segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

PROVINCIANISMO PERMITIU A VOLTA DA 89 FM "ROQUEIRA"



Por Alexandre Figueiredo

A volta da dita "rádio rock" 89 FM, agora sob o nome UOL 89 FM, nem de longe representou a volta aos tempos áureos do radialismo rock. Pelo contrário, o retorno da emissora, que apenas retomou o caminho interrompido em 2006, se possibilitou pela situação de mediocridade cultural em que o país vive, e do qual a "rádio roqueira" também faz parte.

A memória curta de boa parte dos jovens de hoje e o fato de que eles são superficialmente informados das coisas permitiu muito que ressurgisse uma rádio como a UOL 89 FM. Com tanta rádio de rock para ressurgir, como a niteroiense Fluminense FM - em cuja frequência hoje irradia uma afiliada da noticiosa Band News - , ressurge logo um reles vitrolão roqueiro sem personalidade, uma mera "Jovem Pan com guitarras".

A histeria dos fanáticos da 89 FM, que ouviram a rádio sobretudo nos anos 90, nem de longe simbolizam a retomada do radialismo rock nem o fortalecimento da cultura rock depois de tanta hegemonia de brega-popularesco. E a volta da rádio se deu dentro de um contexto mercadológico bastante conservador.

Primeiro, por conta dos donos originais, a família Camargo, oligarquia paulistana historicamente vinculada a Paulo Maluf. Segundo, pela parceria acionária com o Universo On Line, de Otávio Frias Filho, figura conhecida da mídia conservadora. E, terceiro, por conta das parcerias comerciais em jogo, sobretudo entre Roberto Medina, o empresário do Rock In Rio, e as grandes empresas anunciantes.

O contexto sócio-cultural não é lá muito generoso. Afinal, a 89 FM é tida como "genial" num país onde o símbolo de "perfeição humana" é o apresentador Luciano Huck, "estadismo" está relacionado a Fernando Henrique Cardoso e Fernando Collor e o símbolo da "emancipação feminina" está ligado a figuras vulgares como Geisy Arruda e a ex-BBB Mayra Cardi.

É um público que, mesmo aquele dos grandes centros urbanos no Brasil, ainda é dotado de uma visão bastante provinciana, herdada sobretudo da péssima educação midiática nos anos 1990 e 2000. É um público que ignora qualquer tendência mundial, a não ser quando ela é mostrada pela TV aberta ou pelos canais mais banais da TV paga (como Multishow).

Portanto, é um público que acha que os DJs da música eletrônica estão "em alta", quando lá fora eles estão em decadência. É um público que menospreza a música de qualidade feita antes de 1975, que tem pouca vontade em ler livros e que, mesmo se achando "diferenciado", é facilmente vulnerável a modismos e hábitos impostos pela grande mídia do entretenimento.

Daí a aceitação fácil e um tanto exagerada de uma rádio pretensamente "roqueira", que no entanto está muito longe de representar um diferencial. A linguagem é igualzinha às rádios "putz-putz" (pop dançante) que os próprios fãs da emissora dizem abominar, como se pôde ouvir no áudio dos primeiros momentos da rádio na sua atual fase.

Tanto que o repertório chega a ser quase "retrô", voltado aos anos 90, com ênfase no grunge e no poser metal. Tendências que fazem parte do cardápio escasso de referências dessa juventude que acha que "anos 80" é só o que aparece no Ploc 80, e que acha que música brasileira é o brega-popularesco.

São jovens entre 18 e 40 anos, que só conheceram o mundo através do comercialismo extremo das rádios FM e do aprendizado superficial da TV aberta. São pessoas que andam muito atrasadas em relação ao que ocorre no mundo. E que não compreendem sequer as novidades como os movimentos de ocupação, o pós-rock, as manifestações alternativas.

A 89 FM parece "novidade" hoje, mas entrando na rotina, já daqui a alguns meses, voltará a ser mais uma rádio comercial a discriminar as tendências alternativas e a impor condições rígidas para lançar novidades, sempre passando pelos filtros provincianos e retrógrados da grande mídia brasileira.

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