segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

RÁDIOS "AM+FM" NO CONTEXTO DA CONCENTRAÇÃO MIDIÁTICA


Por Alexandre Figueiredo

Uma das piores práticas de corrupção envolvendo os grandes grupos de Comunicação no Brasil é algo que é encarado sob vistas grossas pela opinião pública média. É a dupla transmissão AM e FM de certas emissoras de rádio, ligadas a grandes corporações, um processo que há um bom tempo garante o superfaturamento dos barões da grande mídia em várias partes do Brasil.

Usando como eufemismo o "simpático" nome de "rádios AM + FM", esse embuste mal consegue dizer a que veio. Seu marketing chega cinicamente a sugerir um direito de escolha que não existe, porque o ouvinte é de qualquer maneira "empurrado" para a sintonia em FM, e as razões para essa dupla sintonia são muito nebulosas, baseadas em desculpas esfarrapadas aceitas comodamente pelos radiófilos.

São desculpas que variam de "melhor cobertura" até a "recepção pelos telefones celulares". A "melhor cobertura" é uma desculpa tecnicamente inviável, pois usa-se o pretexto de que a FM sintoniza onde o AM não alcança, quando sabemos que as ondas de AM permitem um alcance até mesmo internacional e intercontinental.

No entanto, muita gente boa caiu nessa cilada de "rádios AM + FM". O auge da hegemonia da grande imprensa na formação da opinião pública - quando se glamourizam e superestimam as qualidades da profissão jornalística, exagero que ofusca quem realmente é bom e exalta quem não é tão bom assim - também fez muita gente se submeter a essa armação.

Ela nem beneficia diretamente os jornalistas que trabalham na rádio. Só favorece mesmo os donos e seus astros maiores. A dupla transmissão AM/FM faz com que haja, numa mesma região de cidades, duas ou até mesmo mais emissoras reproduzindo a mesma programação. Raros foram os radiófilos que sentiram o forte odor de armação, pois boa parte deles se deslumbrou com a medida.

SUPERFATURAMENTO

Isso porque o processo se resume em uma ideia bastante clara: um só trabalho acaba gerando dupla renda, pois embora mais de uma rádio transmita exatamente a mesma programação numa mesma região, cada emissora responde individualmente pelos aspectos jurídicos.

Assim, na medida em que cada emissora precisa de algum investimento, os donos disfarçam o aspecto publicitário e usam os artifícios jurídicos para pedir mais dinheiro. Um exemplo fictício pode explicar melhor como isso se dá.

A "Rede Morango" conta com duas emissoras, juridicamente registradas como Rádio Framboesa AM e Rádio Cereja FM. As duas foram obrigadas a usar um nome de fantasia, "Rádio Morango AM" e "Rádio Morango FM", porque passaram a transmitir a mesma programação de rede.

No aspecto publicitário, são duas rádios transmitindo a mesma programação, e o ouvinte é em tese "liberado" para escolher qual a sintonia que deseja ouvir, a AM ou a FM. Em tese, porque todo um jogo de empurra, da roda de amigos à coluna de rádio na Internet, obriga o ouvinte a sintonizar quase sempre a FM.

Mas, quando há uma necessidade de mais investimentos e mais verbas, é o aspecto jurídico que é levado em conta. Manutenção de equipamentos? Leva-se em conta que são duas emissoras juridicamente diferentes. O mesmo quanto à solicitação de outros investimentos, até mesmo de pagamento de salários, por exemplo, mas até mesmo a oferta de publicidade aos anunciantes torna-se cara, se "valorizando" mais.

DESVANTAGENS INÚMERAS

Essa armação é fruto da propriedade cruzada que aumentou o poder dos grandes grupos midiáticos, nacionais ou regionais. E traz diversos transtornos e desvantagens que nenhum deslumbramento do colunista de rádio da moda consegue disfarçar. No fim, ele mesmo acaba cedendo, vendo os prejuízos que isso causa em diversos fatos.

