqui Agora, que aguarda uma "reabilitação cult" pela patética grande mídia do entretenimento, que mostrou no horário vespertino, aos olhares até de crianças, cenas de suicídio? Mas nem isso tira a reputação desses programas, inabaláveis no indulto semântico que a intelectualidade dá à palavra "popular".

O sensacionalismo à brasileira, num país que historicamente foi marcado pelo "iluminismo de engenho" de simpatizantes tímidos da Revolução Francesa, que resistiam radicalmente à ideia de abolição da escravatura, temos uma esquerda média que ainda não confronta o brega-popularesco, preferindo aceitar todo o espetáculo de mediocrização sócio-cultural, pelo pretexto de que é "popular".

Afinal, o sensacionalismo da imprensa "popular" brasileira se situa num contexto de crise de valores que faz as elites confundirem a ignorância do povo pobre com pureza e inocência. E a imprensa "popular" trabalha seu sensacionalismo de forma "inocente": alegres popozudas, hilários casos pitorescos, idolatria a jogadores de futebol e integrantes de reality shows, e tem até promoções de ingressos para eventos popularescos.

Para os analistas médios, o povo pobre não tem a mesma responsabilidade social dos britânicos, portanto o que é aberrante para eles, é "divertido" para o Brasil. Grande equívoco, porque um país em desenvolvimento com o Brasil acaba apostando no atraso das populações pobres que é "amenizado" pela cosmética discursiva dos intelectuais "de nome".

Além do mais, não dá para esperar que o pior aconteça, para que abramos nossos olhos para os males desse jornalismo que trata o povo feito uma matilha de vira-latas. Quantas Milly Dowler aparecerão dentro de uma multidão de popozudas, se poucos conseguem enxergar os Rupert Murdoch que estão por trás dessa mídia do pitoresco e do grotesco?

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