quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

PERDEMOS TRÊS SÍMBOLOS DA MODERNIDADE


Por Alexandre Figueiredo

De uma só vez, perdemos três grandes símbolos da modernidade do Século XX, e que estavam em evidência sobretudo num tempo em que o Brasil buscava traçar um projeto progressista real.

No último dia 02, perdemos o professor universitário e poeta concretista Décio Pignatari. Ontem perdemos o músico de jazz norte-americano Dave Brubeck e o nosso querido arquiteto Oscar Niemeyer, uma das figuras mais admiráveis de nossa história.

Aliás, todos eram admiráveis. Eram símbolos de uma modernidade que animava o mundo e também o Brasil, naquele fim dos anos 50. Quem era jovem dificilmente ficava insensível a qualquer um dos três. Décio, pela sua poesia arrojada. Dave, pelo jazz altamente sofisticado e musicalmente sedutor. E Oscar, por seu desenho de Brasília e seus desenhos e palpites para a Universidade de Brasília.

Décio Pignatari era uma figura ímpar. Nos últimos anos, parecia um idoso bonachão e jovial, mas nos primórdios do movimento concretista, surgido em 1952 em São Paulo, Décio tinha pinta de vilão de comédia de cinema mudo.

Grande engano. Décio era um cara jovial e ousado, e era um contraponto moderno a Ferreira Gullar, poeta concretista e agitador cultural que, com o tempo, tornou-se bastante conservador. Assim como Tom Zé continua sendo um contraponto ao conservadorismo de Caetano Veloso, no caso do Tropicalismo, movimento que por sinal teve o concretismo como uma de suas influências.

Dave Brubeck era um músico que se ascendeu com seu disco Time Out, de 1959, como pianista de um quarteto de jazz que se consagrou com a belíssima música "Take Five". E, como os melhores músicos de jazz, na referida época em que o gênero aprimorava sua sofisticação artística, Dave tinha uma formação bastante tradicional, mas era moderno o suficiente para adotar o improviso e o experimentalismo musical.

Seu jazz, que tinha também influências de música clássica, também influenciou decisivamente a música brasileira, que então valorizava muito tanto suas raízes e sua identidade nacional como absorvia bem as novidades estrangeiras.

Dessa maneira, Brubeck foi bastante decisivo na formação musical da nossa MPB, sobretudo pelo intermédio da Bossa Nova, aberta às influências do jazz. E Brubeck era também cultuado pelo movimento literário beatnik e pelos jovens alternativos da virada dos anos 50 para os 60.

Oscar Niemeyer, comunista e ateu, no entanto era figura de notável senso de humor e jovialidade. Foi jovial até o fim da vida, sempre ativo até que suas funções físicas não aguentarem mais. Ele não foi apenas um arquiteto de brilhantes obras, mas também um intelectual ativista que participou de várias atividades, pôde conhecer figuras como Mário de Andrade e conviver com gente diversa como Vinícius de Moraes, Lúcio Costa e Juscelino Kubitschek.

Niemeyer participou da fundação do IPHAN (então SPHAN - Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), com diversos intelectuais comandados pelos mentores da instituição, Mário de Andrade e Rodrigo Melo Franco de Andrade, além de participar não só como arquiteto, mas também no aval dado ao projeto educacional da Universidade de Brasília bolado por Darcy Ribeiro e Anísio Teixeira.

Niemeyer também escreveu livros (um deles de 1961, Minha Experiência em Brasília, sobre a sua participação na elaboração da nova capital), letras, ilustrações e, como hobby, adorava desenhar mulheres, valorizando os traços sensuais que também eram aproveitados na sua estética arquitetônica.

Até hoje, morando em Niterói, vejo o Museu de Arte Contemporânea, a maravilhosa criação que Niemeyer fez pela cidade. E, além do mais, Oscar Niemeyer era de um importante clã, tendo sido trineto de Conrado Jacob Niemeyer, engenheiro que foi homenageado pela famosa Av. Niemeyer, no Rio de Janeiro.

Enfim, foram grandes figuras. De um tempo em que ser moderno não era bancar o polêmico e vulgar. Pensava-se em projetos de vida, discutia-se ideais, e a arte e cultura eram de grande qualidade. A perda dessas grandes figuras é um bom momento para pensar no que elas representaram para a gente e como seu legado se dá nos dias de hoje.

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