O rádio AM se torna refém desse jogo duplo midiático. Perdendo audiência e mercado, as AMs veem uma concorrência alienígena marginalizar as demais emissoras. E, o que é pior, quando a crise financeira fica aguda, na dupla transmissão AM / FM, quem leva a pior é a sintonia de AM, que é extinta, agravando a situação de outras AMs que concorriam com a AM envolvida e "assassinada" pelo embuste.

É como uma operação de sequestro. Na dupla transmissão AM / FM, o rádio AM parece a vítima de sequestro, sempre prejudicada mas levada a escolher entre um prejuízo menor ou um prejuízo maior. A FM, tal qual o sequestrador, pede regalias, tenta levar todas as vantagens possíveis, e, quando não é atendida, elimina a vítima e pode escolher entre levar mais vantagens ou ter prejuízos insignificantes, como a perda de audiência em índices que não assustam os anunciantes.

A dupla transmissão AM / FM gerou outros prejuízos. Elimina a segmentação das FMs, já que muitas programações musicais personalizadas foram dizimadas porque as emissoras deram lugar a repetidoras de AMs na mesma região. Além disso, como transmissões em rede - mesmo na rede doméstica, que é o caso da dupla transmissão numa mesma região - , também muitos profissionais vão para o olho da rua, como se viu em muitas demissões em massa.

CONCENTRAÇÃO DE PODER

No contexto da concentração de poder, as "rádios AM + FM" só tiveram aspecto positivo para os barões da grande mídia e seus porta-vozes jornalísticos, os grandes comentaristas, editorialistas e articulistas. Eles aumentaram seu poder sobre a opinião pública, a ponto de quase privatizá-la sob suas mãos, submetendo ao ouvinte condicionar sua vida a uma "linha editorial" de sua rádio predileta.

Até poucos anos atrás, antes da ascensão de uma blogosfera mais analítica e abrangente, os consumidores de informação preferiam até mesmo deixar de lado o raciocínio crítico e autônomo para "pensar" conforme seu jornalista preferido. Seu raciocínio torna-se submisso, mas o ouvinte tinha uma impressão falsa de que estaria se tornando simbolicamente "intelectualizado" só porque ouve tal emissora.

A propriedade cruzada, que é dos grupos midiáticos terem várias modalidades de Comunicação, não só entre rádios, TVs e jornais, mas em diversos portais de Internet e várias bandas de sintonia radiofônica, permitiu essa armação, usada sob o pretexto inicial de "economia de dinheiro", mas causando enriquecimento ilícito de seus proprietários.

Por isso, a dupla transmissão AM e FM, numa época em que se iniciam os meios legais de desmantelamento do gigantesco grupo Clarín, na Argentina, tornou-se um processo bastante duvidoso, que nem de longe representou, de fato, o otimismo que se via nos fóruns existentes em sítios sobre rádio.

Os radiófilos ignoraram que o processo aumentou o poderio midiático dos barões da grande mídia, e chegou-se ao absurdo do Grupo Bandeirantes aumentar sua influência direta ou indireta em cerca de um terço do dial FM transmitido em São Paulo.

O abuso acabou repercutindo de tal forma que nem a reputação do grupo empresarial, tido como exemplo de "boa informação" e "prestação de serviços", justificou tal concentração de poder. E acabou mostrando o caráter conservador e prepotente de um grupo que depois abrigaria Bóris Casoy, Marcelo Tas e outros tomados de surtos reacionários.

Com a decadência do rádio AM empurrada pelos barões da grande mídia - que pelo jeito querem fazer "queima de arquivo" na história do rádio - , o rádio FM monopoliza o mercado, mas já perde audiência pelas circunstâncias mais diversas. E cada vez mais se questiona o poder midiático, que não pode ser confundido com a opinião pública e, salvo raras exceções, nem está mais a serviço dela.

Por isso, as "rádios AM + FM" estão numa situação inconsolável de não poderem mais alcançar a tão sonhada liderança de audiência que uma sintonia exclusiva de AM, em outros tempos, garantia com folga, em relação às rádios de hoje com múltipla sintonia de AM, FM, celular, Internet e canal de áudio da TV paga, mas com um Ibope inferior até mesmo ao de muita rádio comunitária.

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